Viagem & Lazer
Chuí
Do Ceará ao extremo sul
Os sotaques se misturam no Chuí, município localizado no extremo Sul brasileiro. De um lado da avenida é Brasil. Do outro, Uruguai. Como atração turística, a própria história do lugar, as belezas naturais e um comércio convidativo
Dalviane Pires
economia@opovo.com.br
01 Fev 2010 - 02h23min
As lancherias de beira de estrada são paradas obrigatórias para matar a fome. As diferenças culturais começam a ser sentidas na gastronomia, já que os proprietários desses estabelecimentos são, na maioria, descendentes de colonizadores italianos, alemães, entre outros. Pedir um sanduíche de queijo, por exemplo, é ser servido com o pão de forma frio com queijo dentro. Daí, melhor perguntar detalhes de qualquer prato para evitar surpresas.
Quem viaja com mais tempo pode parar em cidades como Pelotas para provar seus doces reconhecidos como sendo um dos melhores da região. Ou quem sabe desviar um pouco o caminho para conhecer a cidade universitária Rio Grande e sua praia do Cassino, que deixa a desejar se comparada às belezas das praias cearenses, mas que ferve de gente bonita no verão e fica praticamente deserta no inverno.
Taim
Voltando à estrada rumo ao Chuí, já na BR 471, o viajante passa pela Reserva do Taim, a mais importante do Rio Grande do Sul, com um ecossistema pantanoso. Com sorte, especialmente no fim de tarde, as capivaras se mostram. Por questão de segurança, não é permitido parar para fotografar. Na estrada da reserva a velocidade permitida é menor (60 km), mas mesmo assim é comum ver capivaras mortas no acostamento.
A reserva é habitada também por muitas espécies de peixes e animais silvestres, como jacarés, lontras e ratões-do-banhado. Aves aquáticas de muitas espécies vivem no Banhado do Taim e outras fazem da reserva destino certo rotas migratórias.
Brasil ou Uruguai?
A chegada ao Chuí se anuncia pela sinalização na estrada. Placas ganham o idioma espanhol, muitas indicando a direção de Montevidéu, capital do Uruguai. Pouco depois da alfândega da Receita Federal, a cidadezinha é avistada e a primeira parada é a Avenida Internacional, que separa o Chuí brasileiro do Chuy uruguaio. O acesso é livre ao lado uruguaio. O idioma que prevalece é o espanhol, mas todo mundo acaba se entendendo.
A Avenida Internacional é o paraíso das compras. Os free shops aceitam peso uruguaio, real e dólar, sendo que os preços dos produtos são etiquetados em dólar. A conversão da moeda é feita nos próprios caixas, com a cotação indicada pela loja. Apesar de haver casas de câmbio no entorno da avenida, nem sempre compensa trocar o real por pesos ou dólar. Para comprar é importante ter em mãos a identidade.
Produtos como perfumes e bebidas são comercializados a um preço inferior aos praticados no Brasil, por conta da cobrança menor de impostos. Lembrando que cada pessoa só pode retornar ao Brasil tendo comprado, no máximo, 300 dólares. O não cumprimento da cota pode resultar em multa e até retenção da mercadoria.
COMO CHEGAR
- A saída de Porto Alegre é bem sinalizada. Pegue a BR 290 e em seguida a BR 116 até Pelotas. Daí siga pela BR 392 até a bifurcação que dá acesso a Rio Grande. Siga pela BR 471 até o Chuí. A viagem é longa (521 km), mas as estradas estão em perfeito estado e a paisagem impressiona. Separe uns trocados. São cinco pedágios de Porto Alegre até o Chuí, com preços que variam de R$ 6 a R$ 7.
DICAS
- A dica para aproveitar bem a viagem é fazer Fortaleza/Porto Alegre de avião e alugar um carro para o percurso Porto Alegre/Chuí. Assim dá para conhecer, mesmo que de passagem, outras cidades do Rio Grande do Sul e ainda garantir espaço no carro para as comprinhas feitas no Chuí.
O QUE FAZER AO CRUZAR A FRONTEIRA
NA IDA
- Por medida de segurança, declare os bens de fabricação estrangeira como máquinas fotográficas e computadores, utilizando o formulário Declaração de Saída Temporária (DST) na alfândega da Receita Federal antes de chegar ao Chuí. Isso assegura o retorno desses objetos ao Brasil sem pagamento de impostos, comprovando que não foram comprados nessa viagem.
- Declare valores que estiver portando, em dinheiro ou cheques de viagem, quando superior a R$ 10 mil ou equivalente em outra moeda, utilizando a Declaração de Porte de Valor.
- Se necessário, apresente a autorização do Banco Central para aquisição dos valores em estabelecimento autorizado a operar com câmbio.
- Se a viagem for com dinheiro curto e sem objetos importados na ida, a parada na alfândega é dispensável.
NA VOLTA
- Há situações em que a fiscalização é intensa na alfândega brasileira. Os carros chegam a ser parados e revistados. O viajante é deve a apresentar a Declaração de Bagagem Acompanhada (DBA).
- A declaração é individual e o formulário será fornecido pelo transportador ou agência de viagem ou obtido nas Alfândegas da Receita Federal.
- É aplicada uma multa de 50% sobre o valor excedente à cota de isenção dos bens, quando o viajante apresentar DBA falsa ou inexata. É importante guardar todas as notas fiscais dos produtos comprados no Chuí
justamente para a checagem da cota que é de 300 dólares por pessoa.
- Quem ultrapassar a fronteira rumo a Montevidéu passa por outra alfândega, dessa vez de domínio uruguaio.
EMAIS
- A história do Chuí se mistura com a colonização portuguesa e espanhola. Contam que alguns meses antes do desembarque do brigadeiro José da Silva Paes na barra do Rio Grande, em 1737, Cristóvão Pereira havia montado um posto avançado português no Morro de São Miguel, próximo ao arroio Chuí.
- Em 1763, tropas espanholas partiram de Buenos Aires, na Argentina, e derrotaram os portugueses, estendendo seus domínios até a barra do Rio Grande.
- Em 1777, os portugueses conseguiram retomar seus antigos territórios e firmaram com os espanhóis o Tratado de Santo Ildefonso, segundo o qual ficavam constituídos os Campos Neutrais, uma faixa desabitada de terra que se estendia do Taim até o Chuí, de forma a evitar um confronto direto entre os colonizadores portugueses e espanhóis.
- Após a Independência do Brasil, com a guerra da Cisplatina que resultaram na independência do Uruguai, a situação das fronteiras entre o Brasil e Uruguai permaneceu confusa. A solução definitiva veio com o tratado de limites entre os dois países em 12 de outubro de 1851. Pelo tratado o Uruguai aceitou a incorporação dos Campos Neutrais Chuí-Taim ao território brasileiro.
- O Chuí foi emancipado só em 1997 do município de Santa Vitória do Palmar.
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