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DESARMAMENTO

Violência é autônoma, universal e democrática

Estar armado e reagir a uma abordagem também armada representa oito vezes mais chance de morrer. Ter arma de fogo em casa é um risco quatro vezes maior de suicídio, homicídio ou ferimento. Munido de dados sobre a violência, o deputado Raul Jungmann dispara contra o armamento

Raimundo Madeira
da Redação

22 Ago 2005 - 00h51min

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(Foto: Marcos Campos)
A experiência individual de um amigo muito querido, que tinha uma arma de fogo em casa e foi usada pelo filho de 15 anos para tirar a própria vida. A manifestação coletiva diante do medo, que encarcera famílias dentro dos próprios lares. As duas situações são citadas pelo deputado federal Raul Jungmann, 53, para explicar que o envolvimento dele a favor do desarmamento tem também motivações pessoais, não apenas políticas.

Integrante da Frente Parlamentar Brasil sem Armas, ele tem se revelado um defensor aguerrido do fim do comércio de armas de fogo e munição, questão que levará às urnas cerca de 121 milhões de eleitores brasileiros no dia 23 de outubro para o primeiro referendo do mundo sobre desarmamento. E como num campo de batalha, o deputado pernambucano, administrador e consultor de empresas, parte para o confronto com os adeptos da venda de armas.

''O outro lado diz que está tirando o direito de defesa do cidadão. Direito de defesa? Isso é um absurdo. Quem tem uma arma e reage a um assalto, a uma abordagem armada, tem oito vezes mais chance de morrer do que quem não reage''. E vai além. ''As estatísticas apontam que quem tem arma de fogo em casa tem quatro vezes mais chance de conviver com suicídio, homicídio ou ferimento à bala. Portanto, arma de fogo, além de ser ilegal, mata''.

Ex-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e ex-ministro extraordinário de Política Fundiária e do Desenvolvimento Agrário, cargos ocupados no governo FHC (1995-2002), Jungmann reconhece o mérito do governo Lula na campanha contra o desarmamento, embora esteja na oposição - elegeu-se pelo PMDB e agora está no PPS.

Hoje menos sintonizado com a situação agrária e mais empenhado com a questão da segurança, considera que a violência, além das raízes sociais, tem autonomia própria. ''Não se esqueça de que os Estados Unidos são um dos países mais ricos, e tem dois milhões de prisioneiros e a legislação mais dura do mundo. Se é uma sociedade riquíssima, por que tem a maior população carcerária do planeta?'.

A violência é também o mais universal e democrático dos problemas brasileiros, atingindo os diversos níveis sociais. ''A fome pode atingir uma parcela da população, a outra não. Mas a violência atinge do senhor (empresário) Antonio Ermírio de Morais, que vive numa casa-fortaleza, até a sua família, os seus filhos, que vivem com esquema de segurança e carro blindado, como também alcança com muita mais violência quem vive na periferia''.


O POVO - O senhor tem sido um defensor contumaz do desarmamento. O movimento contra o desarmamento também tem tido reações de alguns setores. Como o senhor avalia as interferências da indústria de armas no Congresso em relação a essa questão?
Raul Jungmann - A aprovação do Estatuto do Desarmamento (em 2003) foi dramática, e um dia será contada. A indústria bélica manifestou-se e expressou-se direta e indiretamente durante todo o processo, através de parlamentares ligados à indústria de armamentos. Eu quero crer que o poder econômico não vai prevalecer durante o referendo, porque a campanha de marketing não vai ser de grandes produções, de pirotecnias, como costumam ser as campanhas eleitorais mais recentes no Brasil. Vai ser uma campanha de cidadania, muito mais próxima daquilo que foi a Anistia (em fins da década de 1970), daquilo que foi as ''Diretas Já'', até porque nas ''Diretas Já'' nós recuperamos a nossa cidadania e liberdade política. Na campanha do referendo pelo desarmamento, nós vamos recuperar o controle perdido sobre a violência.

OP - Os critérios utilizados para a campanha dos dois setores - a favor e contra o desarmamento - são ideais ou razoáveis?
Jungmann - Eu não diria que são os critérios ideais, até porque tudo está sendo feito de forma muito atropelada. Ninguém acreditava, nem alguns dentre nós, que fosse possível ter o referendo este ano. Então, está se tendo de fazer tudo de forma muito corrida e muito apressada. Só para dar um exemplo, as últimas regras foram aprovadas no dia 4 de agosto, e eram as duas regras essenciais: a propaganda e publicidade - tempo no rádio e na televisão - e a questão das doações, do financiamento da campanha. Há quem considere que, ao dar metade do tempo àqueles que são a favor do armamento, você pode estar estimulando até a formação, a cristalização de uma opinião pública pró-armamento, mas eu não temo isso. Nós temos 80% a mais da opinião pública ao nosso lado, e eu não conheço até agora um brasileiro de projeção na música, na cultura, nas artes, nos esportes, na intelectualidade, na academia ou nas religiões que estejam do outro lado.

OP - Em relação aos atropelos aos encaminhamentos feitos até agora, a indústria de armas se valeu dos escândalos políticos que estão aí ou ela mesma promoveu tais atropelos?
Jungmann - Sem sombra de dúvidas, ela foi extremamente favorecida pela desorganização do Congresso Nacional resultante dessas crises em série, dessa cascata em si. De repente, ficou absolutamente difícil votar e até fazer maioria. Em segundo lugar, ela utilizou o seu poder econômico para montar sites, distribuir propaganda, para fazer contra-informação em larga escala. Em terceiro lugar, foi capaz de operar dentro do Congresso Nacional uma atuante e aguerrida bancada a favor do armamento. Tudo isso tornou muito difícil a aprovação, que foi afinal conseguida.

OP - Em comparação com outros lobbies que atuam no Congresso, como o senhor avalia a atuação do lobby da indústria bélica?
Jungmann - Como um lobby rico, articulado e, sobretudo, como um lobby que tem um poder de pressão visível e invisível muito grande. Porque não é só indústria de armamentos, é também um comércio de armas e munição. Há também setores ligados à defesa nacional - é bom lembrar que a questão das armas no Brasil esteve durante muito tempo ligada à defesa e segurança nacional. E, por fim, você tem toda uma categoria de esportistas, de armeiros, além de um certo sentimento, sobretudo na parte de um pedaço da elite, de que ela tem a prerrogativa de se defender por si própria. E, portanto, ela tem de ter esse poder residual da arma. Tudo isso articulado gerou um interesse poderosíssimo e que quase consegue nos derrotar no Congresso Nacional.

OP - Ao reagir ao descumprimento da promessa para a votação do requerimento de urgência relativo ao projeto para o referendo do desarmamento, o senhor responsabilizou o governo. Qual a culpa do governo?
Jungmann - O governo, naquele instante, estava dificultando a aprovação, porque interessava, naquele momento, aprovar uma CPI chapa branca. Uma outra questão que estava lá dentro a respeito do mensalão. Então, fez praticamente de tudo para evitar, obstruir, dificultar a aprovação. Mas, em seguida, o governo foi vencido, e colaborou, e os líderes do governo tiveram um papel importante também.

OP - E em relação à própria iniciativa do governo de ter apresentado o projeto do Estatuto do Desarmamento?
Jungmann - O projeto representa, na verdade, o início do controle sobre 17 milhões de armas estimadas que o Brasil tem hoje, das quais aproximadamente oito milhões são irregulares, sendo três milhões e oitocentas que se encontrariam nas mãos de criminosos e o restante com o registro fraudulento ou sem registro. Isso levou o Brasil a uma autêntica epidemia de violência por armas de fogo. O Brasil é recordista mundial de homicídios por arma de fogo, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), vice-campeão mundial, segundo a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), e aqui, para você ter uma idéia, um em cada três jovens, na faixa dos 15 aos 24 anos, está morrendo de homicídio por armas de fogo.

OP - Como parlamentar que tem se empenhado na defesa dessa questão, o senhor tem dados comparativos entre o impacto das mortes por armas de fogo e por outros tipos de arma?
Jungmann - As armas de fogo são responsáveis por 63% de todos os homicídios ocorridos no País. Ou seja, você tem uma pequena participação - cerca de 18% - de armas brancas, e o restante são as mais diversas causas - asfixia, morte por pau... As armas de fogo respondem por aproximadamente dois terços. Ou seja, quase sete em cada dez mortes, no Brasil, são por armas de fogo.

OP - Qual a fonte desse percentual?
Jungmann - A fonte desse percentual encontra-se exatamente no Ministério da Saúde, no chamado SIM - Sistema de Informação de Mortalidade. Isso faz com que, só por ferimento à bala, o Brasil esteja gastando hoje R$ 180 milhões por ano. Os homicídios por armas de fogo se transformaram em uma epidemia, e a exemplo da dengue, em que todo mundo tem de fazer o seu papel - não deixar a água acumular, na lata, no pneu -, todo mundo também tem de entrar em campo, se não a gente não debela essa violência.

OP - Mas além disso, o senhor não acha que outras medidas deveriam ser tomadas? Discute-se muito, por exemplo, que a indústria televisiva, cinematográfica interfere na formação da personalidade de crianças e adolescentes, expostos a muitas cenas de violência, veiculadas em horários impróprios.
Jungmann - Além dessa questão promovida pelos meios de radiodifusão, você tem o problema de tráfico de armas e das armas clandestinas. Hoje está em funcionamento no Congresso Nacional uma CPI do Tráfico de Armas. E o que é que você verifica? Que as armas que são contrabandeadas para o Brasil são, sobretudo, armas brasileiras. Elas são produzidas aqui, exportadas, reexportadas para Paraguai, Uruguai... e entram na nossa fronteira. Eu estive na semana passada com o ministro Márcio Thomaz Bastos, e levei a ele a proposta de realizar uma ampla campanha de combate ao comércio clandestino e ao tráfico e contrabando de armas. Porque, se o referendo visa a proibir o comércio de armas e munição, a tarefa de coibir o armamento dos criminosos e daqueles que querem traficar é atribuição da Polícia Federal em articulação com as polícias estaduais. E deve acontecer já, é urgente que isso venha a acontecer, porque o número de armas clandestinas ainda é muito grande. Ao mesmo tempo, é fundamental que você desenvolva medidas de controle sobre a própria indústria e comércio nacionais de armas. Já seria um grande passo para reduzir essa imensa quantidade de armas irregulares ou nas mãos de criminosos que se tem no Brasil.

OP - E de que forma isso poderia ser feito?
Jungmann - Isso pode ser feito desde mudanças na legislação, agravando determinados crimes, passando por protocolos no âmbito do Mercosul. E esses países, sobretudo os que estão ligados ao comércio clandestino, estão no âmbito do Mercosul. Então poderiam ser feitos protocolos que levassem a um procedimento comum. Quem sabe talvez até votando nos parlamentos, do Paraguai, do Uruguai, por exemplo, legislação semelhante à do Brasil. E, por fim, atuar em conjunto com as polícias dos estados da fronteira de forma integrada. Lembrando que agora o porte de arma é crime inafiançável - quando a arma é de uso civil, varia de dois a quatro anos. Quando é de uso restrito, pode ir de quatro a seis anos. Portanto, é bom não brincar com o porte de arma. Tampouco com a posse de arma, que estão totalmente centralizados nas mãos da Polícia Federal no Brasil hoje.

OP - O desarmamento enfrenta o problema do comércio clandestino, o tráfico internacional. Porque ultrapassa as fronteiras locais. O que se poderia fazer então, além da questão nacional?
Jungmann - A primeira coisa que se precisa fazer é cuidar da produção nacional, que é reimportada. A parcela de armas que é efetivamente contrabandeada de outros países não é tão grande. A segunda questão que tem de se fazer é, talvez, nas polícias, dar incentivo, prêmio, por armas apreendidas. A outra coisa é efetivamente não relaxar a prisão de quem for preso com arma. Porte de arma é hoje crime inafiançável. Um terceiro aspecto é talvez mudar a legislação. E isso evidentemente em conjunto com o Itamaraty, para que se criem leis tanto quanto possível comuns e nivelando as leis no âmbito das nossas fronteiras secas. Obviamente, é preciso redobrar os esforços e a fiscalização nas demais fronteiras a cargo tanto da Receita Federal quanto da Marinha brasileira para apreender esse tipo de carga. Mas é sobretudo nas fronteiras secas que se dá a grande entrada de armas clandestinas e contrabandeadas.

OP - O senhor citou a possibilidade de premiação entre policiais por armas apreendidas. O senhor acha então que foi interessante o governo ter criado as indenizações para a população entregar as armas?
Jungmann - Sem sombra de dúvida. A campanha pelo desarmamento e a anistia para quem tem arma é um enorme sucesso. Primeiro, porque se esperava recolher 80 mil armas. Nós estamos chegando a meio milhão de armas recolhidas. Segundo, hoje já existe uma clara correlação entre a entrega de armas e a redução de crimes. No Estado de São Paulo, verificou-se uma redução de aproximadamente 8% nos homicídios com arma de fogo e 17% nos latrocínios. Portanto, é uma queda muito expressiva. O outro lado diz que está sendo retirado o direito de defesa do cidadão. Direito de defesa? Isso é um absurdo. Quem tem uma arma e reage a um assalto, a uma abordagem armada, tem oito vezes mais chance de morrer do que quem não reage. Se a pessoa pensa que tem defesa perante um bando ou homem armado com elemento surpresa a seu favor, imaginando que está vendo um filme desse de mocinho e bandido, ela está profundamente enganada. As estatísticas apontam isso, como também apontam que quem tem arma de fogo em casa tem quatro vezes mais chance de conviver com suicídio, homicídio ou ferimento à bala. Portanto, arma de fogo, além de ser ilegal, mata.

OP - Essas duas estimativas são também do governo?
Jungmann - A primeira é do Instituto Superior de Estudos Religiosos (Iser) e a segunda é uma pesquisa produzida pela instituição Viva Rio, do Rio de Janeiro. Há outras estatísticas e elas são absolutamente claras. Quem reage à bala a um assalto à mão armada não está garantindo a sua integridade ou a sua própria vida e a de seus familiares. Pelo contrário, está colocando tudo isto em risco. Porque quem tem de fazer a defesa de um cidadão de bem é uma Polícia competente, preparada, treinada e com um sistema de inteligência acoplado e uma capacidade de pronta-resposta. Imaginar que você individualmente resolve isso é um enorme equívoco, que pode ser fatal.

OP - O governo está também atuando nessa área? Ou melhor, os governos. Para não responsabilizar só a União.
Jungmann - Muito ainda tem de se fazer. Porém acho que essa grande campanha cívica e educativa, com aproximadamente 30 dias de rádio e televisão, vai possibilitar a primeira grande discussão nacional sobre a economia da violência, a dinâmica da violência. E nesses instantes em que o Brasil estabeleceu uma ampla mobilização deu grandes saltos. Foi assim quando o Brasil recuperou a sua cidadania política, através das ''Diretas''. Foi assim quando nós fizemos a Anistia e tivemos a reconciliação nacional. Foi assim, mais adiante, quando nós derrubamos, por exemplo, a inflação. Agora, a violência é o mais universal dos problemas que o Brasil tem hoje. Portanto, o mais democrático. A fome pode atingir uma parcela da população, a outra não. Mas a violência atinge do senhor Antonio Ermírio de Morais, que vive numa casa-fortaleza, até a sua família, os seus filhos, que vivem com esquema de segurança e carro blindado, como também alcança com muita mais violência quem vive na periferia de Fortaleza, por exemplo. Hoje, a gente vive a cultura do medo. ''Eu não vou a tal lugar porque é tarde, eu não vou a tal lugar porque é perigoso''. Se a gente pára no sinal, uma criança, que é o símbolo de fragilidade e de futuro, nos mete medo. A gente vive trancado atrás dos nossos vidros, e a gente sai dali com o sentimento de alívio porque não foi atacado. Mas também um sentimento de vergonha e impotência muito grande. Ora, quando a sociedade chega a esse nível, deixa de ser sociedade, deixa de ter o próprio sentido de comum, de pertencer a alguma coisa que é comum. Porque o outro mete medo, o outro é um risco, uma ameaça. O outro não é mais uma fonte de oportunidade, de amizade e até de amor. Nesse instante, na sociedade, na cultura do medo, mais vale se armar, porque o outro é um risco.

OP - Como o senhor avalia o grau de conscientização da população? Desde a aprovação do Estatuto do Desarmamento, em dezembro de 2003, até agora, o nível de esclarecimento do cidadão evoluiu?
Jungmann - Poderia ter evoluído mais. Até porque o Brasil tem 28 mortes por 100 mil habitantes por armas de fogo.

OP O que falta então?
Jungmann - Um conjunto de medidas. Na esfera policial e na esfera prisional. Hoje há 322 mil presos no Brasil, destes 100 mil poderiam estar cumprindo pena alternativa porque não cometeram crimes violentos, porque não ameaçaram, não feriram ninguém. Então, um terço da população prisional brasileira está dentro da escola do crime, que são as nossas penitenciárias. Ao mesmo tempo, há uma necessidade de uma revisão e uma consolidação da própria legislação. A reforma do Judiciário para que ele seja ágil, eficaz, para que não premie a impunidade. Hoje, de cada dez homicídios que existem no Brasil só um é julgado e punido. É um prêmio à impunidade. Evidente que há muito o que fazer. Mas esse debate vai acontecer porque você não debate, como nessa entrevista, a questão da arma de fogo, sem discutir Polícia, Justiça, Legislação e Sistema Prisional. É por isso que eu acredito que você vai aumentar o nível de consciência e mobilização, e passos vão ter de ser dados.

OP - E a questão social também.
Jungmann - Saúde, educação, emprego são o ponto-base, onde se encontra ancorado tudo isso. Mas a gente não deve esquecer que a questão da violência tem a sua autonomia. Não se esqueça de que os Estados Unidos são um dos países mais ricos, e tem dois milhões de prisioneiros e a legislação mais dura do mundo. Nos Estados Unidos, se uma pessoa rouba três pizzas e é condenado pelo roubo dessas três pizzas, em muitos estados é condenado à prisão perpétua. Se é uma sociedade riquíssima, por que tem a maior população carcerária do planeta? A violência tem o seu nível de autonomia. E aliás, quero aqui lembrar uma coisa que acontece no Recife e deve acontecer aqui. A Região Metropolitana de Recife tem aproximadamente 50 mil jovens sem emprego, educação, oportunidade. É onde se encontra a população mais vulnerável. Nós fizemos uma pesquisa qualitativa no fim de semana e se observou que a população jovem, das classes C e D, e sobretudo o homem é aquele que mais simpatiza com argumento do outro lado, com argumento do armamento, porque esse jovem não tem perspectiva, não tem oportunidade. Esse jovem é invisível. Ninguém o vê. E pegar uma arma é ter poder e ser visto. É praticamente dar um grito. ''Eu existo, olhem pra mim''. Daí que ele entra no mundo do crime, se perde e termina preso ou morto. Hoje nas favelas do Rio de Janeiro, na faixa de 15 até os 24 anos, as alternativas são entrar no crime, ser preso e morrer. É o que está posto lá. Então, a gente precisa perceber que deve haver políticas focadas, sobretudo para esses jovens das classes C e D, que estão aqui na periferia da Grande Fortaleza, como de Recife e outras cidades.

OP - Que levantamento é este?
Jungmann - Fizemos uma pesquisa qualitativa feita pela MCI, do Antonio Lavareda, que está trabalhando de graça pra nós, e que apresentou o resultado exatamente na quinta-feira passada (4 de agosto), para a direção da Frente Brasil Sem Armas.

OP - Foi realizada quando?
Jungmann - Em São Paulo, sábado e domingo passados (30 e 31 de julho). Mostrou claramente que o segmento que mais simpatiza com o outro lado é a população jovem, das classes C e D. Isto faz sentido, porque é exatamente a população que está hoje vivendo uma situação de genocídio. Mata e morre como mosca. Jovens sem oportunidade, sem escola, sem emprego e sem perspectiva. A arma lhe dá poder, lhe torna visível, vai exatamente suprir tudo aquilo que a sociedade nega, infelizmente.

OP - Os setores contra o desarmamento apontam pelo menos sete países, entre eles Turquia, Alemanha, China, Guatemala, onde a experiência não teria dado certo, onde a população teria ficado mais exposta à violência. Que países o senhor citaria como exemplo de experiência positiva?
Jungmann - Pegando o exemplo da Alemanha, que diz que Hitler desarmou o povo alemão. Fazer uma comparação da Alemanha de Adolf Hitler, do grau de violência, com as SS (forças militares), com as mortes contra os judeus, relativo ao Brasil, é uma brincadeira, uma piada. E o que é que podia fazer os coitados dos judeus armados contra as SS, a Gestapo? Na verdade, são distorções (dos setores contra o desarmamento). Agora, não existe no mundo um exemplo de um referendo para você chegar aonde você está. Eu conheço legislações que são muito duras, como é o caso da Inglaterra e da Austrália, mas não existe uma experiência similar como a que o Brasil está fazendo. O Brasil tem uma legislação muito moderna e agora dá um passo que ninguém deu. Referendo para proibir comércio de arma e munição não existe paralelo no mundo. Agora, você não tenha dúvida de que existe uma correlação positiva entre controle das armas, redução das armas, controle do comércio, proibição e redução da criminalidade e das mortes. O restante é um ponto de vista enviesado, e eu desconheço que isso tenha acontecido em sete países do mundo.

OP - Mas o senhor citaria algum exemplo de país onde o desarmamento tem resultados claramente satisfatórios?
Jungmann - Primeiro, volto a dizer: não há uma experiência de desarmamento como a brasileira. Então, eu não tenho como fazer um comparativo. Mas eu posso lhe dizer uma coisa: nos Estados Unidos, por exemplo, a maioria das mortes são por suicídio com arma de fogo. Só no Brasil, as armas de fogo são 63%, nos Estados Unidos, mortes por arma de fogo estão na faixa de 25% a 28%. A grande maioria, em torno de quase 55%, são suicídios com armas de fogo. No restante do mundo, afora os países onde há guerra civil, como na Colômbia, quando você faz a divisão dos homicídios por arma de fogo, nada é igual ao Brasil. Somos recordistas. Nós tivemos 38 mil e 88 mortes, segundo o Ministério da Saúde, em 2002, que é a última estatística que eu conheço. Nós tivemos, de 1980 a 2000, 340 mil mortes por arma de fogo, é mais do que todos os americanos que morreram na Guerra do Vietnã. Nós tivemos, em 1980, sete mortos por arma de fogo por 100 mil. Em 2000, isso chegou a 21. Triplicou. Todos são dados do Ministério da Saúde. Então, isso ganha características de epidemia. Ou você controla isso ou não é possível resolver essa questão.

OP - O senhor não foi ministro da Justiça do governo FHC, mas foi ministro do Desenvolvimento Agrário, entre outros cargos. Não pode responder por aquele governo, mas tendo participado dele faria um mea-culpa? Por que só no governo Lula essa discussão deslanchou e essas iniciativas foram tomadas?
Jungmann - A rigor, a primeira legislação eminentemente civil, que cria o Sinarm (Sistema Nacional de Armas), que é o grande banco de dados, que determina que só a Polícia Federal possa dar posse, acontece em 1997, no governo Fernando Henrique. Evidente que o Estatuto do Desarmamento é um grande salto, e a proposta do referendo é o ápice de todo esse esforço, mas é em 1997 que se começa um princípio de disciplinamento.

OP - Há alguma questão pessoal que o levou a defender de forma tão contumaz o desarmamento?
Jungmann - Vou citar duas. Primeiro, um grande amigo meu, muito querido, tinha um filho homem, me permita dizer, um menino muito inteligente. Até hoje não sabemos porque esse menino se trancou num banheiro, aos 15 anos, botou uma arma de fogo na cabeça, disparou e destruiu a vida de uma família. Isso também é uma forma de violência que a gente não computa. A segunda coisa que me marcou muito foi quando fui candidato a prefeito, e só aí eu não tinha um histórico de me ligar à questão da segurança e da violência. Quando fiz a campanha à prefeitura em 2004, eu via as pessoas atrás das grades, as pessoas falavam com você atrás das grades, nas casas, nas periferias, estavam presas, ou seja, o medo encarcerou todas elas. Quando uma sociedade começa a temer o outro, quando dentro da própria sociedade o medo se impõe e o outro passa a ser uma ameaça, eu diria que a gente está a um passo da negação do próprio sentido de sociedade. Além do que a pergunta que eu faço aos armamentistas é a seguinte: se nós tivéssemos mais armas, estaríamos seguros? Se nós criássemos o Pró-Bala para a classe média subsidiando a compra de armas, ela estaria mais segura? E se a gente, num gesto democrático, além do Pró-Bala para a classe média, a gente criasse o Bolsa-Bala para o povão, no dia em que estivéssemos mais armados, com revólveres, metralhadoras, bazuca, granada, essa sociedade seria mais livre, mais confiante, estaria, portanto, mais segura? Não. O caminho da civilização, o caminho, sobretudo do respeito ao outro, à vida, é exatamente de uma sociedade que tem menos arma e não resolve através das armas os seus conflitos. Resolve através da justiça, através da mediação. É assim em todo o mundo desenvolvido.

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