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Opinião

ARTIGO

Analfabetismo: um fato intolerável

É possível, em um curto espaço de tempo, talvez mesmo em quatro anos, abolirmos o analfabetismo no Brasil. Existe um jeito de ensinar que mostra ser possível alfabetizar adultos em três meses

Antonia Félix
Educadora

12 Jul 2003 - 03h52min

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É inaceitável que convivamos ainda com a idéia de que é natural que mais de 1/4 da população brasileira continue analfabeta. O Ceará, apesar dos avanços nas taxas de escolarização, ainda tem 1.300.000 analfabetos, 95% destes, maiores de 20 anos.

Por que será que ainda existem tantas pessoas analfabetas se ansiamos abolir esta forma de escravidão? Por que ele insiste em continuar, se desde 1845 há campanhas de alfabetização e se o analfabetismo não é uma doença crônica e contagiosa?

Não é mais possível atribuir esse problema a uma geração que não teria freqüentado a escola e que, sendo assim, a próxima geração que hoje está na escola será alfabetizada. Como? Se apenas no Ceará a metade dos que estão na escola pública até a 3ª série está completamente analfabeta? (O POVO, 11/5/2003).

Afinal, onde está a falha? Nas pessoas que não aprendem, em políticas públicas ou na pedagogia? O problema está na ação que se equivoca ao não utilizar uma didática e acompanhamento técnico adequados, além de utilizar mal os recursos humanos, materiais e financeiros. Com relação a este último ponto vale observar que, mesmo existindo o desvio de recursos públicos, e isso deve ser abolido, não podemos elegê-lo como o único problema da inefetividade das ações políticas, porque assim estaríamos nos eximindo, enquanto sujeitos sociais, de outras responsabilidades éticas, simplificando inadequadamente a questão.

A partir dessa compreensão, e buscando superar efetivamente estes entraves, é possível sim, em um curto espaço de tempo, talvez mesmo em quatro anos, abolirmos o analfabetismo no Brasil.

Porém, essa idéia não deve ser entendida como sendo a saída para todos os males da educação, mas, indiscutivelmente, a alfabetização deve e pode, sim, ser a senha para o acesso universal ao mundo do conhecimento.

Todos os brasileiros políticos, éticos e solidários, desejam zerar o analfabetismo, dispostos a construir caminhos para tanto. Porém, precisa-se aprender como fazer isso bem, rápido e com resultado, pois não há tempo a perder.

Felizmente, surge um caminho: o Brasil e o Ceará - de modo particular - descobriram que existe um jeito de ensinar que, comprovadamente, tem demonstrado ser possível alfabetizar adultos em três meses, com 100% de resultado, sem evasão, sem voluntarismo e sem paternalismo, mas, sim, com teoria, prática e técnica consistentes e com compromisso ético do professor, que sabe ser possível ensinar a todos.

Esta didática foi desenvolvida pela ONG Grupo de Estudo sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação (Geempa) e, segundo ela, todos aprendem. Para tanto, basta aliar desejo, competência e ética a profissionais titulados e capacitados. Frente à nossa atual realidade, que associa fracassos, mau uso de recursos humanos e materiais à frustração dos milhões ainda analfabetos, existe aqui algo de revolucionário.

Diante de tantas tentativas fracassadas, em breve a didática geempiana, impulsionada pelos anseios de mudanças do Brasil atual, afetará as metodologias convencionais, influenciará todas as formas de ensinar, dando ao Brasil a grande contribuição de desnaturalizar a idéia de que há analfabetos porque há alguém que é incapaz de aprender.

A experiência geempiana tem demonstrado que todos aprendem e que ''só ensina quem aprende''. Dadas suas características renovadoras, tão solidamente apoiadas cientificamente, ela tem vocação para se tornar hegemônica no campo das idéias sobre aprender a ensinar. Ela é fundamental e promissora se quisermos de fato abolir o analfabetismo.

Antonia Félix é educadora e mestranda em Avaliação de Políticas Públicas

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