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Vida & Arte

ARTES PLÁSTICAS

Polêmicas de abril

Críticas, protestos e retirada de obras. A edição deste ano do Salão de Abril nem bem completou uma semana em cartaz e já criou um mundo de polêmicas. A premiação dos vencedores acontece no próximo dia 8 de maio

Felipe Araújo
da Redação

05 Mai 2003 - 00h38min

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Salão fechado no feriado: cartazes pelo chão
Sem virar o disco. Nos primeiros dias do 54º Salão de Abril, a polêmica continua dando as cartas. Mas agora, ao contrário do chororô de praxe por parte de quem ficou de fora, as críticas e protestos contra a curadoria vêm de alguns dos artistas selecionados, que ora abrem fogo contra a falta de estrutura do salão, ora fazem mira na indefinição conceitual da exposição.

Na última quarta-feira, logo na noite de abertura da mostra, por exemplo, quatro artistas decidiram retirar suas obras do salão, alegando descaso por parte da curadoria. ''Isso é uma falta de atenção com os artistas, é um desrespeito com quem quer levar a arte a sério'', reclama Mariana Smith, que retirou do local sua instalação de arte eletrônica porque não havia conseguido um projetor de slides prometido pelo curador.

''Eu expliquei que sou uma estudante universitária e que não tinha como bancar o aluguel de um equipamento como esse. O curador me prometeu que iria conseguir, me disse que eu podia ficar tranqüila. Ainda assim, eu cobrava diariamente o projetor. Acontece que, na noite de abertura, pouco antes do evento começar, ele disse que não tinha conseguido nada, que era para eu me virar'', explica.

Na mesma noite, Mariana fez um protesto durante a abertura do salão, com direito à nariz de palhaço e interrupção no pronunciamento das autoridades presentes. Em seguida, a artista retirou do Centro de Referência do Professor a parte de seu trabalho que já estava concluída e pixou na parede que iria abrigar sua obra uma denúncia contra o que considera ''negligência e desorganização'' da curadoria. ''Os artistas merecem respeito!, escreveu.

Junto com Mariana, os artistas plásticos Ticiano Monteiro, Thais Monteiro e Rodrigo Costa Lima também optaram por não participar da mostra, mesmo depois de selecionados pela comissão julgadora. ''Quando eles (a comissão organizadora) me chamaram para ir montar meu trabalho, não havia nenhuma condição para isso. Até o dinheiro que eles haviam prometido como ajuda de custo não tinha previsão de quando ser pago'', conta Rodrigo, outro selecionado na categoria Manifestação Artística Contemporânea.

''Quando quis saber quem fazia parte da comissão julgadora, eles disseram que não podiam informar, que só poderiam dizer no dia da abertura. Como o salão não tem uma continuidade, é sempre pontual, nem tem um conceito definido, a comissão julgadora passa a ser um ponto de referência importante. Mas nem isso eles quiseram dizer. E quando vi que foram 67 trabalhos inscritos, ao contrário do ano passado, quando somente 16 artistas foram selecionados, vi que a coisa continua sem seriedade. Aí, simplesmente desisti'', dá de ombros.

Na sexta-feira pela manhã, alguns trabalhos expostos ainda estavam sem crédito. Era o caso de uma fotografia de Ricardo Damito, que, na falta da identificação por parte da curadoria, improvisou o seu crédito escrevendo com uma caneta o próprio nome na parede. ''Eu e mais quatro ou cinco fotógrafos não tivemos esse 'privilégio' do crédito'', brinca. ''Alguns trabalhos ficaram fora da área climatizada e foram expostos à água da chuva. Mas isso são coisas de um salão que devia deixar de ser político para ser efetivamente um salão de arte''.

Selecionado na categoria desenho, Ticiano Monteiro também retirou seus trabalhos em protesto à ''desorganização'' do salão. ''A iluminação não era adequada e as instalações elétricas eram precárias. Eu não quis expor meus equipamentos eletrônicos a esse risco e, por isso, o trabalho não teve como ser executado da maneira mais adequada'', explica Ticiano, que também dividia os créditos de uma vídeo-instalação com Thais Monteiro.

''Como retirei a vídeo-instalação, não vi sentido em permanecer com os desenhos. Retirar esses trabalhos foi uma forma de protestar, de tentar levantar uma discussão política e estética, de fazer com que as pessoas percebessem que o salão não é levado à sério, que a curadoria é negligente. A comunidade tem que saber desses problemas'', reclama, seguido de perto por Mariana.

''O mínimo que o salão tinha que fazer era dar estrutura para os artistas. Muitos trabalhos estão diminuídos porque não há condições adequadas de exposição. O Salão de Abril não pode servir somente de vitrine para pessoas ligadas à Funcet, para essas pessoas comemorarem algo que não tem qualidade'', dispara Mariana Smith.


SERVIÇO:

54º Salão de Abril - Até o dia 8 de junho. Das 8h às 18h, na Galeria Antônio Bandeira, Centro de Referência do Professor (antigo Mercado Central). Entrada franca.

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