Vida & Arte
ENTREVISTA
"Eu nasci para escrever"
Na última entrevista de Jorge Amado publicada no caderno Sábado do O POVO, uma homenagem aos seus 85 anos de idade, completados em agosto de 1997
07 Ago 2001 - 02h56min
Sábado - Como vai o senhor?
Jorge Amado - Eu não tô bem. Não sei se aí em Fortaleza a gripe está se alastrando, mas aqui tá demais. Eu tô com uma gripe pesada. Já estou há quatro dias doente. Hoje é que eu estou melhor.
Sábado - Como eu devo chamar o senhor?
Jorge - Pode me chamar de Jorge. É o meu nome (risos).
Sábado - Pois, Jorge, faz tempo que eu não vejo uma grande entrevista sua. Foi somente o problema do coração que o afastou da imprensa no último ano ou o senhor também não tem andado muito chegado a grandes entrevistas?
Jorge - Tenho dado algumas entrevistas, mas também não sou muito de dar grandes entrevistas. Mas quero só que você faça sua pequena entrevista e nós ficamos de acordo. Diga, Rodrigo.
Sábado - Eu falei no seu coração porque vi numa matéria dizendo que o seu cardiologista tinha conseguido cortar o tempero baiano de sua comida.
Jorge - É. Ele cortou tudo. Me deixou na miserável condição de esfomeado (risos). Mas fale bem dele que ele é um grande cardiologista.
Sábado - Não é chato fazer 85 anos? Eu liguei agora há pouco e o senhor estava tirando fotos. Agora já tá conversando comigo. À tarde tem mais...
Jorge - É... É porque vocês são assim. Sabe como é. Uma briga de foice para conquistar o público. Para ter leitores. Mas aí depois a coisa começa a pesar. Eu não sou uma pessoa nem chata nem difícil nem nada. Ao contrário. Mas eu acho que me resta pouco tempo, né? De modo que o tempo pra mim passa a ser uma coisa muito preciosa. E me toma muito tempo com isso. Você veja. É o telefone o dia todo. Daqui, de fora daqui... Quinta-feira veio uma mulher do México pra me entrevistar. Um cara do Chile também. Mas acho que é isso. É uma obrigação minha também. A minha profissão me obriga a isso.
Sábado - Como estão as comemorações deste aniversário? Há alguma publicação em vista?
Jorge - Não tem nenhuma comemoração. Tem aqui os meus amigos querendo fazer isso ou aquilo. Agora, vai ser inaugurado um teatro, o Teatro Jorge Amado, aqui em Salvador, na véspera do meu aniversário, no dia 9. (Desconversando) Mas eu sou um velho leitor d'O Povo. É um jornal antigo, não é? E a imprensa aí do Ceará é muito boa. Muito bem feita, muito inteligente, muito viva. Teve grandes nomes. Eu fui amigo de alguns homens que tiveram um papel destacado daí.
Sábado - O senhor se recorda de alguns desses nomes?
Jorge - Eu me recordo, por exemplo, de Fran Martins. O irmão dele foi o homem que fundou essas universidades todas, o Antônio Martins Filho. Esse homem deve estar pertinho dos 100 anos. Eu fui muito amigo de um jornalista extraordinário daí que morreu. Era um cronista extraordinário, o Milton Dias. Foi um amigo queridíssimo. A Zélia tá dizendo que chegou uma reedição de um livro dele. Tem muita gente. O Ceará é um estado muito rico. Com uma grande inteligência literária, jornalística. Com uma vivência grande e uma presença muito grande na vida cultural do país. Sempre que tem uma possibilidade eu vou a Fortaleza. (Fala com Zélia) Nós tivemos há pouco tempo lá em Fortaleza, não foi Zélia?
Sábado - Voltando um pouco no tempo, numa autodefinição de 1958, o senhor se considerava "apenas um baiano romântico e sensual". E hoje, qual a definição que o senhor poderia dar a si mesmo?
Jorge - Exatamente essa. Agora, um baiano romântico, sensual e velho. Aí há uma coisa que pode sobrar jovialidade e faltar tesão. Porque tesão aos 85 anos é difícil, né? Mas é isso. Um baiano romântico, sensual e velho. (...) É isso, meu filho, eu já falei pra burro pra você..
Sábado - Só mais um pouquinho.
Jorge - Eu tô muito cansado, com essa gripe também. Eu já falei muito contigo. Mas gosto muito do seu jornal, da sua terra, e você transmite um abraço a todos os meus amigos aí.
Sábado - Mais uma pergunta. O senhor teve atuação política, foi militante do partidão, alguns intelectuais durante um período achavam que o senhor poderia ter sido um grande líder, mas acabou se colocando num certo isolamento pra escrever. O senhor se arrepende?
Jorge - Eu não podia ser um grande líder nunca.
Sábado - Por quê?
Jorge - Porque é difícil para um escritor ser um líder político. Pode ser um pequeno líder político, compreende? Você pode citar no Brasil alguns que tiveram uma atitude política e que tiveram uma certa liderança. Mas não tiveram grande liderança, não. Eu nasci pra escrever, meu filho.
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