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Grito primal


23 Jun 2003 - 02h48min

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No final dos anos 60, um psicólogo chamado Arthur Janov descobriu, por acaso, o que mais tarde viria a se tornar a base central de uma terapia revolucionária: o grito primal.

Segundo o Dr. Janov, o grito primal não é simplesmente um grito, ele é a conseqüência de uma dor central que fica guardada, sem possibilidade de expressão. Essa dor é chamada de dor primal por ser a primeira e é a partir dela que surgem todas as neuroses que poderão acompanhar o indivíduo a vida toda.

A primeira vista pode parecer estranho, mas quem já experimentou garante que funciona. Dentre as diversas personalidades que já experimentaram a Terapia Primal podemos citar Carlinhos Lira, Roland Orzabal (do Tears For Fears), e a mais famosa delas: John Lennon. Segundo dizem, o seu período mais criativo aconteceu quando ele fazia a Terapia Primal, tendo produzido o álbum Plastic Ono Band de grande sucesso na época.

Em entrevista dada a revista Rolling Stones, em 1970, Lennon comenta sobre o álbum: ” Acho que é a melhor coisa que já fiz. É realista e verdadeiro com o Eu que vem se desenvolvendo ao longo dos anos em minha vida. Sempre escrevi sobre mim mesmo, quando era possível. Mas por causa de meus bloqueios e muitas outras coisas, só de vez em quando eu compunha especificamente sobre mim mesmo. Desta vez, tudo que escrevi é sobre mim mesmo e é por isso que eu gosto. Sou eu! E mais ninguém. É por isso que eu gosto. É verdadeiro, só isso.”

Para o criador da Terapia Primal, a neurose é uma enfermidade do sentimento. Na infância, se os sentimentos são bloqueados em sua manifestação eles se transformam numa ampla variedade de comportamentos neuróticos que, mais tarde, poderão distorcer a visão do presente.

Na fase adulta, essa criança que foi negada e impedida de expressar suas emoções autênticas continua atuando em nível inconsciente sob as mais diversas formas. Para sobreviver a criança é obrigada a criar um sistema falso para lidar com a dor primal que continuará atuando até que essa dor venha a ser curada. A função desse sistema falso é eliminar o verdadeiro, mas como as necessidades verdadeiras não podem ser erradicadas, o conflito se torna interminavelmente doloroso.

O Dr. Janov afirma que o eu verdadeiro está trancado junto com a dor original. Por isso é preciso que o indivíduo sinta a dor a fim de liberar-se. Assim como a negação da dor cria um sistema falso de ser, a dor sentida faz com que esse mesmo sistema falso se desmorone.

A terapia primal tem o objetivo de resgatar tal dor. Ela funciona então como um processo que resgata os sentimentos que foram suprimidos na infância, permitindo sua livre expressão. E o resultado do processo é a liberação dos padrões impressos na infância e a cura de suas feridas possibilitando o reencontro com o Eu autêntico há muito esquecido.

Sobre a Terapia Primal Lennon comentou: “Janov me ensinou a sentir meu próprio medo e minha própria dor. Portando, agora, posso lidar com essas coisas melhor do que antes. Só isso. Sou a mesma pessoa, apenas abriu-se um canal , que não fica apenas dentro de mim, mas dá a volta e sai para fora. Consigo me movimentar um pouco mais facilmente. A terapia Primal nos permitiu sentir nossas emoções continuamente e esses sentimentos normalmente fazem você chorar. Só isso. Até porque antes eu não sentia essas coisas, só isso. Estava bloqueando os sentimentos e quando eles vem a tona, você chora. É muito simples, essa é a verdade.”

Pelo que podemos apreender dessa teoria tão inusitada e instigante é que não é o grito em si que cura , já que o grito primal é apenas a expressão dor. É a própria dor que é o agente curativo porque, a partir dela, o paciente pode finalmente sentir e se permitir entrar em contato com o seu Eu verdadeiro. Portanto, a dor pode ser tanto a porta de entrada como a porta de saída para todas as neuroses.
Quando esta técnica chegou ao Brasil, pelas mãos do canadense Anand Yogendra, ela veio adaptada à visão do mestre indiano chamado Osho. A terapia primal, então, foi aliada a técnicas de meditação e regressão e o resultado foi um poderoso e efetivo trabalho que consegue fazer com que o indivíduo restabeleça uma conexão com as verdades emocionais de sua infância liberando-o para exercer sua criatividade natural e para descobrir sua auto-estima.

Para quem quer ter acesso a um tipo de experiência primal, existe uma meditação criada por Osho chamada Dinâmica que pode ajudar a chegar no que seria o grito primal ou muito perto disso. Essa meditação consiste em 05 estágios de aproximadamente dez minutos cada. No primeiro estágio, utiliza-se uma respiração intensa e caótica com o objetivo de preparar o corpo para uma tremenda explosão de energia que acontece no segundo estágio.

É no segundo estágio que ocorre uma catarse total em que você pode fazer, dizer, sentir e expressar tudo que estiver vindo à tona. Nesse momento, é possível que um grito profundo e doloroso esteja apenas aguardando para ser liberado dentro de você. Os três primeiros estágios preparam para a experiência de meditação propriamente dita e o que ocorre ao final da meditação é algo que transcende a experiência e que nenhuma palavra pode descrever.

E aí, vai encarar essa no grito?

Ianara Alencar, Psicanalista, especial para o Buchicho.



Bettina, como uma pessoa que nunca fez meditação sabe que está se aproximando de um estado meditativo Zen?

Ah querido, isso é simples. Depois de longos anos morando no Tibet eu descobri que existem apenas 02 possibilidades para alguém alcançar o estado meditativo Zen: a primeira é através da meditação até se atingir o estado de “não-mente”; a segunda pode acontecer sem meditação, pelo processo instantâneo de “sem-mente”. Para quem nunca fez meditação e quer entrar no estado meditativo “sem-mente”, aqui vão algumas dicas:

Primeiro a pessoa deve procurar um local ao ar livre, perto do mar, pois em contato com a natureza é possível contemplar mais facilmente a sabedoria que há em todas as coisas e entrar em comunhão com a Terra e sua força. Tente achar alguma sombra, de preferência a de um coqueiro, pois ele nos ensina com o seu balanço a ser mais flexível com as coisas da vida e a se desprender das coisas desnecessárias. Sente-se nesse local, em silêncio, e procure não pensar em nada. Feche os olhos e tente conciliar um estado tranqüilo com uma percepção aguçada.

Quando sentir que uma brisa começa a soprar, inicie uma prece. Espere até que a brisa se torne mais forte. Quando a brisa estiver ainda mais forte aguarde o sinal. Se estiver atento, é possível que você escute um “clique” para indicar que aconteceu o desprendimento e que o estado meditativo se aproxima.

Após ouvir o “clique” abra os olhos imediatamente e olhe para cima em contemplação. Se o côco que se desprendeu cair exatamente na sua cabeça e sua prece tiver sido forte o suficiente para você não morrer, aí então você entrará num estado profundamente meditativo de “sem-mente”; se for apenas provisório esse estado será chamado “dor-mente”, caso contrário, se esse estado for permanente, será chamado “de-mente”. Nesse estado, então, você encontrará uma profunda paz.

Agora, se você parar de “frescar” com a minha cara e quiser levar a meditação a sério, existe outra opção. Um mestre Indiano chamado Osho criou diversas meditações especialmente para o homem ocidental. Ele diz que “meditação” é a maior aventura que a mente humana pode empreender. Meditação significa estar consciente e o que quer que você faça com consciência é meditação. O estado não-mente é um momento de pura consciência em que você não se identifica com nada, você apenas é. É um estado de pura presença.

Osho explica que “O primeiro passo para a consciência é tornar-se muito atento ao seu corpo. Pouco a pouco, a pessoa vai se tornando alerta para cada gesto, cada movimento. E, à medida que você vai se tornando consciente, um milagre começa a acontecer: muitas coisas que você costumava fazer antes, simplesmente desaparecem; seu corpo torna-se mais relaxado, seu corpo se torna mais harmonizado. O mesmo tem que ser feito com os pensamentos. Quando você se torna consciente dos seus pensamentos, fica surpreso com o que se passa dentro de você.

Quando o seu corpo e sua mente estiverem em paz, você verá que eles estão sintonizados um com o outro, há uma ponte. Agora eles não se movem em direções diferentes. Pela primeira vez há um acordo, e esse acordo ajuda tremendamente a trabalhar o terceiro passo – que é tornar-se consciente dos seus humores, suas emoções e seus sentimentos”.

O resultado desse processo é que você despertará para a vida e surgirá dentro de você um profundo amor. Através da meditação você encontrará uma nova qualidade de Ser, seu corpo experimentará o prazer, a sua mente conhecerá a paz, o seu coração se tornará alegre e, após tudo isso, você conhecerá o êxtase.

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