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KELMÉRICAS

A Marmota do Ano

Em sua coluna desta semana, Ricardo Kelmer aborda o polêmico artista que nunca existiu, Souzousareta Geijutsuka

Ricardo Kelmer
20 Jan 2006 - 00h30min


Oi, recebi teu recado. Tomara que seja muito importante mesmo, pra tu me ligar uma hora dessa... Tô no orelhão, fala rápido. O quê? Sério? Não, eu não acredito... É verdade mesmo? Quer dizer que atualmente o maior sucesso aí em Fortaleza é um artista japonês que nunca existiu? Não, vocestão de sacanagem comigo. Heim? Os jornais fizeram matéria de capa? O quê?! Entrevistaram o japa?! Não, assim vocês não querem que eu volte...

Yuri Firmeza? É um artista daí de Fortaleza? Não sei, acho que não conheço. Ah, foi ele quem inventou o artista japonês. Tá. E acertou com o Centro Cultural Dragão do Mar uma exposição no museu de arte contemporânea? Como se fosse do japa? Putz... Comué, ele criou um passado pro japa? Criou fotos das obras do cara, inventou uma assessoria de imprensa, enviou informações à imprensa? Deu entrevista por e-mail como sendo o japa? Que louco... Tá, mas o que tinha na exposição? Cópias de mensagens de e-mail? Ah, tá, que Yuri trocou com um filósofo, exatamente sobre a idéia da farsa. Ahahah! Sensacional! Isso sim é que é molecagem contemporânea!

Mas por que ele fez isso? Chamar a atenção sobre o quê? A questão da arte, tá. E denunciar a negligência da imprensa com os artistas locais? Hummm, olhassó... Danado esse Yuri, heim? E o público, o que achou? A maioria se manifestou favorável ao artista moleque? Certo. Os leitores do jornal o quê? Ah, criticaram o pedantismo dos jornalistas. Ok. E os jornalistas? Ahn? Apedrejaram o artista?Comassim? Quer dizer que não reconheceram o próprio erro? Ah, não. O quê? O jornalista afirmou que tudo isso era medíocre e que o objetivo do artista foi arranhar a credibilidade e a boa reputação dos jornalistas? Credibilidade e boa reputação. Entendi.

Peraí que tá passando um caminhão limpa-fossa. Pronto, já passou. Heim? O jornalista disse que muitos idiotas vão entender a coisa como um alerta oportuno sobre a cobertura jornalística da cultura no Ceará? Vixe, e é pra entender o quê? Ops, volta a fitaí, ele disse "idiotas"? Não, ele não disse isso, não é possível. Bem, então muito prazer, eu sou um dos idiotas. Corajoso o jornalista, né? Chamar o artista de medíocre, vá lá, é a opinião dele, apesar de ter um cheirinho de ressentimento. Mas chamar seus próprios leitores de idiotas? Uau! Afinal, o que tá havendo com a minha querida imprensa alencarina? Devem ter botado alguma coisa na bebida desse povo, não é possível.

Como é mesmo o nome do japa? Souzousareta Geijutsuka? Diabo de nome é esse? Quer dizer o quê em japonês? Artista inventado? Não, tu já tá sacaneando. Mas peraí... Nenhum jornalista se deu ao trabalho de pesquisar se esse seo Zé Sareta existia mesmo? Não tem internet nas redações do Ceará não? Heim? Os jornalistas disseram que o Dragão do Mar perdeu a credibilidade? Pois pra mim, isso que o Dragão fez foi uma benfeitoria pública. É. Afinal tudo isso serviu pra mostrar que o rei tá pelado e que o pinto do rei é pequeno. Sim, todo mundo sabia. Menos o rei.

O papo tá bom mas os créditos tão acabando, vamo ter que encerrar. Mas antes manda um recado aí pra turma. Diz que eu voto nessa história pro acontecimento jornalístico de 2006. Claro. A marmota do ano. De uma lapada só fez a cidade inteira discutir arte, lógica de mercado, subserviência cultural ao que vem de fora, o papel da imprensa e sua credibilidade, a postura dos jornalistas... Ah, é, e também serviu pra mostrar como são idiotas os tais leitores do jornal. Eu principalmente, que leio todo dia.

Olhassó, esse Yuri devia fazer uma estátua. Dele não, do seo Zé Sareta. Isso, no Dragão do Mar. O Ceará não é a terra da molecagem? Não foi Fortaleza quem uma vez vaiou o Sol na Praça do Ferreira? Então. Uma estátua do japa lendo jornal. Pra gente nunca mais esquecer do dia em que Fortaleza aplaudiu um artista que nunca existiu.

RICARDO KELMER é escritor, letrista e roteirista e vive no Rio de Janeiro - www.ricardokelmer.net

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