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Estereótipos em alta

Não basta ser, tem que parecer...

Artifícios para conquistar o eleitor são disparados em todo lugar. Mas é no Nordeste onde os estereótipos se revelam como instrumento mais comum na busca para demonstrar simpatia com o povo na época das eleições. Montar em jumento e botar chapéu de couro na cabeça podem parecer atos ``folclóricos``, mas também podem surtir efeito


06 Fev 2010 - 19h06min

A buchada, dizem estar sempre na mesa, e o jumento, um velho meio de transporte. Sem esquecer do chapeuzinho de couro. Familiar na Paraíba ou na Bahia, todo mundo tem. Mas forçar essa ``afinidade`` para ganhar a simpatia (ou pelo menos tentar) do precioso eleitor nordestino pode ser uma faca de dois gumes.

O publicitário e estrategista político Einhart Jacome da Paz avalia que alguns desses artifícios podem, sim, conquistar eleitores, desde que sejam utilizados de forma adequada. ``O formador de opinião acha que é uma sacanagem, mas funciona porque, para o público, parece uma homenagem``, disse ele, que tem duas campanhas presidenciais nas costas & a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1994, quando conquistou o primeiro mandato, e a do deputado federal Ciro Gomes (PSB), na busca pela Presidência em 2002.

Foi justamente o intelectual Fernando Henrique quem lançou mão do chapéu de couro e de tudo que lhe pudesse identificar com aquele eleitor. ``Quando o FHC apareceu, em 1994, em Alagoas, montando um cavalo, o pessoal já transformou o bicho em um jegue. Todo mundo disse que era estratégia, mas nem foi, e acabou sendo sensacional``, comemorou.

Einhart explicou que só soube detalhes do acontecido mais tarde, ao conversar com o então candidato. ``Ele disse que estava andando e passou um cara no cavalo e eles começaram a conversar. O cara disse que ele não sabia montar e ele disse que sabia e mostrou``, afirmou ele, dizendo que, depois disso, as pesquisas eleitorais foram totalmente favoráveis para FHC na região.

Já Ciro & nascido em São Paulo e criado no Ceará & ``fazia pior``, segundo Einhart - que também é seu cunhado -, em tom de brincadeira. ``No meio do povo, lá no Conjunto Ceará, ele pedia -a senhora tem um copo d-água? A gente via o copo com areia no fundo e ele botava para dentro``, recordou. O publicitário acrescentou que até ``pinga`` o pessoal oferecia a Ciro. ``-Toma aí que eu quero ver- e ele tomava``, diverte-se.

No entanto, Einhart alerta que ``se (o gesto) for (de) verdade, é bom``, mas, se não, é melhor não arriscar, mesmo que a recusa a uma refeição seja vista como uma ofensa na casa do sertanejo. ``Comer buchada de bode é para um cara que tem estômago. Se o candidato come aquilo mesmo, ele pode se arriscar. Mas, não tente ser o que você não é nos últimos meses de campanha, que aí pode ser fatal``, afirmou.

Nordestinidade
Ele não vê problema, por exemplo, de o governador de São Paulo, José Serra (PSDB) & que é também pré-candidato a presidente & mostrar toda sua admiração pelo cantor Luiz Gonzaga. Em novembro de 2009, Serra até esteve em Exu (PE), terra do ``rei do baião``, para uma homenagem ao artista, e arriscou uma ``cantoria``. ``O que poderia dar problema era dizer que gosta do Luiz Gonzaga e não saber o que ele toca e canta. No caso do Serra, em que há essa ojeriza do nordestino com ele, isso já é uma aproximação``, opinou.

No fim das contas, o publicitário admite que o que vale ``não é o que você é, mas o que parece ser``. ``Se parece que o Serra não gosta de nordestino, acaba sendo isso mesmo. Assim como eu acho difícil a eleição da Dilma porque ela não é conhecida e o eleitor ainda não se identificou com ela``. (Giselle Dutra)

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