Ciência & Saúde
DEDICAÇÃO
Pesquisadora é destaque na odontopediatria
A odontopediatra Anna Galganny fala de suas experiências como pesquisadora, estudando a cárie de primeira infância
Humberto Ilo
da Redação
06 Mar 2004 - 17h29min
Aos 28 anos, a odontopediatra cearense Anna Galganny Fernandes Almeida concluiu doutorado sobre as bactérias que vivem na boca das crianças e que podem causar cáries, tornando-se a primeira doutora em odontopediatria no Ceará, pela Universidade de Boston, nos Estados Unidos. Paralelamente, pesquisou sobre terapias contra a formação da cárie de primeira infância.
Hoje, aos 33, ela é professora e coordenadora do curso de especialização em odontologia pediátrica da Academia Cearense de Odontologia, vinculado à Universidade Estadual do Ceará (Uece), e ainda pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ).
O Ciência & Saúde, na véspera do Dia Internacional da Mulher, traz uma entrevista com a pesquisadora que ainda conseguiu ser pioneira no Estado nos estudos mais aprofundados de sua área. Pesquisadora premiada, Galganny apresentará trabalho sobre eficácia da terapia antimicrobiana em crianças com cárie de primeira infância no 57º Congresso da Academia Americana de Odontopediatria, em 29 de maio, na cidade americana de São Francisco.
Em entrevista ao Ciência & Saúde, Galganny fala da vida dedicada aos estudos e à saúde, das dificuldades e conquistas de um profissional pesquisador, sem deixar de lado a prática de suas descobertas, e de algumas experiências de discriminação por ser mulher.
O POVO - A senhora foi a primeira doutora em odontopediatria no Ceará. A que se deve esse pioneirismo?
Anna Galganny Fernandes Almeida - Os dentistas comumente fazem especialização, um curso mais curto, clínico. No mestrado, trabalha-se com a parte didática, de pesquisa, que é um desafio maior. No doutorado, o período é bem mais prolongado. Além da parte clínica, a pessoa faz a parte de pesquisa. É um grande desafio, que toma muito tempo. São poucas as pessoas que se submetem a esse desafio.
OP - Por que poucos profissionais da área são pesquisadores?
AGFA - Quando as pessoas saem da universidade querem logo ganhar dinheiro. Fazem especialização, curso de pós-graduação mais curtos, de cerca de dois anos, por causa da ânsia da parte financeira. O doutorado toma muito tempo, é muito trabalho, e mais um gasto. É como recomeçar, voltar à universidade, principalmente quando se vai ao exterior. A carga horária de um curso é full time, 40 horas por semana, sem contar com o tempo que a gente tira de pesquisa à parte. Dessa forma não é possível trabalhar além de fazer o curso de mestrado ou doutorado.
OP - Aos 33 anos a senhora já tem título de doutora e pesquisas premiadas. Depois de formada, mais estudos. Quais são as maiores dificuldades vividas ao seguir como pesquisadora?
AGFA - Praticamente fiquei nessa vida de pesquisa intensa desde que me formei. No Brasil, os recursos são limitados, apesar do apoio do CNPQ. As universidades, as instituições não estão em boa situação, o que limita as condições de trabalho. Mas a vontade e o amor pela pesquisa, algo que tenho, são grandes. Eu não seria apenas uma clínica, não saberia viver sem o lado da pesquisa, mas para viver assim a pessoa precisa gostar muito.
OP - O que há de atraente na pesquisa?
AGFA - Saber que a população está sendo ajudada. Uma pesquisa como essa sobre cárie de primeira infância ajuda não apenas a população infantil no Brasil, mas no mundo todo. Com os resultados a que chegamos, outros profissionais podem vir a desenvolver pesquisas paralelas, avançar mais e chegar a resultados além do que se produziu. Se concluí que a terapia antimicrobiana reduziu as cáries em crianças e recomendo que essa terapia seja feita com maior freqüência, um outro pesquisador lê, vê os resultados e muda a prática. Sempre em busca de resultados melhores, em benefício da população. Qualquer ciência não é nada sem pesquisa. Infelizmente, nosso país não investe em educação, não dá tanto valor ao pesquisador como os Estados Unidos, por exemplo. Posso dizer que estaria bem melhor se estivesse lá, mesmo em questão de reconhecimento. No exterior, há maior reconhecimento, melhores condições, mais apoio das instituições.
OP - Quais as vantagens para o profissional trabalhar como pesquisador?
AGFA - O profissional que faz pesquisa se sobressai, porque ele tem um diferencial em relação a todos os outros. Não se encontram muitos profissionais com doutorado. Temos melhores condições, oportunidades de trabalho, não só ficar na clínica, como assumir a direção de uma instituição. Sou professora e coordenadora de um curso de especialização, e só poderia ser isso com um título maior.
OP - Enquanto a senhora estudou fora do país, sofreu algum tipo de preconceito por ser estrangeira?
AGFA - Não. Os Estados Unidos, onde já vivi por onze anos (cinco anos e meio na infância), são um país que respeita o imigrante. Se você é trabalhador, há oportunidades. Principalmente se é pesquisador, porque lá é dado muito valor à pesquisa. Tenho irmão e cunhada que fazem residência médica lá e estão tremendamente satisfeitos, nem querem voltar. Eu voltei por causa da família. E o Brasil é minha casa. O país pode não ser perfeito, mas nem sempre o perfeito é o melhor.
OP - A senhora já viveu alguma situação em que foi discriminada por ser mulher?
AGFA - Com os paciente às vezes temos discriminação. Dizem ''essa mulher não vai fazer um serviço bem feito, não vai conseguir extrair o meu dente, quero um homem''. Não senti isso em relação a professores. De colegas, pode ser. Nunca me preocupei muito com isso, mas há muito machismo, alguém achando que a mulher não pode chegar onde deve, como a um título de doutorado. As mulheres, além do compromisso de trabalho, têm compromisso com a família, mais responsabilidade. Isso dificulta a ligação da mulher com a pesquisa, torna mais lento o trabalho. Dei prioridade ao trabalho.
Hoje, aos 33, ela é professora e coordenadora do curso de especialização em odontologia pediátrica da Academia Cearense de Odontologia, vinculado à Universidade Estadual do Ceará (Uece), e ainda pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ).
O Ciência & Saúde, na véspera do Dia Internacional da Mulher, traz uma entrevista com a pesquisadora que ainda conseguiu ser pioneira no Estado nos estudos mais aprofundados de sua área. Pesquisadora premiada, Galganny apresentará trabalho sobre eficácia da terapia antimicrobiana em crianças com cárie de primeira infância no 57º Congresso da Academia Americana de Odontopediatria, em 29 de maio, na cidade americana de São Francisco.
Em entrevista ao Ciência & Saúde, Galganny fala da vida dedicada aos estudos e à saúde, das dificuldades e conquistas de um profissional pesquisador, sem deixar de lado a prática de suas descobertas, e de algumas experiências de discriminação por ser mulher.
O POVO - A senhora foi a primeira doutora em odontopediatria no Ceará. A que se deve esse pioneirismo?
Anna Galganny Fernandes Almeida - Os dentistas comumente fazem especialização, um curso mais curto, clínico. No mestrado, trabalha-se com a parte didática, de pesquisa, que é um desafio maior. No doutorado, o período é bem mais prolongado. Além da parte clínica, a pessoa faz a parte de pesquisa. É um grande desafio, que toma muito tempo. São poucas as pessoas que se submetem a esse desafio.
OP - Por que poucos profissionais da área são pesquisadores?
AGFA - Quando as pessoas saem da universidade querem logo ganhar dinheiro. Fazem especialização, curso de pós-graduação mais curtos, de cerca de dois anos, por causa da ânsia da parte financeira. O doutorado toma muito tempo, é muito trabalho, e mais um gasto. É como recomeçar, voltar à universidade, principalmente quando se vai ao exterior. A carga horária de um curso é full time, 40 horas por semana, sem contar com o tempo que a gente tira de pesquisa à parte. Dessa forma não é possível trabalhar além de fazer o curso de mestrado ou doutorado.
OP - Aos 33 anos a senhora já tem título de doutora e pesquisas premiadas. Depois de formada, mais estudos. Quais são as maiores dificuldades vividas ao seguir como pesquisadora?
AGFA - Praticamente fiquei nessa vida de pesquisa intensa desde que me formei. No Brasil, os recursos são limitados, apesar do apoio do CNPQ. As universidades, as instituições não estão em boa situação, o que limita as condições de trabalho. Mas a vontade e o amor pela pesquisa, algo que tenho, são grandes. Eu não seria apenas uma clínica, não saberia viver sem o lado da pesquisa, mas para viver assim a pessoa precisa gostar muito.
OP - O que há de atraente na pesquisa?
AGFA - Saber que a população está sendo ajudada. Uma pesquisa como essa sobre cárie de primeira infância ajuda não apenas a população infantil no Brasil, mas no mundo todo. Com os resultados a que chegamos, outros profissionais podem vir a desenvolver pesquisas paralelas, avançar mais e chegar a resultados além do que se produziu. Se concluí que a terapia antimicrobiana reduziu as cáries em crianças e recomendo que essa terapia seja feita com maior freqüência, um outro pesquisador lê, vê os resultados e muda a prática. Sempre em busca de resultados melhores, em benefício da população. Qualquer ciência não é nada sem pesquisa. Infelizmente, nosso país não investe em educação, não dá tanto valor ao pesquisador como os Estados Unidos, por exemplo. Posso dizer que estaria bem melhor se estivesse lá, mesmo em questão de reconhecimento. No exterior, há maior reconhecimento, melhores condições, mais apoio das instituições.
OP - Quais as vantagens para o profissional trabalhar como pesquisador?
AGFA - O profissional que faz pesquisa se sobressai, porque ele tem um diferencial em relação a todos os outros. Não se encontram muitos profissionais com doutorado. Temos melhores condições, oportunidades de trabalho, não só ficar na clínica, como assumir a direção de uma instituição. Sou professora e coordenadora de um curso de especialização, e só poderia ser isso com um título maior.
OP - Enquanto a senhora estudou fora do país, sofreu algum tipo de preconceito por ser estrangeira?
AGFA - Não. Os Estados Unidos, onde já vivi por onze anos (cinco anos e meio na infância), são um país que respeita o imigrante. Se você é trabalhador, há oportunidades. Principalmente se é pesquisador, porque lá é dado muito valor à pesquisa. Tenho irmão e cunhada que fazem residência médica lá e estão tremendamente satisfeitos, nem querem voltar. Eu voltei por causa da família. E o Brasil é minha casa. O país pode não ser perfeito, mas nem sempre o perfeito é o melhor.
OP - A senhora já viveu alguma situação em que foi discriminada por ser mulher?
AGFA - Com os paciente às vezes temos discriminação. Dizem ''essa mulher não vai fazer um serviço bem feito, não vai conseguir extrair o meu dente, quero um homem''. Não senti isso em relação a professores. De colegas, pode ser. Nunca me preocupei muito com isso, mas há muito machismo, alguém achando que a mulher não pode chegar onde deve, como a um título de doutorado. As mulheres, além do compromisso de trabalho, têm compromisso com a família, mais responsabilidade. Isso dificulta a ligação da mulher com a pesquisa, torna mais lento o trabalho. Dei prioridade ao trabalho.
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