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Trabalho e Vida

É preciso educar os corações!

Luciano Melo
27 Jun 2009 - 22h12min

Segundo os analistas econômicos, a depressão econômica que assola o planeta, afetando milhares de famílias, foi deflagrada quando ocorreu o colapso do subprime no mercado americano. Tal situação teria desencadeado a crise das hipotecas, contaminando, assim, toda a economia mundial. Creio que essa seja apenas parte da verdade, já que ela apresenta as causas do problema, sem trazer suas verdadeiras motivações. No artigo de hoje, iremos ampliar o nosso olhar acerca das perspectivas e dos aprendizados que podemos obter da atual situação.

Acredito que a verdadeira origem dessa crise está associada ao significado que atribuímos à vida e às motivações que temos para vivê-la. Em abril de 1999, Dalai Lama, o líder espiritual do Tibete, falou em um de seus discursos no Brasil: "Cada um de nós é responsável por tornar o mundo melhor. E isso deve começar por reformar o nosso próprio íntimo. A importância da educação já foi compreendida, mas cérebros brilhantes também podem produzir grandes sofrimentos. É preciso educar os corações."

Esse caos que ora vivemos não é de natureza apenas econômica. Acima de tudo, é uma crise ética. A civilização atual, ao assumir um modelo de produção centrado no consumo, aceitou assistir de camarote a essa perversa inversão de valores que substituiu o ser pelo ter. Como se isso não bastasse, "dourou a pílula" e nos fez acreditar que tudo isso ocorria em nome do desenvolvimento, da qualidade de vida e da tão sonhada felicidade.

É fato que o processo de industrialização e o acesso aos mais diversos bens de consumo têm melhorado sobremaneira a qualidade de vida da população, principalmente no que diz respeito aos indicadores sociais. A expectativa de vida, por exemplo, quase dobrou em um século, saindo da faixa de quarenta anos, no início do século passado, para aproximadamente setenta anos, no final dessa década. Porém, esse ganho de "qualidade de vida" não nos trouxe uma "vida de qualidade". Ao contrário, fez com que nos tornássemos reféns do desejo. Transformamos os shopping centers nos "templos da felicidade", locais onde alimentamos o nosso ego e reprimimos qualquer manifestação de nossas insatisfações interiores com o status quo. Conheço dezenas de pessoas que, quando estão deprimidas, correm para o consumo com a ilusão de que isso irá aliviar suas dores.

Não quero aqui desprezar a importância do desenvolvimento econômico para o crescimento sustentável de nossa sociedade, mas sim reposicionar as coisas nos seus devidos lugares. O consumo deve ser apenas um meio de proporcionar bem-estar à pessoa humana e não uma fonte insaciável que nos torna escravos de nossos desejos e prazeres. Quando antecipamos um prazer além das nossas possibilidades, pagamos um preço social muito elevado, pois caímos na armadilha da ciranda financeira, tornando- nos reféns dos juros e do excessivo comprometimento de nossas receitas. Dessa forma, geramos um desequilíbrio orçamentário e emocional, retroalimentando todo o ciclo de destruição que ora presenciamos. Portanto, a sabedoria está em desejarmos apenas o que está ao nosso alcance, ouvindo os verdadeiros anseios do nosso coração. Isso sim nos conduzirá a uma sociedade mais próspera e feliz!

Uma ótima semana e até o domingo que vem.

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