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Opinião

ARTIGO

Artistas de retórica

Felipe Gurgel
31 Out 2005 - 00h14min

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Os figurantes ''engordam'' cenas de filmes. Estão ali feito peças de retórica do espetáculo. Despercebidos. A idéia não passa apenas pelo cinema mas - de forma distorcida - pelo show business da música brasileira também. No caso da organização do último Ceará Music, alguns figurantes foram desavisados de suas funções. Descobriram tarde, bem na hora de encenar.

O mais interessante de um festival do porte do Ceará Music, nas três primeiras edições, era a vitrine para a produção local. Nada mais lógico para um evento musical que leva o nome do Estado. A programação do Palco Nativo - reduto da turma que se sacrifica no anonimato - dividia o ''burburinho'' do principal. Por acaso, o público se deparava com bons grupos do underground cearense. Valia o esforço das bandas até chegar lá.

Ano passado e este ano - quando o palco foi montado a uma longa distância dos camarotes, parece que a manutenção do Nativo se propôs a fazer média com a cena alternativa. E nada além disso. Como quem adota um cão sem dono e larga a ração à revelia do animal. As bandas foram submetidas à figuração, sem aviso prévio. Entre as derrapadas da (des)organização, há quem tocou sem público(!). Não por falta de interesse alheio. Mas sim pela impossibilidade de se exibir. Uma humilhação à produção local.

Os cearenses do trio Macula subiram ao palco às 17h30min do sábado (15), com os portões do Marina Park Hotel ainda fechados. Tocaram a metade do show assim. E fizeram um show redondo, competente, sem deixar escapar a indignação. ''E aí galera? Boa noite, vocês só puderam entrar agora? Nosso show acabou!'', dizia o vocalista Fábio Dória, sorrindo 'amarelo' ao final da apresentação.

Faltou respeito, diga-se. Creio que se um esforço de renovação e descoberta (de fato, e não forçada) de revelações da cena local não cabem ao perfil do Ceará Music, as bandas do underground também não precisam de esmolas do festival. Salve quaisquer espaços de divulgação para estes artistas. No entanto, de que vale manter o Palco Nativo em cima do desperdício de expectativas, trabalho e talento dos protagonistas?

Felipe Gurgel é repórter do Núcleo de Comportamento e Cultura do O POVO

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