Fortaleza
Contradições do Padre Cheregato
19 Set 2006 - 02h03min
- As contradições detectadas nos depoimentos do padre Cheregato, ex-capelão da Base Aérea de Fortaleza (BAFz), se referem: ao local em que ele estava na hora e logo após as mortes; ao horário do início da missa na capela de Nossa Senhora de Loreto (Aerolândia), no dia 10/9/2004 - data do duplo assassinato; sua presença no lugar do crime; e numa reunião ocorrida no comando da Base Aérea de Fortaleza após o duplo homicídio.
PRIMEIRO DEPOIMENTO - 21/11/2005, em Fortaleza
- No Ministério Público Federal Militar (MPFM), o padre Cheregato afirmou que na data da morte dos soldados Fontenele e R. Mendonça houve missa na capela da BAFz às 19 horas. A celebração teria começado com atraso de meia hora, pois o capelão havia sido chamado para participar de uma reunião no comando. Lá estavam o então comandante da Base, Otto Voget, e outros oficiais.
- Cheregato disse que foi avisado do crime e da reunião por uma secretária da igreja, tão logo voltou de um cooper que costumava fazer, a partir das 16 horas, no interior do quartel. O depoimento da funcionária, no entanto, contradiz o religioso. Ela informou que no dia das mortes dos soldados, Cheregato chegou logo após as 18 horas. Tomou banho e foi para a celebração. Durante a missa, outra testemunha repassou o recado para uma terceira funcionária da capela, que avisou ao padre sobre a reunião no fim da celebração.
- A secretária e uma outra testemunha informaram ter certeza que o padre só tomou conhecimento das mortes ao fim da missa e que a celebração começou sem atraso.
- Mais controvérsias. O então comandante da Base, Otto Voget, revelou que não lembrava se havia convocado Cheregato e nem se o capitão estava presente à reunião ocorrida por volta das 19 horas - mesmo horário da missa.
- Cheregato afirmou também que até aquela data (do 1º depoimento), não sabia onde havia ocorrido as mortes. No entanto, no dia 22/2/2006, o capelão disse à imprensa que havia ido ao local do crime encomendar os corpos. E que no dia dos homicídios dos dois soldados estava celebrando uma missa de corpo presente no Parque da Paz. O POVO checou os registros de 9 enterros ocorridos no cemitério no dia 10/9/2004 e em nenhum constava o nome de Cheregato como celebrante.
SEGUNDO DEPOIMENTO - 7/3/2006, em Fortaleza
- José Severino Cheregato "esclareceu" que quando fez referência a ida ao local do crime, na verdade, teria dito que encomendou os corpos de Fontenele e R. Mendonça na capela da Base Aérea. O POVO apurou, junto às famílias, que os corpos dos dois soldados foram velados em dois cemitérios diferentes: o Parque da Paz e em Maracanaú.
- No mesmo interrogatório, Cheregato disse que a versão da sua presença no Parque da Paz foi criada e orientada pelo major Cavalcante - capelão que o substituiu na capelania de Fortaleza. Em depoimento no MPFM, Cavalcante negou a suposta orientação dada ao capitão.
- No mesmo depoimento, Cheregato disse que "tinha na cabeça" que estava na BAFz fazendo uma caminhada. Minutos depois, voltou atrás e afirmou que não se recordava do local onde esteve na tarde do dia 10/9/2004 e que, normalmente, estaria na Base caminhando. O posto sentinela 14, local das mortes, está no itinerário da caminhada.
TERCEIRO DEPOIMENTO - 17/3/2006, em Manaus (AM)
- Cheregato disse que na primeira vez que foi ouvido no Inquérito Policial Militar (IPM) fez confusão ao relatar algumas informações. A primeira dela é que poderia ter confundido a ida à reunião no comando com outros episódios semelhantes na rotina da BAFz.
- Que não era verdade que havia ido ao Parque da Paz celebrar uma missa de corpo presente. No entanto, voltou a afirmar que deu a versão depois de ter sido orientado pelo major Cavalcante.
- Outra contradição refere-se ao estado de saúde e memória do padre. No segundo depoimento (7/3/2006), Cheregato disse que tinha uma saúde perfeita e não tinha problema de memória. Que durante os anos de trabalho na Base nunca havia baixado no hospital. Dez dias depois, em Manaus, voltou atrás e revelou que sofria de problemas de esquecimentos, precisava de um tratamento psiquiátrico e que há três anos teve uma paralisia em partes do corpo, causada por estresse.
Fonte: Banco de Dados de O POVO
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