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Elio Gaspari

ELIO GASPARI

Lula, o urso que come os donos


09 Nov 2005 - 02h44min

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Em julho de 1997, abatido por denúncias de corrupção pessoal que a Justiça viria a considerar falsas, Lula lia os telegramas que lhe chegavam e dizia: "Eu sempre tive a fantasia de assistir ao meu velório. Com esse caso agora, estou fazendo mais ou menos isso. Muitas mensagens de solidariedade que recebo têm todo o aspecto de telegrama de pêsames".

Foi isso que ele fez na noite de segunda-feira quando, a pedido do repórter Heródoto Barbeiro, analisou a situação do ex-técnico do seu time: "José Dirceu será cassado por decisão eminentemente política. Qual é a acusação contra José Dirceu? A tese original era que você tinha dinheiro público nas contas do PT. E nada ainda não foi provado".

Noves fora o "ainda", Lula deu Dirceu por morto enquanto ele luta pela vida. Não se espera que o chefe do Poder Executivo prejulgue uma decisão da Câmara dos Deputados. Logo Lula, tão zeloso ao defender o respeito devido aos companheiros do mensalão.

Foi-se assim o último dono do Urso Lula. O bichinho simpático de São Bernardo já comeu quatro. O primeiro foi seu irmão, José Ferreira de Melo, o Frei Chico. Mais velho, atraiu-o para a militância trabalhista em 1968. Lula tinha 25 anos e, rapidamente tornou-se diretor do sindicato. Como Frei Chico tinha afinidade com o Partido Comunista, acreditou-se que Lula ia na bagagem. Erro. Muitos anos depois, na memorável entrevista que deu à jornalista Denise Paraná no livro "Lula Filho do Brasil", o companheiro explicou: "A minha ligação com o Frei Chico é uma ligação biológica. Ou seja, um negócio evidentemente de irmão para irmão. Não tinha nenhuma afinidade política com Frei Chico." Fraternalmente, o urso comeu seu primeiro dono.

Quem achava que tinha afinidade com Lula era o presidente do Sindicato, Paulo Vidal. Manteve-o na diretoria e em 1975 ajudou a torná-lo seu sucessor. Talvez o próprio Paulo Vidal tenha pensado que era dono do urso, até o dia em que o companheiro enquadrou-o. Passados 27 anos, Lula mostrou-se um urso malvado. Era presidente-eleito da República, verdadeiro "Filho do Brasil", e disse o seguinte: "Muitos companheiros que foram presos disseram que o Paulo Vidal era quem tinha dedado. Eu, sinceramente, não acredito nisso, não acredito. Mas as dúvidas persistem na cabeça da velha guarda do movimento sindical".

Crueldade pura, até porque as velhas guardas, como a da Portela, são sempre respeitadas. A vida já tinha ensinado a Lula que esse tipo de coisa não se diz. Foi pior que denuncismo vazio, foi linchamento por insinuação.

Tendo comido o segundo dono, o urso passou a ser reivindicado por um condomínio de intelectuais, jornalistas e religiosos. Comeu-os todos.

Frei Betto e o empresário Oded Grajew sobreviveram porque fugiram do circo. Graças a isso, mantêm relações cordiais com "Nosso Guia".

De todos os donos do urso o mais exibido foi sem dúvida José Dirceu. Dizia "meu governo", anunciava que não sairia da Casa Civil e gostava de se ver comparado ao general Golbery do Couto e Silva, eminência parda de três governos da ditadura. Fazia isso por falta de conhecimento da personalidade de Golbery e por confundir muito poder com poder ditatorial. Essa é uma confusão que Dirceu faz há trinta anos e talvez continue fazendo-a nos próximos trinta.

O telegrama de pêsames de Lula a Dirceu não foi gafe. Foi um desnecessário e triste momento da vida política brasileira.

Por iniciativa sua, nessa mesma entrevista, "Nosso Guia" gastou mais tempo justificando o AeroLula e a reforma do Alvorada do que discutindo educação dos brasileiros e a saúde dos bípedes.

ELIO GASPARI é jornalista.

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