Periférica
PERIFÉRICA
Folia de véspera
Em sua coluna desta semana, Eleuda de Carvalho conta histórias da cidade e suas folias de pré-carnaval
Eleuda de Carvalho
30 Jan 2006 - 21h23min
Aos amigos que lêem esta dita cuja, pra matar a saudade do Ceará... Do estado, bem entendido, embora o querido Roberto, cabeça-chata passando uma chuva longa em Porto Alegre, seja também um torcedor do time preto-e-branco e, como dizia minhavó, cada cabeça uma sentença. Sim, esta é pro Roberto, o Marcus, o Menguele e toda a turma que bateu a poeira da sandália e se mandou da terrinha, com um suspiro de alívio, mas depois, e talvez pela distância (que faz milagres) tenha redescoberto um bem querer insuspeito por esta cidadezinha quente por demais. Antes de lhes adoçar o gosto de uma lembrança, quero recordar a vocês alguns motivos pelos quais eu também às vezes morro de vontade de dizer até mais, Fustaleza! Primeiro, este calor que não dá trégua, começa mal o dia amanhece, piora por volta das 11 horas, fica infernal até umas quatro, e depois abafa madrugada a dentro, arriema!
Vote, cão. Quem é que pode bater perna no Centro, meudeus? Além da sujeira das ruas, da lama nas coxias - e olhe que ainda nem choveu - tem este retrato ampliado da corte de dona miséria, que floresce justamente no meio malsão da injustiça, parceira da desigualdade. É tanto pedinte, menino pequeno correndo nu e sujo na praça do Carmo, chusmas querendo lhe vender qualquer coisa, distribuidores de panfletos que enfiam papelzinhos na sua mão - não importando se você é uma mulher com mais de 30 e a propaganda é pra ingresso nas forças armadas, "homens até 25 anos", guardadores de carro que enchem o saco, limpadores de pára-brisa, os vendedores de água de coco em garrafinha berrando seu refrão, "oco, oco". Mulher barriguda com menino no braço implorando um dinheirim pra inteirar o leite. Comer, então, nem se fala. Você entra numa lanchonete em qualquer rua entre a Zé e Ferreira e não aguenta engolir nada com aqueles pares de olhos famintos colados no seu sanduíche, bocas vazias se movendo como se provassem o maná. Perdi foi a fome.
Bem, este é um retrato da cidade, sem retoques. Meu amor diz que vejo beleza em tudo, mas sei também enxergar o horrível, querido. Mas o caso é que, no coração do horroroso, em sua própria pele fosca, há também o que comova e brilhe e convide a celebrar, assim como nas bordas do precipício residem todas os caminhos possíveis, inclusive o salto solto no espaço e a descoberta de asas.
Sexta-feira, fim de tarde. Fui até o centro comprar ração pros gatos e quase sufoco entre o Carmo e a praça refeita pelo poeta. Calor, gente demais, pressa, carros alucinados, carrocinhas de frutas, de churrasquinho, mototaxistas, o diabo. Então, que som é este? Bonecos gigantes passeiam ao redor da velha cacimba, ao lado da Coluna da Hora. Mais adiante, mestre Miguel, de Juazeiro, prova mais uma vez ser duro na queda - depois do AVC que o deixou com uma banda bamba, Miguel, seu riso claro, está inteiro de novo e observa os filhos executando os passos e tirando os sons que ele lhes ensinou. Estão vestidos de cangaceiros e, novidade: a banda cabaçal de Miguel tem uma mulher. Pertinho, os tambores da Caravana Cultural. E também uns malabaristas, dois caras que faziam uns passos de capoeira em câmara lenta, enfim.
Sábado e domingo teve mais, ali na praça do Ferreira e também por diversos bairros. São os festejos de pré-carnaval. Se o forte da cidade não são os três dias de folia, Fortaleza está construindo para si um evento singular, que alegra a turistada e também a comunidade, tão carente de coisas boas e públicas. O Concentra Mas Não Sai conseguiu juntar, na democrática praça, todas as tribos: dos poetas loucos às bonecas; dos velhos que batem ponto nos bancos aos vendedores de cafezinho; comerciários saindo do trabalho e famílias que vieram dos bairros só por pura diversão, ao som de marchinhas imemoriais. Na pracinha da Gentilândia, mais marchinhas animadas e a rapaziada atrás - rapaziada é modo de dizer, que a faixa etária vai de 8 a 80. E ali no Bonsucesso, um bairro que ainda resiste entre o Jardim América e o Montese, o maracatu Nação Fortaleza ensaia as loas que levará à avenida, assim como mestre Juca do Balaio, aqui pertinho do jornal, não perde o ensaio do seu Ás de Ouro.
Pois é, amigos de longe. A cidade é quente, é problemática etc e tal. Mas pulsa, diverte-se e celebra. E é a casa de portas abertas para onde sempre vocês poderão voltar.
Vote, cão. Quem é que pode bater perna no Centro, meudeus? Além da sujeira das ruas, da lama nas coxias - e olhe que ainda nem choveu - tem este retrato ampliado da corte de dona miséria, que floresce justamente no meio malsão da injustiça, parceira da desigualdade. É tanto pedinte, menino pequeno correndo nu e sujo na praça do Carmo, chusmas querendo lhe vender qualquer coisa, distribuidores de panfletos que enfiam papelzinhos na sua mão - não importando se você é uma mulher com mais de 30 e a propaganda é pra ingresso nas forças armadas, "homens até 25 anos", guardadores de carro que enchem o saco, limpadores de pára-brisa, os vendedores de água de coco em garrafinha berrando seu refrão, "oco, oco". Mulher barriguda com menino no braço implorando um dinheirim pra inteirar o leite. Comer, então, nem se fala. Você entra numa lanchonete em qualquer rua entre a Zé e Ferreira e não aguenta engolir nada com aqueles pares de olhos famintos colados no seu sanduíche, bocas vazias se movendo como se provassem o maná. Perdi foi a fome.
Bem, este é um retrato da cidade, sem retoques. Meu amor diz que vejo beleza em tudo, mas sei também enxergar o horrível, querido. Mas o caso é que, no coração do horroroso, em sua própria pele fosca, há também o que comova e brilhe e convide a celebrar, assim como nas bordas do precipício residem todas os caminhos possíveis, inclusive o salto solto no espaço e a descoberta de asas.
Sexta-feira, fim de tarde. Fui até o centro comprar ração pros gatos e quase sufoco entre o Carmo e a praça refeita pelo poeta. Calor, gente demais, pressa, carros alucinados, carrocinhas de frutas, de churrasquinho, mototaxistas, o diabo. Então, que som é este? Bonecos gigantes passeiam ao redor da velha cacimba, ao lado da Coluna da Hora. Mais adiante, mestre Miguel, de Juazeiro, prova mais uma vez ser duro na queda - depois do AVC que o deixou com uma banda bamba, Miguel, seu riso claro, está inteiro de novo e observa os filhos executando os passos e tirando os sons que ele lhes ensinou. Estão vestidos de cangaceiros e, novidade: a banda cabaçal de Miguel tem uma mulher. Pertinho, os tambores da Caravana Cultural. E também uns malabaristas, dois caras que faziam uns passos de capoeira em câmara lenta, enfim.
Sábado e domingo teve mais, ali na praça do Ferreira e também por diversos bairros. São os festejos de pré-carnaval. Se o forte da cidade não são os três dias de folia, Fortaleza está construindo para si um evento singular, que alegra a turistada e também a comunidade, tão carente de coisas boas e públicas. O Concentra Mas Não Sai conseguiu juntar, na democrática praça, todas as tribos: dos poetas loucos às bonecas; dos velhos que batem ponto nos bancos aos vendedores de cafezinho; comerciários saindo do trabalho e famílias que vieram dos bairros só por pura diversão, ao som de marchinhas imemoriais. Na pracinha da Gentilândia, mais marchinhas animadas e a rapaziada atrás - rapaziada é modo de dizer, que a faixa etária vai de 8 a 80. E ali no Bonsucesso, um bairro que ainda resiste entre o Jardim América e o Montese, o maracatu Nação Fortaleza ensaia as loas que levará à avenida, assim como mestre Juca do Balaio, aqui pertinho do jornal, não perde o ensaio do seu Ás de Ouro.
Pois é, amigos de longe. A cidade é quente, é problemática etc e tal. Mas pulsa, diverte-se e celebra. E é a casa de portas abertas para onde sempre vocês poderão voltar.
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