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MUNDO DO VINHO
Para começar a degustar

Valdelírio Soares


[27 21h46min]


Vinho pede comida, comida pede mesa, mesa amigos. O vinho é uma bebida gregária. Você provavelmente nunca viu alguém apreciando sozinho uma garrafa deste néctar. Fazê-lo desta forma, é uma desagradável mistura de prazer e solidão. O maior dos benefícios do vinho é construir amizades.

Bebida com pelo menos sete mil anos de existência, o vinho carrega grande dose de simbolismo. Talvez o mais forte aspecto simbólico seja o seu uso na eucaristia da Igreja Católica, representando o Sangue de Cristo. A Bíblia é recheada de referências ao vinho, como a passagem do Gênesis que nos conta que após desembarcar os animais, Noé ''começou a cultivar a terra e plantou vinha. E, tendo bebido vinho, embriagou-se e apareceu nu em sua tenda''. Na mitologia greco-romana, a existência de um Deus do vinho, Dionísio para os gregos, Baco para os romanos, denota a importância dessa bebida para aqueles povos. Nos dias atuais esse simbolismo continua intenso. Veja como são celebradas as grandes conquistas do esporte, os grandes amores, as grandes inaugurações: abrindo uma garrafa de champanhe.

No Brasil, trazido da Europa pelos colonizadores, o vinho sempre foi cercado de uma certa aura de misticismo e muito esnobismo, o que leva grande parte das pessoas a pensar que o vinho é uma bebida exclusiva de abastados conhecedores, o que não é verdade. Ele é, sim, uma bebida rica em aromas e sabores que requer um pouco mais de atenção e conhecimento para ser apreciada. Muitas pessoas me confessam que têm interesse em curtir o vinho, mas que pela falta de conhecimento, se sentem constrangidas ao escolher um vinho nas lojas ou nos restaurantes. A essas pessoas dedico as primeiras edições desta coluna.

Para aprender a curtir o vinho, comece livrando-se dos preconceitos. O melhor vinho é aquele que lhe dá prazer. Não se sinta constrangido em gostar de vinhos suaves, se este é o seu caso, mas também, não deixe de experimentar vinhos mais complexos; eles irão lhe seduzir mais cedo do que você imagina.

Apreciar vinhos requer prestar atenção aos sentidos, coisa que, em geral não estamos acostumados a fazer e, pior, fomos educados a não fazê-lo. Quem não lembra da mãe nos ensinando que cheirar a comida é falta de educação? Conselhos de mãe são ótimos, mas esse deve ser esquecido. Fique à vontade para ''enfiar'' o nariz na taça em busca dos deliciosos aromas do vinho. Por isso, ao servir vinho não se deve cometer o pecado de encher a taça, sob pena de afogar o seu convidado. Um terço da taça é suficiente e deixa espaço para os aromas se expandirem adequadamente.

O primeiro aspecto a ser considerado é a temperatura do vinho. Os tintos devem ser apreciados a uma temperatura entre 16 e 18 C. Tintos mais encorpados servidos gelados são uma grande barreira aos iniciantes, pois o frio excessivo ressalta em demasia a adstringência (sensação de ''travo'' na boca) característica destes vinhos. Os brancos demonstram sua melhores características entre 6 e 10 C. Uma dica prática é resfriar os tintos na parte inferior da porta da geladeira com uma antecedência mínima de 6 horas. Para os brancos, sugiro resfriar diretamente num balde com gelo e água durante cerca de 30 min. Convém que o recipiente seja profundo o suficiente para que a garrafa gele até o gargalo.

Nas próximas edições, procurarei apresentar de forma acessível e descontraída os conhecimentos e técnicas básicos para a apreciação do vinho. Bem vindo ao Mundo do Vinho!

* Valdelirio Soares é Presidente da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho (SBAV-CE).

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27/07/2002 21:46:40 - O deus do vinho (e do bacanal também)
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