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Desfile de corpos

Com a chegada do Carnaval, a superexposição de mulheres na mídia aumenta. O modelo ''mulata-exportação'', da década de 70, inclui agora também loiras e morenas, siliconadas ou não. Mas a exibição do corpo feminino não está restrito apenas aos quatro dias de folia

Lycia Ribeiro
da Redação


Luma de Oliveira

[09 19h09min 2002]

Ela é o sinal verde da folia. Quando Valéria Valenssa começa a exibir seu corpo nas vinhetas da programação da Rede Globo dá-se início à contagem regressiva para o carnaval. A mulata Globeleza - há quase dez anos no ''cargo'' - também é um ícone da superexposição do corpo das mulheres nesse período de festa. De biquíni, de tapa-sexo ou completamente nuas, pintadas ou não, elas exibem suas curvas nos desfiles da avenida, nos clubes ou nos blocos de rua.

A associação do Carnaval com o corpo de mulheres, no entanto, não vem de agora. Desde a década de 30, quando o samba desceu dos morros cariocas e foi absorvida pela indústria fonográfica, Lamartine Babo cantava as mulatas em suas marchinhas. Segundo a socióloga baiana Regina Célia Nascimento, na tese A Trajetória de uma Identidade, a partir desse período a mulata torna-se tema recorrente dos compositores que obcecadamente passam a cantar a sensualidade selvagem dessas mulheres. Mais tarde esse mito é referendado pelas escolas de samba e a mulata passa a ter sua imagem ligada ao samba, ao Carnaval e à luxúria.

Mas foi na década de 70, quando Oswaldo Sargentelli lançou as ''mulatas como produto cem por cento nacional'' que essa imagem feminina foi definitivamente associada à folia. Durante anos Sargentelli viajou pelo Brasil e pelo Exterior apresentando um show de samba com mulatas. ''Elas têm cintura fina, coxa grossa, cara de safadas, boa dentadura, riso largo e cheirosíssimas, mexem e remexem, deixando todo mundo com água na boca'', definiu certa vez o próprio Sargentelli.

As mulatas, que na época escandalizavam os mais puritanos pela sua exibição de corpos, hoje posariam como meninas bem comportadas. Os biquínis foram substituídos por fantasias que tapam microscopicamente o essencial - quando cobrem. São passistas, destaques e madrinhas de bateria que desfilam seus corpos sarados na avenida, nos bailes e camarotes, num verdadeiro campeonato de miniaturização das fantasias.

Mas para se exibir publicamente, é preciso estar nos ''padrões'' de beleza. Não à toa, uma corrida por academias e dietas milagrosas às vésperas do Carnaval parece mobilizar anônimas e famosas. No caso daquelas que têm sua imagem relacionada especialmente aos dotes físicos, a exigência por um corpo perfeito é ainda maior.

Na opinião da professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e psicóloga Fátima Severiano, o que vem acontecendo com as mulheres é reflexo de um culto exacerbado do corpo como objeto de consumo. ''A mulher se objetifica, se torna mais vendável. O corpo não está exposto como uma forma libertária ou revolucionária. Ela não liberta nem libera sua sexualidade, mas a aprisiona nos meios marcantes''.

E para chegar a esse perfil - sempre inatingível e efêmero - muitas mulheres acabam sendo vítimas de patologias, como bulimia, anorexia e depressão, e submetendo-se a cirurgias mutiladoras. O aumento do número de lipoaspiração, de implante de silicone e de redução de estômago é uma prova dessa realidade.

A superexploração do corpo feminino ganha mais visibilidade durante os quatro dias de folia, mas ele está na mídia durante o ano todo. Vide as dançarinas de bandas de pagode, as participantes dos reality-shows, as musas das novelas, as garotas-propaganda das cervejarias que ganham destaque nas telas e nas revistas. ''A mídia tem um papel fundamental na disseminação dessa imagem da mulher. Vende-se o corpo como ornamento, a sexualidade genital com fins mercantis'', analisa Fátima Severiano.

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