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Ceará

TENSÃO EM CAPISTRANO

Chuva deixa 25 famílias desabrigadas

A cheia do rio Pesqueiro, em Capistrano, deixou 25 famílias da sede do município desabrigadas ontem. Moradores que vivenciaram momentos de tensão com suas casas invadidas pelas águas, relatam a perda de móveis, eletrodomésticos, objetos pessoais e, em alguns casos, até mesmo das residências

Rosa Sá
enviada a Capistrano

28 Jan 2004 - 03h17min

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<b><i>As águas </i></b>do rio Pesqueiro invadiram a cidade de Capistrano deixando 25 famílias desabrigadas. Uma equipe da Defesa Civil está hoje no local para fazer uma perícia no açude Teimoso, que ameaça arrombar (Foto: André Goldman)
Após nove dias de chuvas no município, moradores de Capistrano, a 101 quilômetros de Fortaleza, na região do Maciço de Baturité, vivenciaram ontem um dia de tensão com casas invadidas pelas águas. Móveis, eletrodomésticos, objetos pessoais e alimentos foram levados pela enchente provocada pela elevação dos níveis de lagoas e açudes, em virtude da cheia do rio Pesqueiro, que atravessa a cidade. A reação em cadeia começou pela manhã, quando a lagoa do povoado de Pesqueiro invadiu a estrada que dá acesso à localidade de São João da Carqueja, escoando para o açude Teimoso, situado à frente.

O volume excessivo de águas chegou à parte baixa da cidade, fazendo com que casas da travessa Mazagão ficassem somente com o telhado à mostra. Vinte e cinco famílias ficaram desabrigadas e foram encaminhadas, pela Prefeitura, a prédios públicos.

No mesmo horário, em outro ponto do Centro da cidade, a família da agricultora Maria Bento de França, 49, moradora da rua Monsenhor Dantas, onde o rio Pesqueiro passa ao lado, também sofria tentando salvar o que podia da forte correnteza que invadiu a residência. As águas carregaram objetos e destruiram uma plantação de bananeiras e o chiqueiro, onde eram criados porcos que foram salvos a tempo graças a ajuda de vizinhos.

Nessa área, o rio cheio isolou a ligação por terra com a rua Melquíades, normalmente feita através de uma passagem improvisada com pedras por um trecho seco do rio. Assim, a única maneira das pessoas se deslocarem de um lado para o outro está sendo através da ponte ferroviária sobre o rio. Quando o nível do Pesqueiro está normal, carros, motocicletas e bicicletas passam por dentro do rio, sem problemas.

Embora as águas da enchente tenham escoado relativamente rápido dos lugares que invadiu, no fim da tarde de ontem, os moradores ainda se mostravam tensos, por conta da ameaça de arrombamento do açude Teimoso, localizado a uma distância de seis quilômetros da sede de Capistrano. De acordo com o mototaxista Ricardo Saraiva Farias, se isso vir a acontecer vai acabar com a principal rua do município, onde se concentra o comércio da cidade.

Uma equipe da Defesa Civil Estadual está no município monitorando o reservatório. Conforme Ioneide Araújo, gerente do órgão, ontem mesmo foi contactado o engenheiro do Departamento de Edificações, Rodovias e Transportes (Dert) na região, para que seja feita uma perícia no açude. De acordo com ela, isso deve acontecer hoje cedo.

A casa onde mora a família da costureira Marta Maria Queiroz Maciel, 36, foi uma das que ficou imprestável após a enchente na área da travessa Mazagão. Paredes cairam, e o que sobrou está comprometido por várias rachaduras. Ela, que mora com as filhas Alana Maria, 8, e Laiane, 2; com o pai Zildo Pereira Maciel, 65; e os irmãos Antônio Berlânio, 25, e Francisco Antônio, 23, disse não saber o que fazer a partir de agora sem ter lugar para viver com os familiares.

Marta contou que no último dia 22 fez um mês que chegou do Rio de Janeiro, onde morou durante seis anos, dando graças a Deus por ter escapado das enchentes que atingiram os cariocas recentemente. Ela afirmou que jamais esperava passar pelo mesmo problema em Capistrano. ''Tanta coisa que eu trouxe, foi embora tudo'', lamentou, dizendo que além da casa, a família perdeu roupas, calçados, colchão, fogão, panelas, pratos, copos, roupas de cama e gêneros alimentícios para a enchente.

Antônio Berlânio contou que estava participando de uma reunião quando o avisaram da enchente. ''Me desesperei naquela hora. Tremia, chorava, mas consegui nadar até em casa para ajudar a retirar minhas sobrinhas'', afirmou.

Na mesma rua, Maria Doralice Silva trabalhava rápido ontem à noite para retirar da casa o que ainda restou após a passagem das águas. O que conseguiu salvar estava guardado dentro de redes amarradas no alto da casa e estava sendo levado para um colégio do município localizado na parte alta da cidade.

Doralice disse que há 25 anos mora no local e nunca havia visto coisa igual. Segundo ela, medo é o que não falta depois de tudo o que passou. Francineudo Gomes Lima, um dos motoristas de caminhão chamados pela Prefeitura de Capistrano para ajudar a transferir as famílias desabrigadas para prédios públicos, disse que até o começo da noite de ontem havia feito oito mudanças, levando as pessoas para colégios e para o centro comunitário do município.

José Holanda, 56, residente na localidade de São João dos Alves, próximo ao açude Rondon, disse que a inundação em Capistrano ontem poderia ter sido ainda pior se os vizinhos não tivessem feito às pressas, pela manhã, uma abertura no sangradouro do reservatório, evitando que arrombasse.

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