Guia Vida & Arte
SHOW
4 Hermanos
No fundo do palco, um circunspecto Barba, displicentemente batendo em seus pratos metálicos. Na extrema direita, um diligente Bruno, que não tira os olhos de suas teclas brancas. No centro, os braços longos de Marcelo tocando a guitarra. À esquerda, só se vê os desajeitados pulinhos e passinhos dançantes de Rodrigo, vulgo Ruivo. Pronto, se está num show dos Los Hermanos, parecido com o de hoje à noite na Barraca Biruta, na Praia do Futuro, a partir das 22 horas
Natália Paiva
Especial para O POVO
20 Jan 2006 - 02h21min
Os ex-estudantes da PUC-RJ - Bruno estudava Publicidade, Barba, Psicologia e Marcelo e Rodrigo, Jornalismo - foram revelados ao mainstream fonográfico e ao público em geral com o sucesso do pegajoso hit Anna Júlia ("Quem te vê passar assim por mim / Não sabe o que é o sofrer"). Esta, aliás, é uma música emblemática dos "Losermanos" (como passaram a ser chamados, por detratores e adoradores, em brincadeira com o termo inglês 'loser', perdedor). Mas há outras, várias, como Primavera ("Primavera se foi e com ela meu amor / Quem me dera poder consertar tudo que eu fiz"), A Flor ("Minha flor serviu pra que você achasse alguém / Um outro alguém que me tomou o seu amor"), Quem Sabe ("Quem sabe o que é ter e perder alguém / Sente a dor que senti"), todas de Los Hermanos ou Bloco do Eu Sozinho, os dois primeiros discos. Fecha-se o ciclo com Vencedor ("E eu que já não quero mais ser um vencedor (...) Eu quer já não sou assim muito de ganhar"), de Ventura. O eu lírico hermano admite: não adianta fugir do estigma.
Mas, no fundo, essa história é intriga: há muito, Los Hermanos não pode mais ser considerada banda de perdedor. Não só porque as letras saíram do âmbito da lamúria e da auto-comiseração - tanto a serenidade das composições de Camelo quanto as angústias das letras de Amarante ultrapassaram o movimento pedestáltico - mas também porque os Hermanos são fenômeno de público e de crítica. Bloco do Eu Sozinho e Ventura lideraram as listas de melhores álbuns de 2001 e 2003, respectivamente. Los Hermanos se consagrou com seus arranjos sofisticados e com a insersão de elementos da MPB. O 4, entretanto, buliu nas estruturas do consagrado.
4 não é rock, não é MPB, não é rock-MPB. São ondas sonoras mais ou menos únicas. Apesar de totalmente anti-rádio, a canção O Vento chega a tocar nas FMs, e seu clipe rendeu aos barbudos uma indicação no último Video Music Brasil, da MTV. Coisa de fã, mesmo, que vota e liga. Pode-se torcer o nariz para o novo, mas não há como negar o lirismo poético do álbum, notável em canções como É de Lágrima ("É de lágrima que faço o mar pra navegar") e Condicional ("Eu sei, é um doce te amar / o amargo é querer-te pra mim"). Inegável, também, é a sofisticação de músicas como Fez-se Mar e Dois Barcos. Uma outra coisa presente em 4 - e ausente nos anteriores - é a unidade. 4 forma uma liga, possui uma coerência sonora. Contribuem para o resultado final as participações de Jota Moraes, tocando vibrafone em Sapato Novo, Stephane San Juan, nas percussões de Paquetá, e Fernando Catatau nas guitarras de Fez-se Mar - além da guitarra do "quinto hermano" Kassin, também produtor dos álbuns desde Bloco.
Entre amigos
Para o show de hoje à noite, o baterista Rodrigo Barba garante que eles vão tentar tocar o 4 inteiro, seguindo a linha dos shows feitos desde o lançamento do CD. Ainda vão entrar um pouco de Ventura e um tiquinho de Bloco. Ainda bem que há a esperança de ouvir hits como A Flor ou Último Romance. Como músicos de apoio, os instrumentistas de sempre: Bubu (trompete), Mauro (trombone), Marcelo Costa, vulgo Índio (sax), e Gabriel Bubu (baixo). Los Hermanos causa empatia no público não só pela música, mas por seus integrantes também. Bruno Medina, Rodrigo Barba, Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante são pessoas - simplesmente pessoas. Eles têm cara de amigos - de amigos nossos, de pessoas com quem estudamos, com quem cruzamos em festas. A barba por fazer, as camisetas largadas, os tênis Addidas - é tudo muito normal, muito comum. Não há gel, objetos metálicos sobre ou sob a pele, maquiagem. Sim, os hermanos são nossos amigos. Nossos amigos vencedores.
OP - Depois do sucesso estrondoso de Anna Júlia, vocês lançaram o Bloco Do Eu Sozinho, diferente em todos os sentidos do álbum de estréia, Los Hermanos. Dois anos depois, vem o Ventura, que foi contra todas as expectativas. Agora, vocês lançaram o bossanovista 4. Em seis anos, vocês fizeram um percurso musical e tanto. Esse amadurecimento musical foi concomitante ao amadurecimento pessoal de vocês?
Barba - Eu acho que o que aconteceu foi isso mesmo: passamos de estudantes de faculdade, do primeiro disco, até hoje em dia sermos profissionais. Então eu acho que foi essa mudança pessoal de cada um, que levou a gente a tocar o que a gente toca e a gostar do que a gente gosta. Então, eu acho que é exatamente isso que você falou.
OP - A música de vocês consegue ter uma felicidade triste - ou uma tristeza feliz - que encanta. As músicas do Amarante parecem ser mais angustiantes e tensas, enquanto as do Camelo são mais serenas. Para você, quais são as diferenças entre as músicas compostas pelo Amarante e as compostas pelo Camelo?
Barba - Eu acho que, ainda mais pra gente que conhece - eu conheço o Marcelo há bastante tempo, e conheço também o Rodrigo - a gente vê a personalidade deles ali: a tranqüilidade do Marcelo, a angústia do Ruivo. Acho que a gente consegue reparar nisso; além de outras coisas, cada um tem sua peculiaridade, desde a forma como eles colocam as palavras até o modo como a gente arranja as músicas. Acho que isso dá uma pluralidade muito grande ao nosso disco, à obra como um todo. Ajuda a não ficar uma coisa muito parecida.
OP - É comum que, no que diz respeito à imagem de uma banda, a figura do vocalista seja centralizada. No caso de vocês, isso parece não ocorrer, já que todo mundo dá entrevista, todo mundo é responsável pelo que a banda pensa e diz. Mas como ocorrem o trabalho coletivo e a descentralização no processo criativo de vocês?
Barba - A gente sempre vai para o sítio. Antes do sítio, o Marcelo e o Rodrigo já estão compondo as músicas, eles chegam ao sítio com algumas músicas compostas e terminam de compor lá. Mas lá é onde acontece o arranjo das músicas, então acaba que todo mundo se envolve na hora de arranjar as músicas, tanto as do Marcelo quanto as do Ruivo. Eles já têm alguma idéia do que eles querem, mas sempre acaba mudando porque somos quatro pessoas diferentes. O Bruno pensa uma coisa, o Rodrigo pensa outra coisa da música do Marcelo, o Marcelo... O que acontece mesmo é ali no sítio, a divisão na hora de arranjar as músicas.
OP - O 4 foi recebido da forma que vocês esperavam, a repercussão era essa?
Barba - A gente nunca espera direito o que vai acontecer. A gente vai pro sítio, fica lá dentro dois meses fazendo música, e a única coisa que a gente vê é a gente mesmo. O sorriso de um equivale que a parada tá dando certo. A gente não sabe o que vai acontecer na hora que a gente lança um disco, a gente não sabe se não vai dar em nada, se ninguém vai gostar, se todo mundo vai achar ruim, ou se as pessoas vão gostar, se as pessoas vão no show e vão cantar... Mas o que tem acontecido tem deixado a gente bem feliz, porque a gente chega no show e as pessoas cantam como se fosse mais um disco dos Los Hermanos, e a gente fica muito feliz por isso. Mas a gente não consegue esperar tipo "ah, essa música vai ser 'a' música", a gente tá muito envolvido com as coisas que faz e não consegue ver a música.
OP - Ouvindo o 4, dá pra perceber a repetição de várias palavras ao longo das músicas (vento, morena) e remissão a arranjos e palavras dos anteriores. São coincidências ou revelam uma unidade do disco e da obra da banda?
Barba - Eu acho que tem um pouco de coincidência e um pouco de unidade. Com o tempo, acho que a gente vai ficando mais a gente, né? (risos) E acho que esse disco, principalmente - tanto que ele tem 12 músicas, é um disco menor - era pra ser um disco com mais unidade, com mais uma "cara". Diferente do Ventura, que tem 15 músicas, é um disco grande que tem altos e baixos em relação às músicas, de arranjo. Esse disco (4), a gente queria fazer mais centrado, era uma coisa que a gente queria antes de ter arranjado as músicas e tudo.
SERVIÇO
Los Hermanos - 4. Barraca Biruta, a partir das 22 horas. Ingresso: R$ 20 (à venda nas lojas Bunnys). Com Kayangaço e DJ Birutas. Informações: 3224.6519
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