Ciência & Saúde
Tira dúvidas
E agora, o que eu faço?
Mães tiram dúvidas com a psicóloga Iolete Ribeiro, do Conselho Federal de Psicologia (CFP), sobre como devem falar sobre violência com os filhos
23 Jan 2010 - 18h25min
Realidade cruel
A universitária Fabíola Shinmon, 38, é mãe de três meninos, Levi, 9, Natan, 4, e Saulo, 10 meses. A notícia sobre a morte da menina Alanis Maria Laurindo de Oliveira, 5, entrou em discussão durante um passeio de carro. O rádio estava ligado e comentaram sobre o assassinato. ``O Natan olhou para mim e disse: -Mamãe ela foi estuprada?- Aproveitei o comentário para explicar o que significava. No mundo em que vivemos não dá para passar a informação de uma forma tão suave. Antes o mal era personalizado, dizíamos como o possível criminoso poderia ser. Hoje, pode ser qualquer um, próximo ou distante da gente``, comenta.
Fabíola Shinmon - Como preparar os nossos filhos diante de uma realidade tão cruel?
Iolete Ribeiro - é importante estabelecer uma conversa permanente entre pais e filhos. As crianças precisam reconhecer que o problema existe. Mesmo quando não se conversa sobre assuntos ligados à violência com a criança, ela acaba tendo conhecimento através da televisão, vizinhança e outros ambientes. Mas deve-se ter cautela com informações que os pequenos não têm condições de processar. Imagens fortes do terremoto no Haiti, por exemplo, podem provocar medo excessivo porque as crianças não têm intelecto preparado para processar aquela informação. Afinal, tratar sobre violência é duro até entre adultos. Por isso, a importância de conversar e não esconder nada para que a criança desenvolva recursos para se proteger. Claro que o nível de informação é diferente do tratado com o adulto. A informação deve ser dosada a partir da maturidade da criança, das suas perguntas e demandas. Quem determina se deve avançar ou retroceder no assunto é a própria criança. Os pais precisam estar sintonizados e ver os limites estabelecidos pela criança. Enquanto tiver pergunta, tem interesse. Quando as perguntas da criança acabam, chega-se ao limite da compreensão. A medida que a criança for amadurecendo e surgirem outras demandas, ela vai retornar ao assunto e perguntar mais. O importante é trabalhar a confiança, saber que a qualquer problema, poderá conversar e esclarecer dúvidas com os pais. Quando os pais são ameaçadores, a tendência do filho é esconder o que deveria ser dito. Os pais devem ter tranquilidade e trocar ideias; aproveitar situações práticas para dar dicas de como interpretar determinada situação, significar. A escola acaba tendo um papel muito importante nessa relação também. Os educadores devem abrir espaço para fomentar o diálogo sobre todos os assuntos trazidos pelas crianças.
Insegurança
A advogada Alline Figueiredo, 29, é mãe do Gabriel, 8. Ela acredita que assuntos como violência, estupro e assédio devem ser tratadas de maneira sutil. ``Comento sobre todos os assuntos, mas me preocupo em não impor medo nele. A gente tem que ter cuidado para que a criança não fique insegura. A criança precisa estar preparada quando vai para a rua``, diz.
Alline Figueiredo - É certo falar sobre violência a partir de casos fantasiosos, como a história do homem do saco que carrega criancinhas? Qual a melhor forma de falar sobre assuntos polêmicos ou delicados com as crianças?
Iolete Ribeiro - Esse tipo de história é muito prejudicial e não ajuda em nada. Pelo contrário, até atrapalha porque não trabalha com informação verdadeira. Esse tipo de história como do homem do saco está levando apenas medo à criança. A compreensão de assuntos polêmicos vai sendo construída aos poucos. Se uma história como a do homem do saco é dita a uma criança de três anos, quando ela tiver seis anos, aquela justificativa ainda continua com verdadeira. Só que vai chegar o momento de explicar que aquilo era tudo mentira e que existe uma outra verdade. O resultado é desastroso porque os filhos acabam não confiando mais nos pais e vão questionar porque os pais mentiram para ele. Ou seja, o pai não pode tentar explicar um fato com uma informação que é falsa. Ele tem que trabalhar com informação verdadeira e de acordo com a maturidade da criança. Isso estabelece confiança e segurança à relação. Quando a criança sente confiança no outro, mesmo que a informação seja difícil, sente-se amparado. Nada justifica a postura fantasiosa dos pais. Ele pode usar de recurso concreto ou fictício, mas com explicação coerente.
Violência
A professora Luiza Maria Fernandes Aurélio, 42, é mãe de Inês Ester, 6. Elas moram no Conjunto Ceará e, por ser o bairro onde Alanis vivia, acompanharam o caso e a repercussão de perto. ``Estamos todos mais apreensivos. Esse foi um caso que não teve como ficar alheio. A gente mora próximo à igreja e ouvimos muitos comentários. Redobrei o cuidado com minha filha e não deixo mais ela brincar na calçada``, afirma.
Luiza Maria Fernandes Aurélio - Se a criança está em contato com uma realidade de violência no bairro, mas não entra em detalhes, o indicado é falar ou esperar ela comentar? Uma criança de seis anos, por exemplo, já tem compreensão para saber o que é espancamento ou estupro?
Iolete Ribeiro - Os pais podem tomar a iniciativa e chamar a criança para conversar e explicar sobre o assunto. Mas é preciso entender que não é apenas uma única conversa. Esse deve ser um processo contínuo de orientação. Assuntos relacionados à violência podem ganhar maior projeção em algum momento, mas também vão sempre perdurar. Por isso, os pais tem que prestar atenção às dúvidas que as crianças trazem. Se as crianças não se aprofundam no assunto, o indicado é dar a orientação básica e deixar que elas reflitam. Aos poucos, as crianças vão elaborar a informação e construir uma compreensão.
Medo
A empresária Simone Ferreira Primo, 37, é mãe do João Vitor, 8, Maria Júlia, 5, e Ana Larissa , 2. O maior receio dela é falar sobre violência e assustar seus filhos. ``A gente procura preservar porque criança não entende muito bem o que houve. Fico perdida por não ter coragem de dizer o que aconteceu``, pontua.
Simone Ferreira Primo - Eu tenho medo de falar de maneira errada e prejudicar o desenvolvimento deles. Como devo trabalhar isso?
Iolete Ribeiro - Os pais têm que assumir que possui essa dificuldade para as crianças. Realmente é um assunto difícil, mas os pais devem ter a consciência de que é importante falar. Se os pais não tratam sobre o tema, as crianças ficam mais vulneráveis e expostos aos riscos porque não tem meios de defesa, pela falta de informação. É importante notar que esse tipo de violência se ancora justamente na falta de informação. A criança que passa por uma situação semelhante, e não tem conhecimento sobre como reagir, fica confusa e não sabe interpretar. Diferente do que alguns pais possam acreditar, falar sobre violência não é acabar com a infância, é proteger a infância.
A universitária Fabíola Shinmon, 38, é mãe de três meninos, Levi, 9, Natan, 4, e Saulo, 10 meses. A notícia sobre a morte da menina Alanis Maria Laurindo de Oliveira, 5, entrou em discussão durante um passeio de carro. O rádio estava ligado e comentaram sobre o assassinato. ``O Natan olhou para mim e disse: -Mamãe ela foi estuprada?- Aproveitei o comentário para explicar o que significava. No mundo em que vivemos não dá para passar a informação de uma forma tão suave. Antes o mal era personalizado, dizíamos como o possível criminoso poderia ser. Hoje, pode ser qualquer um, próximo ou distante da gente``, comenta.
Fabíola Shinmon - Como preparar os nossos filhos diante de uma realidade tão cruel?
Iolete Ribeiro - é importante estabelecer uma conversa permanente entre pais e filhos. As crianças precisam reconhecer que o problema existe. Mesmo quando não se conversa sobre assuntos ligados à violência com a criança, ela acaba tendo conhecimento através da televisão, vizinhança e outros ambientes. Mas deve-se ter cautela com informações que os pequenos não têm condições de processar. Imagens fortes do terremoto no Haiti, por exemplo, podem provocar medo excessivo porque as crianças não têm intelecto preparado para processar aquela informação. Afinal, tratar sobre violência é duro até entre adultos. Por isso, a importância de conversar e não esconder nada para que a criança desenvolva recursos para se proteger. Claro que o nível de informação é diferente do tratado com o adulto. A informação deve ser dosada a partir da maturidade da criança, das suas perguntas e demandas. Quem determina se deve avançar ou retroceder no assunto é a própria criança. Os pais precisam estar sintonizados e ver os limites estabelecidos pela criança. Enquanto tiver pergunta, tem interesse. Quando as perguntas da criança acabam, chega-se ao limite da compreensão. A medida que a criança for amadurecendo e surgirem outras demandas, ela vai retornar ao assunto e perguntar mais. O importante é trabalhar a confiança, saber que a qualquer problema, poderá conversar e esclarecer dúvidas com os pais. Quando os pais são ameaçadores, a tendência do filho é esconder o que deveria ser dito. Os pais devem ter tranquilidade e trocar ideias; aproveitar situações práticas para dar dicas de como interpretar determinada situação, significar. A escola acaba tendo um papel muito importante nessa relação também. Os educadores devem abrir espaço para fomentar o diálogo sobre todos os assuntos trazidos pelas crianças.
Insegurança
A advogada Alline Figueiredo, 29, é mãe do Gabriel, 8. Ela acredita que assuntos como violência, estupro e assédio devem ser tratadas de maneira sutil. ``Comento sobre todos os assuntos, mas me preocupo em não impor medo nele. A gente tem que ter cuidado para que a criança não fique insegura. A criança precisa estar preparada quando vai para a rua``, diz.
Alline Figueiredo - É certo falar sobre violência a partir de casos fantasiosos, como a história do homem do saco que carrega criancinhas? Qual a melhor forma de falar sobre assuntos polêmicos ou delicados com as crianças?
Iolete Ribeiro - Esse tipo de história é muito prejudicial e não ajuda em nada. Pelo contrário, até atrapalha porque não trabalha com informação verdadeira. Esse tipo de história como do homem do saco está levando apenas medo à criança. A compreensão de assuntos polêmicos vai sendo construída aos poucos. Se uma história como a do homem do saco é dita a uma criança de três anos, quando ela tiver seis anos, aquela justificativa ainda continua com verdadeira. Só que vai chegar o momento de explicar que aquilo era tudo mentira e que existe uma outra verdade. O resultado é desastroso porque os filhos acabam não confiando mais nos pais e vão questionar porque os pais mentiram para ele. Ou seja, o pai não pode tentar explicar um fato com uma informação que é falsa. Ele tem que trabalhar com informação verdadeira e de acordo com a maturidade da criança. Isso estabelece confiança e segurança à relação. Quando a criança sente confiança no outro, mesmo que a informação seja difícil, sente-se amparado. Nada justifica a postura fantasiosa dos pais. Ele pode usar de recurso concreto ou fictício, mas com explicação coerente.
Violência
A professora Luiza Maria Fernandes Aurélio, 42, é mãe de Inês Ester, 6. Elas moram no Conjunto Ceará e, por ser o bairro onde Alanis vivia, acompanharam o caso e a repercussão de perto. ``Estamos todos mais apreensivos. Esse foi um caso que não teve como ficar alheio. A gente mora próximo à igreja e ouvimos muitos comentários. Redobrei o cuidado com minha filha e não deixo mais ela brincar na calçada``, afirma.
Luiza Maria Fernandes Aurélio - Se a criança está em contato com uma realidade de violência no bairro, mas não entra em detalhes, o indicado é falar ou esperar ela comentar? Uma criança de seis anos, por exemplo, já tem compreensão para saber o que é espancamento ou estupro?
Iolete Ribeiro - Os pais podem tomar a iniciativa e chamar a criança para conversar e explicar sobre o assunto. Mas é preciso entender que não é apenas uma única conversa. Esse deve ser um processo contínuo de orientação. Assuntos relacionados à violência podem ganhar maior projeção em algum momento, mas também vão sempre perdurar. Por isso, os pais tem que prestar atenção às dúvidas que as crianças trazem. Se as crianças não se aprofundam no assunto, o indicado é dar a orientação básica e deixar que elas reflitam. Aos poucos, as crianças vão elaborar a informação e construir uma compreensão.
Medo
A empresária Simone Ferreira Primo, 37, é mãe do João Vitor, 8, Maria Júlia, 5, e Ana Larissa , 2. O maior receio dela é falar sobre violência e assustar seus filhos. ``A gente procura preservar porque criança não entende muito bem o que houve. Fico perdida por não ter coragem de dizer o que aconteceu``, pontua.
Simone Ferreira Primo - Eu tenho medo de falar de maneira errada e prejudicar o desenvolvimento deles. Como devo trabalhar isso?
Iolete Ribeiro - Os pais têm que assumir que possui essa dificuldade para as crianças. Realmente é um assunto difícil, mas os pais devem ter a consciência de que é importante falar. Se os pais não tratam sobre o tema, as crianças ficam mais vulneráveis e expostos aos riscos porque não tem meios de defesa, pela falta de informação. É importante notar que esse tipo de violência se ancora justamente na falta de informação. A criança que passa por uma situação semelhante, e não tem conhecimento sobre como reagir, fica confusa e não sabe interpretar. Diferente do que alguns pais possam acreditar, falar sobre violência não é acabar com a infância, é proteger a infância.
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