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ENTREVISTA

Henrique Cunha Júnior Pela inclusão étnica

Terceira geração da militância no Movimento Negro na sua família, Henrique Cunha Júnior defende todas as ações de inclusão possíveis para a população afro-descendente, inclusive as polêmicas cotas para negros nas universidades

Clícia Weyne
Da Redação

08 Mar 2004 - 04h22min

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(Foto: André Goldman)
Militante do Movimento Negro praticamente desde que nasceu — seu avô já era um defensor da causa em 1904 —, Henrique Cunha Júnior mantém profunda sintonia entre a vida acadêmica e as suas idéias acerca do desenvolvimento nacional e a inclusão de afro-descendentes no País. Professor titular do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Ceará (UFC), este paulista de 51 anos nascido no bairro do Bexiga diz não acreditar na concentração da produção de conhecimento no eixo Rio-São Paulo e, por isso, viaja o Brasil lecionando e desenvolvendo pesquisas. ‘‘Eles (os intelectuais paulistas) conhecem muito bem Nova Iorque e a Cidade Universitária (campus da Universidade de São Paulo) e falam do Brasil inteiro’’, brinca Cunha.

‘‘Fui formado em uma escola muito hábil em conciliar a tecnologia e a sociologia. Meus professores todos tinham formação científica e cultural’’, afirma, explicando os interesses em áreas tão opostas como a Teoria do Caos, ligada à Física, Etnias e Gênero e Economia.

Diz acreditar na valorização dos afro-descendentes por meio de políticas públicas, inclusive as ações afirmativas como as cotas para negros em universidades públicas. Ele fala nisso sem conseguir esconder a admiração que tem pela atuação da família no Movimento Negro, que foi um dos pilares da construção de sua personalidade. Inquieto, ele está no Ceará há oito anos e já planeja a próxima partida, que deve ser daqui a cerca de dois anos, para a Bahia ou Amapá, onde já desenvolve trabalhos e pesquisas na área da inclusão étnica.


O POVO - É mais difícil pensar políticas de inclusão em uma sociedade capitalista em desenvolvimento?
Henrique Cunha Júnior - O capitalismo tem formas adaptativas e há exemplos de um padrão de vida tipicamente capitalista e bem melhor que o nosso. Talvez, a versão que nós temos do capitalismo, no Brasil, é que não tenha sido a melhor, que precise passar por uma transformação. Então, eu acho possível melhorar bastante o padrão de vida dentro dessa organização social. Aliás, isso é uma necessidade das próprias sociedades capitalistas. Hoje, há uma massa de pessoas excluídas, que não consome ou consome pouco e está fora dos padrões amplos de inserção social, o que tem causado prejuízo ao desenvolvimento do próprio sistema, já que com a enorme distância entre os diferentes grupos sociais surgem restrições ao crescimento econômico. Em 2001 e 2002, estive ligado ao Congresso Mundial de Combate ao Racismo na África do Sul por meio de um grupo na Fundação Palmares que articulou as conferências no País e percebi que a grande surpresa do evento foi que os próprios países capitalistas têm uma preocupação — e não sabem muito bem como articular — com os grandes desníveis nas esferas global, regional e locais. No Brasil, você percebe o que é o resultado de diferenças de níveis quando se vai ao Rio de Janeiro. Lá, vizinho à favela, onde a violência impera, está o outro lado da exclusão social: uma classe média que não pode desfrutar de um certo padrão de vida melhor, porque está sempre sendo pressionada pela pobreza. A mesma coisa a gente vê aqui, em Fortaleza, entre a Aldeota e a grande periferia da Capital. Isso mostra que há uma necessidade de repensar as políticas econômicas, de maneira mais inclusiva.

OP - Essa realidade da qual o senhor falou, com uma grande parcela da população com poder aquisitivo tão pequeno que prejudica o desenvolvimento da economia atinge várias etnias. No entanto, a maioria das propostas do Movimento Negro, como as cotas para afro-descendentes em universidades públicas, são específicas para negros. É possível chegar a políticas públicas mais abrangentes?
HCJ - Há, sim, programas específicos para a população afro-descendente. Mas, o Movimento Negro também elaborou propostas que passam pela inclusão ampla, que passa fundamentalmente pela mudança das políticas públicas. Se a gente pensar o Brasil há pelo menos 30 anos, que foi quando eu comecei no Movimento Negro, vamos perceber que o problema não é nem a discussão das cotas, se as pessoas são favoráveis ou não às cotas. O problema é que o lado eurodescendente, o lado chamado branco brasileiro, classe média branca e tudo, encerrou a discussão sobre Brasil e relações étnicas — e, marcadamente, a gente trabalha com a idéia de etnias e não de raças. O debate, para esse lado, terminou em 30 (na década de 1930), como se no País o Gilberto Freyre (1900-1987) tivesse dado um condicionamento e as coisas andassem segundo as idéias dele. A esquerda ainda adiantou a discussão e chegou às idéias do Florestan (Fernandes, 1920-1995), mas daí pararam! O Movimento Negro e os intelectuais negros trabalharam muito, nos últimos tempos, para conseguir enxergar essas perspectivas e hoje há um choque de posturas no País. A grande discussão das cotas é, no fundo, esse choque, entre as proposições do Movimento, que são de políticas particulares, diferenciadas, públicas — num sentido muito amplo das políticas públicas. A nossa proposta não é só para universidades, mas em todas as áreas...

OP - Inclusive para Telecomunicações, como a proposta apresentada pelo senador Paulo Paim (PT-RS), que diz que toda produção nacional deve contar com 25% de negros?
HCJ - São para todas as áreas. Foram propostas variadas trabalhando com a saúde, habitação, e a única que ressaltou na sociedade, que a mídia deu vazão e tudo mais, foi a questão das cotas. Isso mostrou também um despreparo dos interlocutores contra as cotas, que trabalham cinco idéias e as cinco idéias são fáceis de rebater.

OP - Uma dessas idéias é, por exemplo, que as cotas devam ser para as escolas públicas, cuja falta de qualidade no ensino impede que seus estudantes, a maioria formada por pessoas pobres, estão na escola pública.
HCJ - Mas nada impede de ter cotas para escolas públicas e quotas para negros. A segunda coisa é que muitas das pessoas que hoje falam de escola pública nunca estiveram nas trincheiras de debates da escola pública. Mas, o Movimento Negro sempre esteve, nós sempre fomos favoráveis a uma escola pública ampla, competente, adequada às diversas realidades do País. Portanto, o discurso de cotas é respaldado por uma perspectiva histórica, de uma série de trabalhos. Por exemplo, o pessoal diz que ‘‘cotas não seriam adequadas para o Brasil’’ e, depois, não conseguem completar a frase, não dizem porque que não seriam adequadas.

OP - E porque seriam adequadas?
HCJ - As cotas são adequadas para o Brasil porque o ingresso na universidade é amplamente excludente. Você só vai conseguir transformar esse sistema da entrada na universidade por medidas de intervenção. A gente não conseguiu fazer com que as coisas evoluíssem, mas não foi por falta de propostas ou de tentativas. E, sim, porque não houve essa flexibilidade. Há tempos se discutia na esquerda brasileira acabar com o vestibular. Entretanto, o ensino brasileiro caiu na situação contrária e reforçou o vestibular. Ele hoje é um império comercial, ele não seleciona competências, tanto é que vê-se em qualquer universidade brasileira pessoas que ingressam pelo vestibular e que desistem do curso ou que não têm vocação para aquela disciplina e ficam constantemente reprovadas. Às vezes, não têm nem preparo para acompanhar uma universidade.

OP - Por que especificamente cotas para negros? O ingresso na universidade realmente tem sido excludente, mas para muitos outros, além dos negros.
HCJ - O argumento é histórico. Em qualquer estatística brasileira dos últimos 100 anos, vê-se uma absurda diferença entre o pobre negro e o pobre branco. Mesmo nas estatísticas sobre a classe média brasileira, percebe-se uma separação nítida. O número de médicos, engenheiros e advogados, no País, há um século, era proporcionalmente o mesmo de hoje, se mantém a mesma relação. Quer dizer, há algo que o País tem que conseguir reverter. E essa diferença não é diluída na população. Se fosse, seria bom, maravilhoso, nós, do Movimento Negro, adoraríamos que tivesse sido diluída (por diferentes etnias). O problema é que a pobreza ficou concentrada entre a população negra. Nós também nos pusemos aí na década de 70 a tentar explicar porque a reprovação era maior entre a população negra e descobrimos que o que a gente hoje caracteriza com o nome de racismo está na própria perspectiva de muitos educadores, que acreditam que o aluno negro não tem tanta capacidade. Nós fizemos agora um trabalho sobre significados da Matemática nos territórios de maioria afro-descendente. Você vai ver como funciona na cabeça das pessoas uma coisa que deveria ser universal, que é a Matemática, como uma forma de separação e essa forma sempre tem um índice étnico associado.

OP - O senhor pode explicar melhor?
HCJ - Primeiro, vários professores direta ou indiretamente, na escola pública, acham que Matemática não é uma coisa para negros. Aí, já mostra a desinformação das pessoas sobre a Matemática e a Tecnologia nas sociedades africanas anteriores. Não sabem nem que toda tecnologia do Brasil colonial é africana. O passado africano do Brasil sempre foi visto com a idéia de que o negro vem de uma sociedade atrasada e tribal, no sentido de ficar escondido no meio do mato e sem refinamento cultural, sem coisas edificantes da condição humana. Isso não foi revertido na sociedade brasileira. Então, os professores de matemática justificam claramente que ‘‘pensar em Matemática não é coisa para negros’’.

OP - Eles realmente dizem isso?
HCJ - Dizem, sutil ou abertamente. Também há outros itens que se somam a isso. Lógico que se pensa que onde a pobreza é maior, o ensino é pior. Mas, isso não é tão lógico assim porque poderia ter havido políticas públicas que revertessem esse tipo de coisa. No Brasil, poderiam ter implantado ensino de oito horas onde a população é mais pobre e nós teríamos revertido essa relação entre pobreza e exclusão. Mas não aconteceu isso. Para grande parte da população negra, o que aconteceu é que há um afastamento dos índices médios. Por exemplo, em um trabalho na área de saúde pública, há doenças com incidência maior entre a população negra. Essas problemas médicos que atingem mais a população negra não são estudados no Brasil. Por exemplo, quando o Movimento Negro quis saber o que era Anemia Falsiforme — porque a doença atinge 6% da população dos territórios de maioria afro-descendente, que é o Nordeste — teve que enviar gente para Cuba, Jamaica e Estados Unidos. Nós, Movimento Negro, sem apoio do Estado, é que financiamos a formação de profissionais nessa área. Que as coisas estão aí para todos e tudo mais, o Brasil ainda não conseguiu provar isto, não é uma prática. Eu estou mostrando exemplos que mostram que o problema vai além da questão da pobreza.

OP - O censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou um crescimento dos casamentos inter-raciais, de 1,3% para 2,6%, e também um aumento do número de negros (pretos e pardos) que se identificavam com a etnia e se assumiam assim. Isso tudo foi comemorado como indicadores de um Brasil menos racista, mas o senhor percebe os dados dessa maneira?
HCJ - Olha, o racismo no Brasil ainda é presente em todas a situações de vida da população. O que, às vezes, ocorre é que não se dá a algumas atitudes o nome de racismo. Então, as pessoas acabam acreditando que isso não ocorre e acabam não tomando providências para que deixem de ocorrer. Que houve uma evolução da consciência da população que a gente chama de afro-descendente, não há dúvida. Isso evoluiu porque o Movimento Negro cresceu no País todo. Hoje, em qualquer grande sindicato, há um núcleo de consciência negra. Nas esferas de governo, também o Movimento Negro é atuante e exige políticas públicas específicas. Essas ações têm o resultado da mudança, mas ainda não é uma situação definitiva e positiva. Eu acredito que também não dá para entender as relações étnicas pelo casamento. Não dá porque isso sempre existiu, talvez até o número maior ou menor de casamentos seja resultado de alguns problemas sazonais. Mas a mudança estrutural, que nos interessa, ocorre mesmo é na esfera econômica, do trabalho, de políticas públicas e isso tem evoluído muito pouco. Mesmo com governos mais progressistas, como é o caso do PT (Partido dos Trabalhadores) no poder e tudo mais, a evolução é muito pequena. Do ponto de vista amplo das relações, de realmente ter uma ampliação política definidora e de nova vertente que pode ter um impacto econômico, não tivemos grandes coisas a comemorar.

OP - O que seriam essas políticas de impacto econômico? Quais as propostas de inclusão do Movimento Negro?
HCJ - Uma das propostas é o governo realizar políticas específicas em áreas da cidade, onde a maioria da população é negra. Mas, isso nunca foi feito. Nenhum enfoque, pelo menos, na repartição de orçamento do Estado indica que isso vai ser feito. Algumas pequenas políticas, mas ainda muito débeis, o governo (federal) está focando na questão dos quilombos, que também são territórios afro-descendentes, onde os problemas da população negra são principalmente a posse da terra. Mas ainda é muito débil.

OP - Houve um crescimento significativo dos produtos específicos para população negra. O surgimento desse mercado significa que o setor produtivo no Brasil começou a perceber a população afro-descendente?
HCJ - Sim, esse é um negócio interessante, já que a indústria brasileira era muito preconceituosa. Ela achava que os negros não tinham poder aquisitivo para comprar os seus produtos, mas houve uma pesquisa na USP (Universidade de São Paulo), em 1986, O Mercado Negro, que mostrava isso muito claramente: produtos que só são consumidos pela população negra e que dariam um bom pacote de dinheiro no mercado e, no entanto, não eram contabilizados na economia brasileira. Por exemplo, a classe média negra comprava meias americanas, porque não encontrava meias adequadas no Brasil, e pagava uma pequena fortuna. Havia produtos que custavam US$ 3, US$ 4, nos Estados Unidos, e eram vendidos a US$ 10, US$ 12, aqui no Brasil. Isso era uma inversão de preços, já que lá se ganha melhor do que aqui. A mídia e o marketing das empresas, com uma cabeça mergulhada no preconceito, não percebiam essas oportunidades. Agora, eles sabem que há lucros diferenciados com esses produtos.

OP - O crescimento do mercado de produtos étnicos não influencia as empresas a investirem em ações de responsabilidade social para aumentar a inclusão de afro-descendentes e ampliar a base de consumo?
HCJ - Não, porque há uma dissociação. O Brasil ainda é um país de escambo. Os empresários lucram e vão lucrando até secar a fonte. Nesse sentido, não se faz uma política que traga melhorias e que possam sustentar a ampliação do consumo. Por exemplo, o mercado de turismo brasileiro se assenta em festas de descendência africana, como o carnaval. Mas o Brasil faz a política de turismo de forma que há uma concentração imensa tanto de poder quanto de renda. Então, por exemplo, no carnaval da Bahia, a população negra recebe menos de 1% de todos os R$ 400 milhões que são lucrados com a festa. Assim, as empresas, os grupos musicais e todos eles são dominados por uma população branca, que faz pouca concessão na repartição desses lucros: contratam por preços muito baratos, pagam mal e não investem na formação artística. Se aquilo acabar do ponto de vista cultural, eles vão buscar outros eventos. Se 10% da renda do carnaval do Rio de Janeiro, nos últimos 50 anos, fossem revertidos para a população, a cidade não seria tão pobre. Não houve investimento, só acumulação intensiva em cima dessa população. Os produtos têm seguido a mesma orientação dos serviços: enquanto estão comprando, ótimo e, se deixarem de comprar, vão procurar outra coisa (para obter lucros).

OP - O senhor falou, antes, que o preconceito existe, mas não é reconhecido como tal. Como ele se manifesta?
HCJ - Por simples desconhecimento, é difícil ver um intelectual brasileiro falar em erudição dentro das culturas africanas. Esse é um exemplo: as pessoas lidam com o candomblé como se fosse um emaranhado de casualidades. Como se não fosse uma cultura pensada e elaborada e refinada dentro do seu conjunto. No entanto, dentro de um terreiro de Candomblé há uma cosmovisão, um conjunto cultural extremamente trabalhado. Para poder compreender o sentido do Candomblé, é necessário pensar e refletir sobre Filosofia africana e Gnose. Eu tenho um trabalho imenso para entender cultura Banto, que é absolutamente complexa. Nela, há nuanças desde a forma do uso da língua e das transformações que ela sofre com sufixos e prefixos que a transformam em uma pirâmide intelectual e pode-se passar toda a vida tentando entendê-la. Mas a média brasileira não consegue ver isso, nem tecnologia ou aprimoramento. Enfim, não consegue ver a nação africana como portadora de refinamento e cultura. Então, o que percebemos é que as pessoas não aprofundam conhecimentos sobre o continente e generalizam as informações sobre ele. Para reconhecer um lugar, é preciso também diferenciá-lo nas suas diversas regiões. Ainda se pensa muito a África baseada na poesia do Castro Alves (1847-1871), que é a ‘‘tribo dos homens nus’’, como se a nudez tivesse um significado de empobrecimento intelectual.

OP - Quais são as contribuições de tecnologia das nações africanas para a cultura ocidental?
HCJ - Hoje, estou fazendo um trabalho que é uma retomada da Matemática. Você não consegue saber o que foi passado para outras civilizações, mas consegue saber que existiu. Há um jogo de reis, na História africana, que utiliza uma tábua, na qual se faz qualquer conta, em qualquer base numérica. Quer dizer, já havia a possibilidade da automação do cálculo. Também desenvolvo trabalhos com a Geometria Fractal, que hoje está sendo usada no processamento de imagens, e a Teoria do Caos. As duas teorias já existiam há pelo menos 400 anos nas sociedades africanas. Há construções em sociedades tribais em fractal. Apesar de ser uma tecnologia considerada bastante nova, hoje, não sabemos quanto foi aproveitado da cultura africana pelos etnólogos, pelos especialistas europeus. No ano passado, vi uma empresa francesa patenteando paredes fractais, que reduzem muito o ruído do lado oposto. Mas, eu também vi no interior de Moçambique, há cerca de 10 anos, as pessoas fazerem isso com bambu: era uma construção parecida com uma cabana, em que quase não havia ruído entre um cômodo e outro. Talvez tenha sido aperfeiçoado, mas a base já estava dada, na África, há muito tempo.

OP - O senhor percebe alguma característica nos cearenses em relação às suas características afro-descendentes, já que aqui a libertação dos escravos aconteceu antes do resto do País?
HCJ - A característica mais marcante da população é a rejeição às suas próprias origens. O cearense defende muito a idéia de raça, realmente. Há aqui uma hipótese que, para ser afro-descendente, tem que ter pele retinta e não se olha para essas relações de uma forma dinâmica. Quando recebemos estudantes norte-americanos, por meio de projetos com associações, eles se consideram em uma sociedade negra. Mas, quando vão conversar com os cearenses, eles dizem que aqui no Ceará não há negros. Então, esses visitantes estrangeiros ficam um mês pensando em padrões absolutamente díspares. Mas acredito que esse movimento está se revertendo: quando se vai à periferia, em outras regiões do Estado, mais se vê pessoas se identificando como afro-descendentes. As estatísticas de 20 anos atrás registram 10% da população cearense como negra. Quanto mais longe se vai na História, mas se percebe que a proporção era muito grande e que mudou, mas está em crescimento outra vez.

OP - Como o senhor avalia o papel da universidade nas políticas de inclusão e desenvolvimento social no Brasil?
HCJ - Acredito que todas as universidades tenham um papel dinamizador da cultura. Hoje, no mundo, não se faz nada sem um suporte universitário e todo lugar que não tiver boas instituições não tem um futuro dentro da sociedade capitalista. Para desenvolver uma região, se deve implantar lá uma boa universidade, um espaço em que todas as culturas são processadas. Nossas indústrias de desenho, gráfica, têxtil, de brinquedos estão sofrendo uma concorrência de padrões que não são brasileiros e a maneira de escapar a isso é estimular a produção de conhecimento. Na França, o Ministério da Educação e o Ministério da Indústria e Comércio colaboram entre si para tentar evitar que os brinquedos orientais dominem o mercado europeu. Os franceses perceberam que a única maneira de fazer uma barreira a esses produtos é desenvolver a própria cultura e incentivá-la. Agora, no Brasil, estamos mais atentos a esse elo entre cultura, universidade e desenvolvimento da sociedade. Por isso, eu acredito que toda instituição de ensino superior no País deve ser um centro de excelência. Não acho que deva haver diferenças entre centros de excelência e universidades que ofereçam apenas ensino.

OP - Qual o papel do Movimento Negro na inclusão social no Brasil?
HCJ - Uma das coisas que o Movimento Negro sempre fez no Brasil desde Zumbi dos Palmares até hoje foi, no seu conjunto de ações, debater o aperfeiçoamento da democracia. Por não termos sido amplamente beneficiados pela democracia liberal no Brasil, como grupo, estamos sempre colocando-a em questão, em xeque. E o movimento democrático se beneficia com isso. A existência de movimentos específicos, com reivindicações próprias de cada grupo, atende uma necessidade da organização democrática. Até porque mesmo o pensamento da esquerda no Brasil sempre foi muito europeizado. Por exemplo, o Caio Prado (Junior, 1907-1990) não pensou a possibilidade dos movimentos de resistência indígenas e negros do passado como uma forma de contestação política. Tanto que ele disse que no Brasil não havia contestação política o século XX, porque estava sempre preocupado com a velha contestação do estado, que é um modelo europeu. Ele não percebeu que estava em um país onde os quilombos foram uma grande contestação de status do regime escravista — não pela contestação do estado, mas por abrir áreas de liberdade no estado político. O quilombo foi uma sociedade alternativa ao escravismo e isso não foi captado por um intelectual da envergadura do Caio Prado. Assim, o Movimento Negro também faz repensar o Brasil, a História brasileira e a nossa condição de identidade dentro desse contexto histórico.

OP - Uma das frentes de atuação do Movimento Negro é chamar atenção para personagens históricos que são afro-descendentes, como ocorreu com o escritor Machado de Assis. São exemplos positivos importantes?
HCJ - A sociedade raciocina sobre padrões: se você mantém a sociedade sobre um padrão completamente branco, é um desestímulo para qualquer tipo de ação da garotada, da criançada. Os meninos e meninas afro-descendentes ficam sem nenhuma imagem positiva, já acham que são derrotados porque só se vêem representados nas imagens da violência. Eu vejo essas coisas ao ministrar cursos em escolas, quando faço uma brincadeira: peço que eles descrevam, por palavras ou desenhos, uma escrava africana. Depois, eu mostro imagens das escravas de ganho no Brasil (que exerciam atividade econômica fora da casa do proprietário, com a qual obtinham renda que deveria ser entregue ao dono), que eram vestidas em roupas luxuosas e fica registrada a disparidade entre o que se pensa e o que podem ser as diversas realidades. É possível perceber nessas crianças um brilho diferente nos olhos, alguma coisa que diz assim que é possível vencer barreiras, buscar ações de superação. Levar crianças dos bairros às universidades também surte efeitos positivos. Alguns visitantes têm até medo de entrar para ver, mas muita gente sai dizendo que vai querer estudar em uma.




Gilberto Freyre - Primeiro sociólogo a analisar a influência dos hábitos e costumes africanos na formação nacional como positiva, quando lançou em 1933 a obra Casa Grande & Senzala. O livro, no entanto, é criticado porque elimina os conflitos e define o povo brasileiro como mestiço e feliz e a organização social é descrita como sendo uma democracia racial.

Florestan Fernandes - Segundo ele, pensador socialista, os negros foram excluídos das relações de trabalho ao serem libertados pela Lei Áurea em 1888, sem nenhum reparo aos anos que passaram como escravos.

Anemia Falsiforme - Quem tem a doença possui hemácias (células vermelhas do sangue, que são responsáveis pelas trocas de gases no organismo) em forma de foice, o que dificulta a passagem pelos vasos sanguíneos mais finos e provoca dores, além de expor o portador a um maior risco de infecções. O problema é hereditário e a incidência maior é sobre a população negra.

Antônio Frederico de Castro Alves - Conhecido como o ‘‘Poeta dos Escravos’’, porque foi o primeiro a retratar em sua obra a realidade dos africanos nas senzalas e navios negreiros brasileiros. Uma das poesias de Castro Alves é O Navio Negreiro, que diz ‘‘(...) São os filhos do deserto/ Onde a terra esposa a luz/ Onde vive em campo aberto/ A tribo dos homens nus (...)’’.

Geometria Fractal - O principal pesquisador dos fractais é o matemático Benoit Mandelbrot, que na década de 1970 descreveu objetos que não perdem a sua definição formal ao serem ampliados ou reduzidos.

Teoria do Caos - É um novo modo de entender fenômenos. Segundo a Teoria do Caos, mesmo a partir de uma informação precisa sobre um sistema em um determinado instante, é muito difícil fazer previsões sobre sua evolução no tempo. Por exemplo, a previsão do tempo para dois ou três dias é possível por meio de satélites, mas para uma semana as possibilidades de erro são enormes por conta do número de variáveis.

Zumbi dos Palmares - O mais importante rei do Quilombo de Palmares, que foi a maior organização de escravos fugitivos no Brasil. Ele nasceu no próprio quilombo, de onde foi capturado ainda criança e criado por um padre. Mas na adolescência fugiu e virou líder em Palmares. Estima-se que ele tenha vivido de 1655 a 20 de novembro de 1695, quando foi preso e teve a cabeça decepada pela expedição de Domingos Jorge Velho, a mando da Coroa Portuguesa. A data de sua morte é hoje celebrada como o ‘‘Dia da Consciência Negra’’.

Caio Prado Júnior - O historiador marxista analisou as bases da formação econômica brasileira como conseqüência do passado colonial: a condição de colônia provedora de tudo que a Metrópole necessitava implicou na manutenção do tripé monocultura-latifúndio-escravismo. Segundo ele, isso impediu que os africanos ou afro-descendentes contribuíssem de maneira positiva no Brasil, concentrou as populações no litoral, onde se produziam estavam as principais culturas agroexportadoras e foi um entrave ao desenvolvimento do mercado interno.

Joaquim Maria Machado de Assis (1839 - 1908) - O escritor realista é considerado o maior contista brasileiro, além de ser o autor de obras como o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro que redefine o gênero no Brasil, e Dom Casmurro. Nessas publicações, descreve os personagens principalmente por suas características psicológicas e é um crítico mordaz do ser humano, embora seja contido no uso de adjetivos.

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