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David Lynch

Lynch, o admirável

O cineasta americano David Lynch conquista mais uma vez o reconhecimento de sua genialidade. Nas listas de dois prestigiosos sinalizadores do cinema de autor, seu filme Cidade dos Sonhos (2001) foi apontado como a melhor produção cinematográfica dos anos 2000


30 Jan 2010 - 19h05min

David Lynch revela às mais ambivalentes plateias o poder 
e divagações atentas sobre a vida e universos paralelos 
às mentes
Aos 64 anos, completos no último dia 20, o cineasta David Lynch coleciona polêmicas e substratos tocantes, ou até incômodos, em dezenas de curtas e longas-metragens, além de séries na TV, em diversas mídias, obras nas artes plásticas, na literatura e pela carreira tão produtiva quanto prolixa. As incompreensões em torno de suas criações são motivações para revê-lo como um dos mais ressonantes artistas do momento, cujos feitos merecem ainda iluminações para absorvê-lo nas diversas expressões inventivas. Autor que une experimentos e conceituações, Lynch singulariza-se na persona de artista múltiplo, ganhando exclamações em torno de um de seus filmes mais surreais e acachapantes, tendo a partir dele abertura para novas fendas que ilustram as minúcias em torno de suas expressivas e até bizarras verberações em vários campos.

Um dos feitos recentes do festejado Lynch é figurar no topo de duas significativas listas, nas quais críticos, curadores e cineastas elegeram os melhores filmes dos anos 2000. Tanto na edição de janeiro da revista francesa Cahiers du Cinema, chamada de Bíblia do cinema de autor, como na Film Comment, a mais venerada revista norte-americana sobre cinema - ligada ao Lincoln Center-, o filme Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive, 2001), de Lynch, foi eleito o melhor. Em ambas, dezenas de produções cinematográficas formam um panorama revelador do projetado nas telas nessa temporada, mas dão ainda a Lynch novos vetores para avaliações acerca desse inquieto artista e de suas inquietantes obras.

Bizarrices e controvérsias em torno de Lynch se aliam as distinções, mistérios, poéticas e envolvimentos que ultrapassam uma linguagem linear para dar conta dos tantos recados que pretende dispor através de filmes, imagens e outras elucubrações da imaginação. Cidade dos Sonhos, com Naomi Watts e Laura Harring, é um exemplar dessas dissonâncias congregadas por Lynch ao projetar em personagens à beira do absurdo - ou nada comuns-, e a partir de linhas com começo, meios e fins embaralhados para sinalizarem seduções e atratividades, um diretor e criador que pretende despertar espectadores ao seu pensamento. Basta verificar suas investidas na Internet e o trabalho da David Lynch Foundation, como também nas parcerias em videoclipes, como o de Moby, ou junto a compositores das trilhas sonoras, sobretudo, Angelo Badalamenti.

David Lynch traz origem finlandesa no sangue e revelias à criação religiosa no seio presbiteriano, como também se tinge, desde jovem, como um amante de pinturas. Fã do expressionismo e do surrealismo, assim como admirador do estilo de Fellini, Buñuel e Bergman, David iniciou a carreira em curtas experimentais nos anos 60, que revelavam os pendores estéticos. Até que em 1977 rodou o seu primeiro longa, Eraserhead, que já exalava exageros obscuros e perturbadores. Conquistou reconhecimento como um dos precursores do cinema de arte americano, classificado até de “culturalmente, historicamente e esteticamente significativo” pela Biblioteca do Congresso Americano.

Entre fracassos, prêmios e distinguíveis revelações, Lynch construiu maturidade autoral sem deixar nunca de arriscar-se. Ao abordar a vida de John Merrick em O Homem Elefante, ele coloriu o preto e branco das sequências com fantasiosos arranjos, que não só distinguiram a atuação de John Hurt no papel-título, entre outros desempenhos, como mais méritos ao filme, que se tornou um dos grandes êxitos dos anos 80, tendo inclusive entre as oito indicações ao Oscar, a de melhor diretor. Vieram então outros clássicos de sua lavra. Casos de filmes como Veludo Azul (86), Coração Selvagem (90), passando pela telessérie Twin Peaks, que também virou longa, e ainda A Estrada Perdida (97) até o mais recente Império dos Sonhos (2006).

Celebrado por Cidade dos Sonhos, que valeu a Lynch o prêmio de direção em Cannes, mas foi um fracasso de bilheteria, o patchwork narrativo do diretor pode confundir pelo absurdo mas também deslumbra. Nesse sentido, ele é pleno nas pinceladas expressionistas e surreais, como as que o diretor agora estende também às artes plásticas, como as presentes na mostra David Lynch – Dark Splendor, que está em cartaz até 21 de março no Museu Max Ernst, em Brühl (Alemanha). Por outro lado, a filmografia dele vem ganhando retrospectivas.

Entre os vários projetos que faz ao mesmo tempo, o diretor deve filmar em 2010 uma espécie de documentário sobre Maharish Mahesh Yogi, guru indiano, morto em fevereiro de 2008, que ganhou fama mundial nos anos 60 ao inspirar os Beatles, tendo até canções em sua deferência, como Sexy sadie e Jealous guy. É fato que o genial cineasta sempre tem gamas para ilustrar suas histórias com irreverentes e notáveis composições.


GÊNIO Cultuado diretor de cinema, o norte-americano David Lynch tem sua genialidade confirmada. As duas importantes publicações apontaram seu Cidade dos Sonhos (Mulholand Drive, 2001) como mais expressivo filme da primeira década de 2000.

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31/01/2010
23:36

Na boa... Não dá pra dizer que esse é o melhor filme da década. Isso é piada! Era (de verdade) um conjunto de curtas que foi adaptado para um longa e a fama de cult casou com o resultado. O público cabeça achou que o cara era um gênio (socorro!). Adoro cinema de arte, mas não consigo engolir "Cidade dos Sonhos". Me perdoem.

Fernando Macedo

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