Guia Vida & Arte
O umbigo da cidade
Eleuda de Carvalho
da Redação
01 Out 2004 - 03h49min
Onde bate o coração de Fortaleza, eu não sei. Mas o umbigo é a Praça do Ferreira. Bem... Antes, houve o forte de pau a pique erguido por Martim Soares Moreno, em 1603, na barra do rio Ceará, no lugar hoje chamado Vila Velha, desmantelado pelos índios que resistiam ao invasor. Em seguida vieram os holandeses e fizeram o Schoonenborch, construído em pedra e cal sobre a colina à beira do Pajeú. Depois de expulsá-los, Moreno rebatizou-o de Forte de Nossa Senhora da Assunção, e, como diz o hino, ''ao redor do muro do forte, a pequena semente nasceu''. Mas até aí não era a cidade, que abriu os olhos neste quadrado em torno do cacimbão mandado fazer pelo boticário Ferreira.
O logradouro teve um bocado de alcunhas, até ser batizado definitivamente com o sobrenome do famoso farmacêutico e vereador. Do século 18, que é quando Fortaleza ganha foros de capital, até a década de 1980, era por ali que tudo acontecia. E ainda acontece. Numa manhã de sábado, o Vida & Arte foi dar uma banda pelo Centro, espiar as novidades e também as (poucas) fachadas do século passado, que teimam resistindo na Praça do Ferreira.
O passeio começa nos arredores, na praça Murilo Borges, a da fonte dos cavalos, na lateral do Centro Cultural Banco do Nordeste. É que uma figura fisgou a atenção: uma senhora, cabelos brancos mal tingidos de amarelo, gorducha, metida num vestido de cigana, coberto de fitas, de mangas bufantes. ''Vim passear'', fala a mulher, deixando entrever dentes de ouro. Mas nega-se a falar qualquer coisa mais e fotos, nem pensar. ''Só pra você ganhar, num quero não'', diz, resoluta. (No final do passeio, bem depois do meio-dia, olha lá ela de novo, caminhando ao sol de fogo, toda enfeitada com suas fitas).
Tempero e meizinha
Rua Assunção, 9, quase na esquina com Pedro Pereira. Uma portinha estreita espremida entre duas lojas é a botica e quitanda de seu Antônio Rocha da Silva, há 16 anos trabalhando com ervas, raízes e condimentos. À espera da freguesia, o homem vai ensacando folhas de boldo, ótimas pra ''desintoxicar o figo''. Ali o freguês encontra a raiz da pepaconha, folhas de capim santo, agrião, manjericão, hortelã, mudas de arruda, cascas de aroeira, cumaru e jatobá. Pés de babosa, cachimbo e fumo. Tem também colorau e alho. Pra fazer feira e farmácia, não mais que dez cruzados: um saquinho de tempero ou de ervas custa em torno de 1 real. A clientela não pára, mas nem todos vêm comprar: tem quem apenas peça informação. Esta, seu Antônio dá de graça.
Rosto de grafite
Até pouco tempo, quem andasse ali pela rua Edgar Borges, no encontro com Perboyre e Silva, no começo da manhã ou ao cair da tarde, ficava salivando pelo cheiro de pão quente que vinha da Padaria Lisbonense. Se acabou, virou shopping, mas quem reformou teve o cuidado de manter intacta a platibanda com as duas hastes de trigo cruzadas. Lá dentro, em frente à Art Recanto Presentes, o desenhista Walderlânio Nascimento Santos, de 22 anos, bate ponto de segunda a sábado, no horário comercial. ''A gente retrata a pessoa pessoalmente ou por foto'', explica o moço, exibindo algumas de suas obras já prontas, feitas em grafite sobre papel alvo, tamanho 30X40, ao custo de R$ 20. ''Desde pequeno eu desenhava. Este talento é um dom'', fala.
Azeitona com caroço
Bateu uma fome? Ali mesmo na Praça do Ferreira, na rua Pedro Borges, você pode degustar ''o seu tradicional pastel com caldo de cana'', propagandeia a placa da Leão do Sul. Um banco, pra um lanche mais à vontade, mas é muita gente e o jeito é comer no balcão. Acima, um cartaz avisa da promoção: na compra de dois pastéis com dois caldos (ou refrigerantes), a R$ 6,00, ganhe uma amostra grátis Lacqua di Fiori. Só a garapa, é um real. O pastel, de carne, queijo ou misto, sai por R$ 2. Outro aviso na parede: ''Atenção. A azeitona do pastel contém caroço''. Seu Guanabara é o gerente há 13 anos. ''A Leão do Sul está há 78 anos neste mesmo local. Começou como mercearia, que durou até os anos 1980''. A partir daí, o negócio continuou só como lanchonete. E de vento em popa!
Chão de mosaico
Ah, a Praça do Ferreira! De todo ângulo é bonita, o chafariz, o Hotel Excelsior, a Coluna da Hora, o prédio azulzinho da CEF, a lindeza do Cine São Luiz. Pois na mesma calçada do cinema, fica uma das mais distintas construções do começo do século passado, a casa da Drogaria e Farmácia Oswaldo Cruz. Da porta para dentro, o tempo parou. As estantes de madeira com suas simpáticas escadas, a velha balança de ponteiro, propagandas antigas, boiões de louça. Ao fundo, vestido de branco, o dono, seu Edgar. Naquela manhã ele estava muito atarefado, ''hoje não posso dar entrevista, passe na segunda-feira''. Que o cliente não se espante com a primeira impressão. Seu Edgar é uma figura! Antes de sair, repare o chão que você pisa: todo em mosaico hidráulico que não se faz mais.
Olha o cafezinho!
Calçadão da Guilherme Rocha, esquina com Barão do Rio Branco. Há mais de 30 anos, ali reina apenas café, de coador, servido em xicrinhas de louça, os pires e colherinhas são de alumínio. Chamava-se, antigamente, Café Wal-Can, derivado do nome do dono, José Waldo Cavalcanti. Agora é um filho dele que toca o comércio, rebatizado para Waldo Café. O gerente, José Hilton de Sousa, confirma que, fora o nome, nada mudou: ali só sai ''café, água e cigarros''. Hilton reclama que os negócios andam mal, ''por causa dos bancos fechados. Agora dizem que a greve vai acabar, pode ser que melhore'', disse ele, semana passada. O Waldo Café funciona de segunda a sábado, abre às sete e meia da manhã e vai até as sete da noite. (Sábado fecha mais cedo, às cinco horas).
Óculos escuros
Guilherme Rocha, ali aonde o vento faz a curva e assanha a Praça do Ferreira, entre a loja Ponto da Moda e a Discos Baratos. Na primeira, vestidinhos de viscose a R$ 7,99. No vizinho, três CDs ''de sucesso'' por dez reais. No meio, José Marques de Oliveira expõe sua mercadoria num aramado. O piauiense de Parnaíba vende óculos de sol. ''Tem na faixa de R$ 5 até R$ 16'', informa. Ele conta que, há alguns anos, aleijou e cegou. Um filho aprendeu uma massagem, botou o pai de pé. Quanto à visão, operou-se aqui em Fortaleza, ficou bom. ''Fiz muita amizade'', fala, sorrindo, contente com a cidade que o acolheu há cinco anos. ''Não me acostumo no Piauí mais não'', confessa. O freguês que chegou confere o visual num espelho de moldura amarela.
Enterrado de pé
Toda branca, com sua torre e sino, a mais antiga igreja da cidade, sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário, que também nomina a rua. Foi erguida tijolo por tijolo pelas irmandades de negros. Recém restaurada, sob o madeirame do piso descansam ossos dos antepassados. Um deles, porém, repousa de pé, na parede frontal, o Major Facundo. João Facundo era vice-presidente (o equivalente a vice-governador), quando foi assassinado num dia de dezembro de 1841. O mandante foi o presidente (governador) José Joaquim Coelho. Achar a igrejinha aberta, sábado de manhã, foi sorte, diz o zelador Edilberto de Oliveira Lucena. ''Tem missa todo dia, às sete e meia da manhã, menos aos sábados''. Na parede do altar, detalhe de flor-de-lis da pintura original.
Juba de leão
Debaixo da sombra das castanholas, sob o olhar metálico dos felinos de bronze, uns compadres jogam dominó. Em frente, pela rua General Bezerril, 376, uma linda casa assobradada, lá no alto a data de sua construção: 1915. No térreo funciona o restaurante Lions, em dois ambientes - tem o aconchego de um varandim amadeirado, como se vê em simpáticos botequins do centro velho do Rio ou do Recife. A dona do restaurante é uma paraibana de Campina Grande, Maria de Fátima Porto, que reclama das galerias entupidas. ''Um fedor! Eu cuido aqui dentro mas, e lá fora? Ninguém vem tomar as providências'', reclama. Fátima serve lanches, bebidas quentes e geladas, além do self service de almoço, ''sem balança'', a R$ 3,00. A paisagem e a brisa do mar são por conta da casa.
O logradouro teve um bocado de alcunhas, até ser batizado definitivamente com o sobrenome do famoso farmacêutico e vereador. Do século 18, que é quando Fortaleza ganha foros de capital, até a década de 1980, era por ali que tudo acontecia. E ainda acontece. Numa manhã de sábado, o Vida & Arte foi dar uma banda pelo Centro, espiar as novidades e também as (poucas) fachadas do século passado, que teimam resistindo na Praça do Ferreira.
O passeio começa nos arredores, na praça Murilo Borges, a da fonte dos cavalos, na lateral do Centro Cultural Banco do Nordeste. É que uma figura fisgou a atenção: uma senhora, cabelos brancos mal tingidos de amarelo, gorducha, metida num vestido de cigana, coberto de fitas, de mangas bufantes. ''Vim passear'', fala a mulher, deixando entrever dentes de ouro. Mas nega-se a falar qualquer coisa mais e fotos, nem pensar. ''Só pra você ganhar, num quero não'', diz, resoluta. (No final do passeio, bem depois do meio-dia, olha lá ela de novo, caminhando ao sol de fogo, toda enfeitada com suas fitas).
Tempero e meizinha
Rua Assunção, 9, quase na esquina com Pedro Pereira. Uma portinha estreita espremida entre duas lojas é a botica e quitanda de seu Antônio Rocha da Silva, há 16 anos trabalhando com ervas, raízes e condimentos. À espera da freguesia, o homem vai ensacando folhas de boldo, ótimas pra ''desintoxicar o figo''. Ali o freguês encontra a raiz da pepaconha, folhas de capim santo, agrião, manjericão, hortelã, mudas de arruda, cascas de aroeira, cumaru e jatobá. Pés de babosa, cachimbo e fumo. Tem também colorau e alho. Pra fazer feira e farmácia, não mais que dez cruzados: um saquinho de tempero ou de ervas custa em torno de 1 real. A clientela não pára, mas nem todos vêm comprar: tem quem apenas peça informação. Esta, seu Antônio dá de graça.
Rosto de grafite
Até pouco tempo, quem andasse ali pela rua Edgar Borges, no encontro com Perboyre e Silva, no começo da manhã ou ao cair da tarde, ficava salivando pelo cheiro de pão quente que vinha da Padaria Lisbonense. Se acabou, virou shopping, mas quem reformou teve o cuidado de manter intacta a platibanda com as duas hastes de trigo cruzadas. Lá dentro, em frente à Art Recanto Presentes, o desenhista Walderlânio Nascimento Santos, de 22 anos, bate ponto de segunda a sábado, no horário comercial. ''A gente retrata a pessoa pessoalmente ou por foto'', explica o moço, exibindo algumas de suas obras já prontas, feitas em grafite sobre papel alvo, tamanho 30X40, ao custo de R$ 20. ''Desde pequeno eu desenhava. Este talento é um dom'', fala.
Azeitona com caroço
Bateu uma fome? Ali mesmo na Praça do Ferreira, na rua Pedro Borges, você pode degustar ''o seu tradicional pastel com caldo de cana'', propagandeia a placa da Leão do Sul. Um banco, pra um lanche mais à vontade, mas é muita gente e o jeito é comer no balcão. Acima, um cartaz avisa da promoção: na compra de dois pastéis com dois caldos (ou refrigerantes), a R$ 6,00, ganhe uma amostra grátis Lacqua di Fiori. Só a garapa, é um real. O pastel, de carne, queijo ou misto, sai por R$ 2. Outro aviso na parede: ''Atenção. A azeitona do pastel contém caroço''. Seu Guanabara é o gerente há 13 anos. ''A Leão do Sul está há 78 anos neste mesmo local. Começou como mercearia, que durou até os anos 1980''. A partir daí, o negócio continuou só como lanchonete. E de vento em popa!
Chão de mosaico
Ah, a Praça do Ferreira! De todo ângulo é bonita, o chafariz, o Hotel Excelsior, a Coluna da Hora, o prédio azulzinho da CEF, a lindeza do Cine São Luiz. Pois na mesma calçada do cinema, fica uma das mais distintas construções do começo do século passado, a casa da Drogaria e Farmácia Oswaldo Cruz. Da porta para dentro, o tempo parou. As estantes de madeira com suas simpáticas escadas, a velha balança de ponteiro, propagandas antigas, boiões de louça. Ao fundo, vestido de branco, o dono, seu Edgar. Naquela manhã ele estava muito atarefado, ''hoje não posso dar entrevista, passe na segunda-feira''. Que o cliente não se espante com a primeira impressão. Seu Edgar é uma figura! Antes de sair, repare o chão que você pisa: todo em mosaico hidráulico que não se faz mais.
Olha o cafezinho!
Calçadão da Guilherme Rocha, esquina com Barão do Rio Branco. Há mais de 30 anos, ali reina apenas café, de coador, servido em xicrinhas de louça, os pires e colherinhas são de alumínio. Chamava-se, antigamente, Café Wal-Can, derivado do nome do dono, José Waldo Cavalcanti. Agora é um filho dele que toca o comércio, rebatizado para Waldo Café. O gerente, José Hilton de Sousa, confirma que, fora o nome, nada mudou: ali só sai ''café, água e cigarros''. Hilton reclama que os negócios andam mal, ''por causa dos bancos fechados. Agora dizem que a greve vai acabar, pode ser que melhore'', disse ele, semana passada. O Waldo Café funciona de segunda a sábado, abre às sete e meia da manhã e vai até as sete da noite. (Sábado fecha mais cedo, às cinco horas).
Óculos escuros
Guilherme Rocha, ali aonde o vento faz a curva e assanha a Praça do Ferreira, entre a loja Ponto da Moda e a Discos Baratos. Na primeira, vestidinhos de viscose a R$ 7,99. No vizinho, três CDs ''de sucesso'' por dez reais. No meio, José Marques de Oliveira expõe sua mercadoria num aramado. O piauiense de Parnaíba vende óculos de sol. ''Tem na faixa de R$ 5 até R$ 16'', informa. Ele conta que, há alguns anos, aleijou e cegou. Um filho aprendeu uma massagem, botou o pai de pé. Quanto à visão, operou-se aqui em Fortaleza, ficou bom. ''Fiz muita amizade'', fala, sorrindo, contente com a cidade que o acolheu há cinco anos. ''Não me acostumo no Piauí mais não'', confessa. O freguês que chegou confere o visual num espelho de moldura amarela.
Enterrado de pé
Toda branca, com sua torre e sino, a mais antiga igreja da cidade, sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário, que também nomina a rua. Foi erguida tijolo por tijolo pelas irmandades de negros. Recém restaurada, sob o madeirame do piso descansam ossos dos antepassados. Um deles, porém, repousa de pé, na parede frontal, o Major Facundo. João Facundo era vice-presidente (o equivalente a vice-governador), quando foi assassinado num dia de dezembro de 1841. O mandante foi o presidente (governador) José Joaquim Coelho. Achar a igrejinha aberta, sábado de manhã, foi sorte, diz o zelador Edilberto de Oliveira Lucena. ''Tem missa todo dia, às sete e meia da manhã, menos aos sábados''. Na parede do altar, detalhe de flor-de-lis da pintura original.
Juba de leão
Debaixo da sombra das castanholas, sob o olhar metálico dos felinos de bronze, uns compadres jogam dominó. Em frente, pela rua General Bezerril, 376, uma linda casa assobradada, lá no alto a data de sua construção: 1915. No térreo funciona o restaurante Lions, em dois ambientes - tem o aconchego de um varandim amadeirado, como se vê em simpáticos botequins do centro velho do Rio ou do Recife. A dona do restaurante é uma paraibana de Campina Grande, Maria de Fátima Porto, que reclama das galerias entupidas. ''Um fedor! Eu cuido aqui dentro mas, e lá fora? Ninguém vem tomar as providências'', reclama. Fátima serve lanches, bebidas quentes e geladas, além do self service de almoço, ''sem balança'', a R$ 3,00. A paisagem e a brisa do mar são por conta da casa.
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