Vida & Arte
LITERATURA
Uma onomatopéia e um P.S.
Editada desde 1999, a revista Rattapallax, que começa a ser distribuída no Brasil pela Editora 34, reúne alguns bons nomes da poesia brasileira contemporânea. A publicação traz um CD encartado com a leitura de alguns dos poemas feita pelos próprios autores
Manoel Ricardo de Lima
Articulista do Vida & Arte
10 Jun 2003 - 02h13min
Bom, este número da revista traz uma espécie de coletânea, mostra, antologia, o que seja, organizada por Edwin Torres e Flávia Rocha, uma solapa de coisas, recortes, de alguma poesia feita no Brasil e de alguma feita nos Estados Unidos. (E é bom que se diga, neste mal estar gerenciado por um desafeição organizada, os americanos inventores do blues e da coca-cola praticam uma poesia bastante interessante e que alça problemas inclusive e principalmente para eles mesmos. Só para não ficar na zona do ataque e não tomar senso que o buraco é humano e que a palidez do mundo está mesmo é dentro da gente, enfim).
E não há mais muito a dizer das antologias, das seletas antologias que se escabelam por aí, cansadas, quase todas. Mas no caso de uma revista, a coisa toma outro senso. Porque não é um livro para, não é um corte de coisas que sempre descambam pra um troço de geração que é mesmo uma monotonia, e que não diz nada de ninguém pelo fato de ter nascido na mesma década de outro, por exemplo, ou porque apareceram com seus primeiros livros no mesmo ano ou década. É botar farinha no mesmo saco: dar a mesma força porque os autores nasceram em série na mesma década. Mas ainda penso que poesia não é nem se dá a ver como reprodutibilidade técnica, nem como fofoca. Mas talvez como silêncio, e olhar.
O fato é que Rattapallax junta alhos e bugalhos, ou todo mundo, ou pelo menos um monte de gente. Tanto que os organizadores não dizem dela, da seleção, direito. Até porque penso não há muito que dizer, ou como se dizer. Toma-se à mão quem está à mão. Mas os autores são tão distantes meio que de propósito mesmo, tomo por pensar isso, pra que faça algum sentido. E aí, não sentido de entendimento ou ordem, mas sentido de estabelecer cartografia, alguma que seja, para deixar posto o que já está posto em revistas, livros, suplementos etc. E aí, nisso, somos mestres, no chafurdo de querer estar, seja lá onde, seja como for, só para estar.
Mais há coisas preciosas neste número de Rattapallax, a meu ver, pelo menos; ou que simplesmente me interessam porque gosto destas coisas, são peças que tomo por incorporar como muito bonitas e pronto, ponto. Bom dizer antes que a revista vem com um CD encartado. Nele, leitura de alguns dos poemas feita por seus próprios autores. A leitura de alguns poemas os refaz. O poema ''Pai'' de Fabio Weintraub, por exemplo, é de uma delicadeza com a vida que nos retira prumo quando ouvimos o mesmo Fabio dizer ''dizendo que morre antes disso / que não vai dar trabalho / que some de casa / vai pro asilo''. Ou os versos fortes de ''Deserto (fragmento 21), de Tarso de Melo: ''e o céu do sábado / à tarde / imperfeito adere ao asfalto''. Entre, poemas que estão de Ricardo Aleixo, Joca Reiners Terron, Jussara Salazar, Cláudia Roquette-Pinto, Paulo Ferraz, Ruy Proença etc, em traduções de Chris Daniels, Michael Palmer, Matias Mariani, Guy Bennett etc.
Em diante, é bom notar a revista. Outras cartografias, creio, estarão sendo postas à vista dentro dela. E de uma forma ou de outra, montamos a nossa própria cartografia, e é isso que interessa, vendo o que de ruim e bom há nela, porque com isso também se aprende, como do canavial o mar, como do mar o canavial.
Um p.s. para dizer uma pequena notícia: acaba de sair em Fortaleza o primeiro número de uma pequena revista de poesia: Gazua. Editada por alguns bons meninos, penso, porque está claro que a revista é deles, feita por eles, com as coisas deles e tomara que com o dinheiro deles. Os poemas estão lá ainda meio sem tráfego, sem saber direito, mas isso ajunta percurso, e isso se percebe, quase claro, algo está sendo feito e começa a estar mostrado com algum resto de dignidade. Não há orelha de ninguém, nomeação de ninguém, indicativo disso ou daquilo feito por ninguém que não eles mesmos. É bom ver as peças nelas mesmas, por elas mesmas e se com algum indicativo para a mostra, indicadas apenas por eles que editam, fazem, escrevem, lêem uns para os outros. E entre, pra esticar um pouquinho o p.s., dois pequenos bons acentos, o que vale como escrito e que pode ser aberto com a gazua: o sereno poema de Viviane Mosé, ''Prosinha'', e o inadequado, muito inadequado, mas bom poema de Eduardo Jorge, ''Tarja para Postigos'', fragmento final dele: ''as unhas podiam / pedras // e / formigas doces / preparam projetos / de formigueiros / aéreos:
Manoel Ricardo de Lima escreveu Embrulho (7Letras, RJ) e Falas Inacabadas, em diálogo com objetos de Elida Tessler (Tomo, RS)
SERVIÇO:
Rattapallax - Revista de poesia. Editora 34, R$ 23,00. (11) 3816.6777. editora34@uol.com.br. www.rattapallax.com
Gazua - exercício de poesia - Publicação independente e semestral de poesia cearense. 281.5500. r-gazua@yahoo.com.br
MANOEL RICARDO DE LIMA ESCREVE MENSALMENTE NESTE ESPAÇO
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