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Daslu, Daspu

Nesta semana, Eleuda de Carvalho analisa a polêmica do nome da grife Daslu com a recém criada Daspu

Eleuda de Carvalho
05 Dez 2005 - 12h56min

Deixa eu dizer pra você como nasce a Periférica. Lá para o meio da semana, começo a amarrar um tema, provocado por uma sugestão de leitor, por uma lembrança, alguma coisa que vi de relance na rua, no ônibus. Um negócio que sonhei... Bem. Pensei vários dias em flores, sabe, porque gosto demais delas, em especial as mais vagabundinhas, florzinha de beira de estrada, de pé de poste, nascida entre as pedras da rua, nas fendas de casas velhas. Ou mesmo as pequenas bonitezas, criadas em latas de óleo cortadas e presas com um prego no muro descascado, arremedo de jardins da Babilônia nascidas da invenção popular. E também as coisas lindas, margaridas e boninas e rosas e bugaris e as orquídeas perfumadas e luxuriantes.

Me lembrei do jardim de Nice, dos dedinhos verdes de Côca. Da mamãe plantando cravínias na frente de casa, dos arbustos aparados de pitangueiras na entrada do colégio onde estudei. Então, era pra ser florida, esta historinha de hoje. Mas uma notícia, melhor, duas delas ficaram bolindo meu juízo, alvoroçando os dedos.

Assim, recolho as pétalas, as sépalas, as corolas e todo o fulgor de asas de borboletas pra falar de discriminação. Sim, senhor, isto mesmo! Li uma notinha no jornal que dizia que, lá no Rio, nasceu uma nova associação feminina. Chama-se Davida. O nome é muito legal. À frente, prostitutas. Putas, as mulheres da vida (difícil, meus caros) lutando por dignidade. Por respeito. E também pra resgatar a alegria, o sentido da beleza, da auto-estima, isto de que todo mundo anda mesmo muito carecido. Bom. Acontece que as mulheres Davida resolveram lançar a nova organização com um desfile de moda. E resolveram batizar sua grife de
Daspu. Uau!

Passaram-se nem três dias, e outra notícia me chamou a atenção. Advogados, pagos a peso de ouro, diga-se, pela Daslu - um parque de diversões para peruas, pavoas e demais emplumadas com recheados cartões de crédito - sim, pois os causídicos exigiram na justiça a proibição do nome Daspu, por sua associação imediata à loja frequentada só pela gente bem. Bem rica. Bem sem vergonha, digo daqui da periferia do Brasil. Caso o leitor não tenha reparado - foi a mesma Daslu que, há cerca de dois, três meses, teve os diretores presos por crime de sonegação de impostos. Compravam quinquilharias no estrangeiro, vendiam pelos olhos da cara (da cara safada de quem não sua pra ganhar o que
tem) e apresentavam notas fiscais que eram uma verdadeira piada.

Claro que logo-logo panos mornos aliviaram a manchete das lulus na página policial. Claro que colunistas, artistas, promoters, socialites e toda esta fauna asquerosa e equivocada que adora aparecer espanou a poeira e deu a volta por cima. Eles se protegem. Mas querer proibir as mulheres Davida de usarem o nome Daspu, esta foi demais. Tenho certeza que a Daslu vai ganhar esta parada. A Daspu deve mesmo mudar de denominação, mas penso que é até melhor pras putas organizadas do Rio não associarem seu nome ao mau caráter travestido de gente fina. Elas, pelo menos, têm a coragem de assumir quem verdadeiramente são. Enquanto as outras...

E aposto que os modelitos criados pela Daspu são até mais imaginativos do que o lixinho metido a moderno e fino que as dasluzetes disputam a unhadas. Vou até mesmo sugerir um novo nome pras meninas, Despu. De despudoradas. Tem até um certo charme, não? Ainda vou dar muita risada!

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