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STANLEY JORDAN

Stanley Jordan: ''A música tem o poder de curar''

Para o guitarrista Stanley Jordan, a música é um dos principais exemplos de como diferentes raças, credos e nacionalidades podem conviver em paz. Um mestre em seu instrumento, ele troca a pose de estrela por uma postura zen e fala sobre meditação, infância, técnicas musicais, família e terapias alternativas

Christiane Viana
da Redação

15 Mar 2004 - 05h49min

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Quando pequeno, o guitarrista Stanley Jordan já era tão vidrado em música que chegava a aborrecer os pais. Na época, tocava piano. E ficava a martelar as teclas vezes e mais vezes sempre em busca da perfeição. A insistência era tanta que eles, não raro, pediam: ''Dá para tocar alguma coisa diferente agora?''. Uma crise financeira na família o fez trocar de instrumento, mas a obsessão por acordes e harmonias continuou presente.

Bendita obsessão, por sinal. Foi por causa dela que Jordan se tornou um dos mais respeitados músicos dos Estados Unidos. Mais: do mundo inteiro. Seu estilo predileto é o jazz. Foi a partir dele que se consagrou. No entanto, parece não haver limites para o guitarrista. Virtuoso, ele desenvolveu um modo peculiar de tocar, transferindo para a guitarra técnicas do piano. O método se chama ''Tapping'' ou ''Touch''. Não se trata de algo novo. Porém, Jordan lhe deu tons particulares, inserindo novidades como o uso da mão direita também no braço do instrumento. O resultado é que consegue fazer harmonia, melodia e baixos ao mesmo tempo, como se houvesse três músicos tocando de uma só vez.

Com graduação em teoria musical e composição pela prestigiosa Universidade de Princeton, o guitarrista partiu da academia para as ruas. Literalmente. Foi tocar nas praças e estações de metrô em Nova York, Filadélfia e outras cidades do leste norte-americano. O público informal, que passava por ele a caminho do trabalho ou de qualquer outro destino, parava e assistia maravilhado às apresentações. A propaganda boca-a-boca foi se espalhando e, em 1985, Jordan finalmente lançou seu primeiro disco.

Hoje, ele viaja o mundo em turnês. Como a que o trouxe ao Brasil, no final de janeiro último. Entre as cidades em que fez show, estava Fortaleza, que pela primeira vez o recebeu. Stanley Jordan foi a atração de lançamento do Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga 2004. Na ocasião, se ofereceu para, em seu tempo livre, ministrar uma oficina para músicos locais e ainda fazer uma apresentação para crianças que lutam contra o câncer no Hospital Infantil Albert Sabin.

Longe da pose de estrela, o guitarrista esbanjou simpatia e simplicidade. Não se negou sequer a dar mais uma entrevista, mesmo depois de já ter cumprido seu calendário de divulgação no Ceará. Pouco antes de embarcar para mais um show, ele conversou com o Vida & Arte. Na pauta, família, infância, seus estudos em musicoterapia, meditação, política e, claro, muita música.

O POVO -Gostaria de voltar um pouco à sua infância. Você começou a tocar piano aos sete anos, seu pai e sua mãe também tocavam, e sua irmã. Era uma casa muito musical? Quais as lembranças daquela época?
Stanley Jordan- Bem, não havia gente tocando o tempo todo. Mas eu me lembro de ter muita música clássica em casa, porque minha mãe tinha uma grande coleção de discos. Ela era assinante de um clube do disco e eles lhe mandavam muito material clássico. Ela também escutava muito rádio. Estava fazendo PhD em Literatura e, enquanto estudava, gostava de ouvir música. Foi minha mãe quem realmente levou a mim e à minha irmã aprender piano. No entanto, era eu que tocava mais em casa mesmo. Tinha momentos em que chegava a irritar minha família (risos). Porque eu tocava tanto! E era a mesma coisa, uma vez atrás da outra. Lembro que, um dia, o meu pai ou minha mãe, não sei ao certo, pediu: ''Será que dá para você tocar algo diferente?'' (risos). Mas eu simplesmente adorava!

OP - Já era jazz o que você tocava?
SJ -Não. Eu tinha aulas-padrão de piano clássico. E lembro que, uma vez, minha professora passou um exercício para aprender escalas. Mas, durante aquela semana, acabei não estudando muito. Fiquei brincando com meus amigos. E, na hora da lição, não sabia direito. Ela, então, me testou e percebeu que eu não havia estudado. Porém, foi interessante porque, quando tentei tocar em escala diferente e errei, soube imediatamente que tinha errado. Meu ouvido me dizia se a nota estava muito alta ou muito baixa. Fiquei contente por ter essa percepção. E também foi a primeira vez que percebi que a música deveria ser ensinada de outra maneira. Eu ainda não conhecia o Método Suzuki, que ensina crianças bem pequenas a ouvir os sons. Uma vez que se ouvem realmente os sons, eles tornam-se parte do seu coração e não dá para esquecê-los. Muita gente que tem aulas-padrão acaba esquecendo muita coisa quando pára as lições.

OP -Mas, então, sua rotina era comum. Ou seja, você brincava como qualquer outra criança, não ficava o tempo inteiro tocando.
SJ -É, eu passava um bom tempo na rua com meus amigos. Definitivamente, não ficava só tocando. O lugar onde cresci fica no norte da California, no que hoje se chama Vale do Silício (Silicon Valley). Há uma série de companhias de alta tecnologia por ali. E nós fomos para aquela área porque meu pai trabalhava nesse campo tecnológico. Mas, antes de todas essas empresas se instalarem por lá, havia muitas plantações, hortas com verduras e frutas. E me lembro de brincar por ali com minha irmã e meus amigos. A gente comia muita fruta. É um hábito que ainda trago comigo. Sempre que saio em turnê, por diversos países, peço frutas. Quando estive nas Ilhas Canárias, fazendo shows, eles até mudaram meu nome para ''Mucha Fruta'', pois estava sempre comendo alguma fruta (risos). Então, acho que o ambiente em que fui criado era muito saudável.

OP - Quando você passou do piano para a guitarra, já foi logo tentando tocar desse jeito? Achando que poderia fazer um híbrido dos dois instrumentos?
SJ -Não. Isso foi seis anos depois que comecei a tocar guitarra. E decidi ir para a guitarra porque tinha um tipo de música pela qual eu estava começando a me interessar que era mais adequada para tocar na guitarra. Também, naquela época, nós passamos por dificuldades financeiras, meus pais tiveram que vender o piano. Então, não havia mais piano na casa. E a guitarra era mais barata. Pude persuadi-los a me comprar uma. Então, houve realmente duas razões para que eu mudasse de instrumento: querer tocar outro tipo de música e não ter mais piano em casa. E acabou sendo uma grande sorte, porque acabei desenvolvendo algo especial na guitarra.

OP -Quando você percebeu que poderia tocar de modo diferente?
SJ -Bem, deixe-me ver... Comecei a tocar guitarra quando tinha 11 anos. Quando estava com 16, 17 anos, comecei a mudar minha técnica. O que aconteceu foi que, quando cheguei ao ginásio, pude ter acesso a um piano novamente. Tinha um na escola. Mas, naquela época, minha identidade tinha mudado. Eu não era mais um pianista, mas um guitarrista. Então, acho que tive um pouco de crise de identidade (risos). Porque ainda queria tocar muita coisa do piano. Mas só conseguia pensar em mim mesmo como um guitarrista. Então, fiquei um pouco frustrado por um tempo. Mas, como geralmente dizem que os guitarristas são mesmo pianistas frustrados (risos)... Então, tive uma grande motivação para achar um meio de tocar na guitarra o que tocava no piano.

OP -Você é considerado um dos mestres da guitarra. Ainda há algo que almeje conseguir, musicalmente falando?
SJ -Sim, com certeza. É tudo tão relativo... Mesmo esse termo ''mestre'', sabe? Veja bem, nas artes marciais, você pode ser faixa preta, faixa preta em segundo grau, em terceiro grau... Ou seja, nunca há um fim. E a guitarra é um instrumento interessante, porque é muito fácil de aprender, um dos mais fáceis. Porém, um dos mais difíceis para dominar. Uma das dificuldades típicas dos guitarristas é que normalmente não dá para tocar bem sempre. Tem dias que você toca maravilhosamente bem e outros em que parece que nada dá certo. E especialmente a técnica que uso é mais difícil que o normal de ser consistente, porque há tantas pequenas variações... Se a temperatura muda, por exemplo, muda toda a técnica. Então, uma das coisas é que gostaria de ter mais consistência. Outra é que existem técnicas que fazem parte do método que uso e eu gostaria de fazer melhor. Por exemplo, o uso de harmônicos. Isso é algo que ainda não explorei tanto quanto gostaria. É uma técnica muito especial, porque o toque tem que ser tão bom, tão preciso... Não é algo que você só precisa pegar o instrumento e fazer. Tem um quê de zen, porque o foco maior é no controle das suas mãos para que possa tocar precisamente. Requer que você direcione sua mente mais do que no método convencional.

OP -Então, você faz algum tipo de meditação, tem algum ritual antes de se apresentar?
SJ -Tenho! Realizei um workshop numa escola de música, aqui em Fortaleza, e até falei sobre o meu método de preparação. Uma das coisas que frisei é que, se você quer se apresentar sem cometer erros, é importante praticar sem cometer erros também. E, nesse sentido, você tem que focar muito a sua mente e tocar de modo bem simples e bem lento. Isso é algo importante para se dizer aos músicos jovens, que, geralmente, estão sempre na maior pressa! Querem fazer tudo muito rápido. E, normalmente, tocam desse modo também. Mas você descobre que, se diminuir o ritmo, acaba aprendendo mais rapidamente.

OP -A ida para a escola de música foi idéia sua. É algo que você costuma fazer nas turnês? Procura trocar experiência com os músicos locais?
SJ -É, eu realmente gosto de fazer isso. Não cobrei nada. Fiz porque é um dos meus objetivos na vida, parte da minha missão... Tive ótimos professores, mas um, em particular, me passou tanto! Foi alguém com quem convivi por 28 anos. Há alguns anos, ele morreu por complicações do diabetes. E, mesmo depois de tanto tempo de convivência, de tudo que aprendi, ainda sinto que tem tanto mais que preciso aprender! Então, agora que ele se foi, não posso estudar mais com ele. E percebi o quão precioso foi tudo isso, o quão importante é passar para frente o que se tem. A vida é mais preciosa do que a gente costuma perceber. Então, isso me deu mais motivação para ensinar o que sei, porque tem coisas que, quando eu partir, vão comigo. Portanto, estou tentando passar logo à frente o que posso. Quero estar por aqui outros 60 ou 80 anos, entende? Mas, mesmo que eu viva mais 80 anos, ainda haverá coisas que ficarão perdidas. Por isso, é importante ensinar.

OP -Você tem filhos? E eles tocam algum instrumento também?
SJ - Tenho uma filha. Ela canta e compõe. Tem muito jeito com as palavras. E eu gosto da qualidade da voz dela também. Sabe, ela ainda é muito nova, está ainda desenvolvendo seu tom. Mas tem um ritmo ótimo. Inclusive, nós fizemos um show juntos, há uns dois anos, aqui no Brasil. O nome dela é Julia. Tem 20 anos.

OP -Você sempre fala muito da musicoterapia. Quando você descobriu que poderia ajudar as pessoas através da música?
SJ - Bem, eu tive algumas experiências, quando era muito jovem, que me mostraram que a música tinha esse poder de curar. E isso permaneceu sempre comigo. Daí, muito tempo depois, conheci uma musicoterapeuta profissional, que me falou sobre esse campo do conhecimento, pois eu não sabia. E ela me enviou muitas informações a respeito. Depois, comecei a participar de uma série de conferências nacionais nos EUA, nas quais pude aprender mais ainda sobre essa área. Aí, um certo ano, fui para uma conferência internacional. Foi quando realmente comecei a ver o que acontecia ao redor do mundo. E fiquei tão impressionado que decidi estudar mais formalmente. Na mesma época, eu também estava ensinando. E isso acabou ajudando os meus alunos, porque percebi que algumas das coisas que eles precisavam aprender na música tinham a ver com o que eles precisavam na vida. Comecei a ver essa conexão, que na música existe uma vida em microcosmo. E achei tudo tão interessante e incrível! Então, iniciei um curso de equivalência ao mestrado, no Estado do Arizona. Digo equivalência, porque faço as mesmas disciplinas, mas eles não têm um mestrado oficial lá. No entanto, têm ótimos professores, um programa maravilhoso e eu não tenho tempo para assistir às aulas o tempo inteiro. Mas estudo bastante e faço muita coisa de forma independente. E, quando viajo, tenho oportunidade de estudar com vários musicoterapeutas, de falar muito a respeito do assunto... Aqui, fiz uma apresentação informal num hospital infantil (Nota da Redação: Hospital Albert Sabin) e sinto que este tipo de trabalho é muito recompensador. Se você conversa com um musicoterapeuta sobre o trabalho dele, ele vai falar por horas e horas... Eles amam seu trabalho e todos têm muitas histórias de como ajudaram outras pessoas...

OP -O poder da música para liberar ou causar emoções é algo muito claro. Você pode extravasar sua raiva, se lembrar de alguém...
SJ -Sim! Por exemplo, bateria e percussão são uma ótima maneira de expressar raiva. Você pode bater ali, não vai quebrar nada e vai extravasar o que está sentindo. Muito da musicoterapia diz respeito à participação. Ouvir pode ser muito bom, mas participar é ainda melhor! Nos EUA, especialmente nas cidades menores, há muitos casos de crianças e adolescentes que carregam muita raiva. E há toda uma cultura, atualmente, que diz que está tudo bem em ter essa raiva. Então, é bastante difícil curar isso, porque esses jovens pensam que a raiva que sentem é parte de sua identidade, portanto, eles não querem largar mão disso! Mas, às vezes, se você junta esses jovens e os coloca para tocar percussão, de forma que possam expressar sua raiva, o que acontece é que eles começam a se divertir muito, passam a trocar experiências, e tendem a se tornar mais sociáveis e a cooperar mais.

OP -Falando ainda sobre raiva... Como você avalia a política externa e mesmo interna do seu país? Fala-se muito lá em guerra, terrorismo, censura...
SJ -Bem, tem um monte de coisas acontecendo nos EUA atualmente. E acho que, de certa forma, isso é saudável, porque traz à tona muitas questões que estavam escondidas, sabe? Por exemplo, tem muita gente que não apóia essas guerras. Mas, ao mesmo tempo, eles apóiam as tropas, porque há muitos jovens arriscando sua vida pelo país. De qualquer forma, há muitos debates acontecendo a respeito de nossa própria identidade. Quem somos nós, afinal? Qual deve ser o nosso propósito no mundo? Então, as pessoas estão começando a sugerir alternativas. Por exemplo, acho que os EUA sempre foram um país muito forte no campo das artes. Tem muita música boa lá, pela mesma razão que tem muita música boa aqui no Brasil. Porque temos diferentes culturas e raças convivendo juntas. Isso gera uma espécie de reação química, que acaba criando boas coisas. Mas sinto que nós meio que esquecemos essa parte das nossas almas. E o que tento fazer é lembrar as pessoas: ''Vejam, é isso que importa mais. Não devemos esquecer nunca, senão perdemos nosso caminho no mundo''.

OP - É interessante também ver que essa mistura toda que existe aqui e nos EUA resultou em algo peculiar. Ou seja, pegamos o que havia de bom em várias culturas e criamos a nossa própria a partir daí, com nossa cara.
SJ -Sim! E isso também serve de inspiração para o mundo, porque há muitas culturas diferentes, sistemas políticos, raças e tudo mais. E a grande pergunta é: ''Como fazer com que todos vivam juntos?''. E acho que a música pode ser um símbolo para mostrar que é possível as pessoas trabalharem juntas, em paz. O propósito da minha vida é, definitivamente, a paz.

OP -Voltando à sua visita ao Hospital Albert Sabin, foi possível perceber que você facilmente se conecta com as crianças. Como consegue isso? Tem alguma inspiração a partir do que viveu com sua filha?
SJ -Com certeza! E também nós todos já fomos crianças, não é? Então, ainda há um pouco de criança em cada um de nós. Daí crescemos e pensamos que devemos deixar isso para trás. Mas é importante lembrar... E, para mim, eu me divirto com as crianças. É um pouco paradoxal, de certa forma. Porque, por um lado, a gente está num hospital e vê aquelas pobres crianças, que passam por experiências muito dolorosas sem ter culpa de nada! E é tão injusto que eles tenham que passar por aquilo! Mas, ao mesmo tempo, você vê quantas pessoas tomam conta delas, o quanto se devotam para lhes dar um pouco de conforto! Eles me mostraram aqui uma nova parte do hospital, com um jardim e brinquedos para as crianças. Tudo muito bonito! Então, por um lado, eu sinto muita tristeza em ver aquelas crianças sofrendo. Mas, por outro lado, me sinto feliz em ver que elas estão em muito boas mãos. Gostaria, inclusive, de que houvesse mais apoio para esse tipo de trabalho do hospital. Eles não estão apenas tratando as crianças como pacientes, mas como uma pessoa, um ser humano. É assim que a musicoterapia funciona também. Tem um campo na Medicina, que é meio novo, chama-se imunologia psíquico-neurológica, que demonstra que o cérebro e as emoções têm uma forte influência no corpo. Por exemplo, pessoas que acreditam que vão ficar boas, têm mais probabilidade de realmente se curar. Portanto, sinto que cada vez mais vão ganhar importância os aspectos emocional e espiritual na Medicina.

OP -Você sempre se apresenta em hospitais quando está em turnês?
SJ -Nem sempre, porque, às vezes, não há tempo. Queria poder fazer isso sempre. Mas tem turnês muito corridas. O bom dessa vez, aqui no Brasil, é que estou tendo tempo livre, para relaxar, colocar os estudos em dia. E já que tive tempo extra aqui em Fortaleza, pedi para tocar num hospital. Mas não são sempre hospitais infantis. Não necessariamente. Posso me apresentar para qualquer pessoa. Mas gosto particularmente das crianças, porque é muito interessante a maneira que elas respondem à música. São tão naturais! Mas já toquei para pessoas idosas... O que é bacana no jazz é que sei muitas músicas antigas, que as pessoas mais velhas também sabem. É tão bom tocar essas canções e vê-las sorrir, voltar à vida, sabe?

OP -E, na música contemporânea, aquela que toca no rádio, tem algo que você aprecia?
SJ -Eu consigo achar algo interessante em quase todo tipo de música. Acho que isso tem a ver com saber ouvir, procurar o que é bom. Mas devo dizer que a indústria fonográfica é muito controlada por pessoas que não entendem realmente nada sobre música. Elas a vêem como apenas mais um produto. Então, gostaria de ver essa indústria retornando às mãos de pessoas que verdadeiramente têm ouvidos, que entendem a importância de cuidar bem dos músicos. Porque, do contrário, a música se perde! Vamos ver o que acontece... Eu tento ser otimista em relação a isso.

OP -Por que você, no início da carreira, decidiu tocar nos metrôs e ruas em Nova York e outras cidades norte-americanas?
SJ -Bem, foi algo que aconteceu por acaso. Eu tentava fazer os meus primeiros shows, em lugares como cafés, bares, casas noturnas. Mas não era fácil. Havia muita competição e os donos desses lugares não entendiam o que eu estava fazendo e não queriam correr riscos. Então, conheci músicos de rua, que me convidaram para tocar com eles. Comecei assim. E aquilo foi bom, me fez ver que o mais importante era que eu tocava porque tinha um dom, que me trazia felicidade e me permitia levar também essa felicidade para outras pessoas. Não precisava de toda essa indústria que crescia paralelamente... Porque o que acontece, normalmente, é que nós centralizamos o foco na indústria: ''Como posso moldar meu trabalho para que seja aceito pela indústria e, assim, ela possa fazê-lo chegar ao público?''. Mas aí esquecemos que há uma conexão direta. E essa é que é fundamental. Então, o melhor de tocar nas ruas foi que percebi claramente essa conexão direta com as pessoas, sem intermediários... Não vou dizer que foi fácil. Não foi mesmo! Mas foi uma época maravilhosa na minha vida, porque me mostrou que posso tocar para qualquer tipo de pessoa. Comecei a notar também que as pessoas não estavam somente impressionadas com o que eu podia fazer com a guitarra, mas elas pareciam genuinamente comovidas. Minha música levava para elas alguma coisa especial. Então, comecei a ver a música como algo além desse nível, como algo que pode trazer coisas positivas ao mundo. Portanto, isso que eu faço agora, de ir para hospitais ou realizar oficinas, tudo começou na época em que tocava nas ruas.

OP -Então, você acredita que essa experiência colocou seus pés definitivamente no chão? Ou seja, você não se comporta como uma grande estrela, embora seja uma.
SJ -É. Talvez tenha acontecido isso. Porque eu tive que começar, literalmente, do chão (risos). Mas, ao mesmo tempo, isso me deu a certeza de que o que faço é realmente especial. E é algo que preciso proteger. Preciso tomar conta de mim para continuar passando isso à frente.

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