Ópera Bufa
ÓPERA BUFA
Em um sábado como esse
Fernando Costa
10 Dez 2005 - 03h27min
Plagiando o lusitano, nada como ter o que fazer e não fazer nada. Sair por aí tomando um café cá e outro lá, fumando um ou meio cigarro e bisbilhotar as prateleiras de uma livraria. De repente um livro chama sua atenção e o dia está ganho.
Um dia com Picasso, 29 fotografias de Jean Cocteau de Billy Klüve é um desses livros que você só paga se quiser, porque dá pra ler ali mesmo na livraria. Klüve simplesmente conta uma história, outros olhos poderiam dizer, se é que olhos dizem, que ele faz uma antropologia visual.
Digamos que ele é um pouco obsessivo por fotos antigas, e essa obsessão o levou a encontrar–se com 29 fotos feitas por Jean Cocteau em Paris no dia 12 de agosto de 1916, um sábado como esse em que estamos vivendo agora eu aqui feito letra e você aí do outro lado da página. Para ser exato o sábado das fotos de Cocteau foi ensolarado com a temperatura atingindo os 27 graus Celsius.
Jean Cocteau chegou ao café de la Rotonde, em Montparnasse, entre 12h30m e 12h45m, ele ia encontra Picasso e outros artistas da margem esquerda do Sena, nas mãos longas e delicadas levava uma maquina Kodak portátil e quatro filmes de oito poses cada.
O almoço durou até as 14h30m, depois eles saíram pelas ruas posando para a câmera. Entre os fotografados estão além de Picasso, Max Jacob, a modelo Pâquerette, Manuel Ortiz de Zarate, Kisling e Modigliani.
O trabalho de Klüve foi reconstituir a partir da arquitetura e da posição das sombras o trajeto e a hora exata em que cada foto foi feita. Foram quatro horas onde alguns caras que escreveram um pouco da história da literatura e das artes plásticas do século em que nascemos, estiveram juntos batendo perna e jogando conversa fora.
Sobre o encontro o autor das fotos escreveu no dia seguinte num bilhete para uma amiga:
Nada de novo, a não ser que Picasso me leva para a Rotonde. Nunca fico mais que um instante, apesar da lisonjeira acolhida do círculo (talvez deva dizer cubo)... Sentar demais em cafés traz esterilidade. Bati chapas de Picasso e Mlle. Pâquerette e dos jovens que não vão além de um julgamento do mundo segundo Mme. Bongard. Você verá as revelações.® Aos 27 anos Jean Cocteau já era Jean Cocteau.
Via aérea.
Essa é a foto de número 13 feita por Cocteau. Nela Picasso tem os olhos fixos em Pâquerette, com que mantinha um relacionamento intímo, Ortiz próximo da câmera olha diretamente para ela enquanto Kisling parece está hipnotizado pela Autographic Kodak Junior, fabricada a parir de 1914 e das quais foram produzidas 800 mil unidades até 1927 quando pararam de ser feitas.
O bom das filas é nos convencerem de que afinal esta pobre vida não é tão curta como dizem.
Mário Quintana
Em algum lugar.
Como o mundo é repleto de coincidências, enquanto digito essa Ópera Bufa recebo do fotografo Luizinho Ferreira essa foto em que ele revela em 1981, num evento que se chamou ôChuva de Poesia®, os poetas Fausto Nilo e José Alcides Pinto.
Como fez Klüver com as fotos de Cocteau, faço eu com a de Luizinho: pelo muro do jardim onde os dois estão dá pra identificar que o local é a antiga Praça do Ferreira antes da reforma que o próprio Fausto Nilo faria mais de uma década depois. Pelas sombras era manhã, provavelmente às 10 horas. O poeta José Alcides além das suas poesias deve ter lido alguns trechos de Uma temporada no Inferno de Rimbaud, o livro que ele segura com a mão esquerda.
As leis não bastam. Os lírios não nascem das leis.
Carlos Drummond de Andrade
Jazz
A arte do encontro.
A ternura do piano de Oscar Peterson embala a áspera voz e o trompete mavioso de Louis Armstrong através de musicas como What’s new, Let’s fall in love e Sweet Lorraine. Louis Armstrong meets Oscar Peterson é um desse discos que você ouve bastante, deixa um tempo na prateleira e numa bela manhã de sábado redescobre para ouvir, ouvir, ouvir. Acompanhado os dois estão Herb Ellis, guitarra, Ray Brown no baixo e Louis Bellson na bateria. A produção é de Norman Granz e foi gravado em 1957.
Você precisa
Você precisa sentar na rua em frente às horas.
Você precisa ser realista e pedir o impossível.
Você precisa saber que a noite é enorme.
Você precisa sentir o coração gemer.
Você precisa que o tempo é liquido.
Você precisa amar a si mesmo como ama o próximo.
Você precisa um dia a casa cai.
Você precisa deixar o coração bater .
Você precisa jogar porrinha.
Você precisa explicar Freud.
Você precisa levantar do divã.
Você precisa tomar a última Coca-Cola do deserto.
Porque tudo mais é por demais impreciso.
Um dia com Picasso, 29 fotografias de Jean Cocteau de Billy Klüve é um desses livros que você só paga se quiser, porque dá pra ler ali mesmo na livraria. Klüve simplesmente conta uma história, outros olhos poderiam dizer, se é que olhos dizem, que ele faz uma antropologia visual.
Digamos que ele é um pouco obsessivo por fotos antigas, e essa obsessão o levou a encontrar–se com 29 fotos feitas por Jean Cocteau em Paris no dia 12 de agosto de 1916, um sábado como esse em que estamos vivendo agora eu aqui feito letra e você aí do outro lado da página. Para ser exato o sábado das fotos de Cocteau foi ensolarado com a temperatura atingindo os 27 graus Celsius.
Jean Cocteau chegou ao café de la Rotonde, em Montparnasse, entre 12h30m e 12h45m, ele ia encontra Picasso e outros artistas da margem esquerda do Sena, nas mãos longas e delicadas levava uma maquina Kodak portátil e quatro filmes de oito poses cada.
O almoço durou até as 14h30m, depois eles saíram pelas ruas posando para a câmera. Entre os fotografados estão além de Picasso, Max Jacob, a modelo Pâquerette, Manuel Ortiz de Zarate, Kisling e Modigliani.
O trabalho de Klüve foi reconstituir a partir da arquitetura e da posição das sombras o trajeto e a hora exata em que cada foto foi feita. Foram quatro horas onde alguns caras que escreveram um pouco da história da literatura e das artes plásticas do século em que nascemos, estiveram juntos batendo perna e jogando conversa fora.
Sobre o encontro o autor das fotos escreveu no dia seguinte num bilhete para uma amiga:
Nada de novo, a não ser que Picasso me leva para a Rotonde. Nunca fico mais que um instante, apesar da lisonjeira acolhida do círculo (talvez deva dizer cubo)... Sentar demais em cafés traz esterilidade. Bati chapas de Picasso e Mlle. Pâquerette e dos jovens que não vão além de um julgamento do mundo segundo Mme. Bongard. Você verá as revelações.® Aos 27 anos Jean Cocteau já era Jean Cocteau.
Via aérea.
Essa é a foto de número 13 feita por Cocteau. Nela Picasso tem os olhos fixos em Pâquerette, com que mantinha um relacionamento intímo, Ortiz próximo da câmera olha diretamente para ela enquanto Kisling parece está hipnotizado pela Autographic Kodak Junior, fabricada a parir de 1914 e das quais foram produzidas 800 mil unidades até 1927 quando pararam de ser feitas.
O bom das filas é nos convencerem de que afinal esta pobre vida não é tão curta como dizem.
Mário Quintana
Em algum lugar.
Como o mundo é repleto de coincidências, enquanto digito essa Ópera Bufa recebo do fotografo Luizinho Ferreira essa foto em que ele revela em 1981, num evento que se chamou ôChuva de Poesia®, os poetas Fausto Nilo e José Alcides Pinto.
Como fez Klüver com as fotos de Cocteau, faço eu com a de Luizinho: pelo muro do jardim onde os dois estão dá pra identificar que o local é a antiga Praça do Ferreira antes da reforma que o próprio Fausto Nilo faria mais de uma década depois. Pelas sombras era manhã, provavelmente às 10 horas. O poeta José Alcides além das suas poesias deve ter lido alguns trechos de Uma temporada no Inferno de Rimbaud, o livro que ele segura com a mão esquerda.
As leis não bastam. Os lírios não nascem das leis.
Carlos Drummond de Andrade
Jazz
A arte do encontro.
A ternura do piano de Oscar Peterson embala a áspera voz e o trompete mavioso de Louis Armstrong através de musicas como What’s new, Let’s fall in love e Sweet Lorraine. Louis Armstrong meets Oscar Peterson é um desse discos que você ouve bastante, deixa um tempo na prateleira e numa bela manhã de sábado redescobre para ouvir, ouvir, ouvir. Acompanhado os dois estão Herb Ellis, guitarra, Ray Brown no baixo e Louis Bellson na bateria. A produção é de Norman Granz e foi gravado em 1957.
Você precisa
Você precisa sentar na rua em frente às horas.
Você precisa ser realista e pedir o impossível.
Você precisa saber que a noite é enorme.
Você precisa sentir o coração gemer.
Você precisa que o tempo é liquido.
Você precisa amar a si mesmo como ama o próximo.
Você precisa um dia a casa cai.
Você precisa deixar o coração bater .
Você precisa jogar porrinha.
Você precisa explicar Freud.
Você precisa levantar do divã.
Você precisa tomar a última Coca-Cola do deserto.
Porque tudo mais é por demais impreciso.
Dê sua nota clicando nas estrelas
Comentar esta notícia
Importante: Os comentários publicados são de exclusiva responsabilidade de seus autores e as conseqüências derivadas deles podem ser passíveis de sanções legais. O usuário que incluir em suas mensagens algum comentário que viole o regulamento será eliminado e inabilitado para voltar a comentar.
Mais Notícias
Últimas
Últimas
- 11:54Perseguição mobiliza 12 viaturas e dupla é presa no Conjunto Tamandaré
- 10:40212 policiais do Ronda do Quarteirão são afastados em 2009
- 10:44Na praia, olhando a mulher do outro
- 07:06Fortes chuvas prejudicam operações do aeroporto de Juazeiro do Norte
- 11:30Pernambucana é presa com 5kg de crack em Fortaleza
- 11:06Secretários de Segurança do Nordeste discutem ações contra 'Novos Cangaceiros'
- 10:40 212 policiais do Ronda do Quarteirão são afastados em 2009
- 11:54 Perseguição mobiliza 12 viaturas e dupla é presa no Conjunto Tamandaré
- 02:26 Marcha lenta
- 10:44 Na praia, olhando a mulher do outro
- 14:08 Professor atinge aluna com apagador
- 11:30 Pernambucana é presa com 5kg de crack em Fortaleza
Indique esta notícia








