Vida & Arte
MEMÓRIA
Morre Noite Ilustrada
O sambista mineiro Mário de Souza Marques Filho, o Noite Ilustrada, faleceu ontem aos 75 anos
Felipe Araújo
da Redação
29 Jul 2003 - 02h28min
O mundo do samba perdeu uma de suas grandes vozes. Faleceu ontem pela manhã, aos 75 anos, o cantor e compositor Mário de Souza Marques Filho, o Noite Ilustrada, um dos mais elegantes e carismáticos intérpretes da música brasileira da segunda metade do século XX. Há 20 dias, o músico estava internado no Hospital de Atibaia, no interior de SÆo Paulo, fazendo um tratamento contra o câncer. O velório foi realizado ontem à tarde na Câmara Municipal da cidade.
Nascido em Pirapetinga, interior de Minas Gerais, em 10 de abril de 1928, Noite mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro, onde, na adolescência, começou a tomar contato com sambistas do Morro da Mangueira. O envolvimento com o samba continuou com os bambas de Oswaldo Cruz, subúrbio carioca onde fica localizada o G.R.E.S. Portela. Como integrante da escola, assumiu definitivamente a carreira como cantor e participou da célebre excursão da agremiação por São Paulo, em 1955.
O apelido surgiu nessa época, uma cortesia do humorista Zé Trindade. ''Por causa de uma revista que eu trazia no bolso e que se chamava Noite Ilustrada, ele começou a brincar com esse negócio'', ele contou numa entrevista ao Vida & Arte em março passado. ''Eu não gostei daquilo. O diabo é que quando você não gosta é que fica. Eu pedi para ele parar com esse negócio mas ele não parou e falou para outros amigos. Aí todo mundo só me chamava de Noite Ilustrada e não parou mais''.
Na capital paulista, Mário ficou trabalhando em boates, até a gravação de seu primeiro disco, lançado em 1958 pelo selo Mocambo. Apesar da repercussão discreta, o LP já apresentava aquele que seria um de seus maiores sucessos, ''Cara de Boboca'' (Jaime Silva e Edmundo Andrade). Outros, espalhados em mais de 20 discos lançados nos anos seguintes, seriam ''Balada número 7 - Mané Garrincha'' (Alberto Luís), ''O neguinho e a senhorita'' (Noel Rosa de Oliveira e Abelardo da Silva) e, principalmente, ''Volta por cima'', clássico maior de Paulo Vanzolinni que Noite eternizou no início dos anos 60.
''Reconhece a queda/ e não desanima./ Levanta, sacode a poeira/ e dá a volta por cima'', ele cantava, resumindo, talvez inconscientemente, sua própria trajetória artística. Com o surgimento da bossa nova e do canto apequenado de João Gilberto, Noite e outros vozeirões de sua geração quase foram enterrados na vala comum da ''velha bossa''. Mais tarde, depois da popularização do moderno pagode, que deu uma nova roupagem ao samba, os espaços nas grandes gravadoras foram diminuindo para intérpretes de sua estirpe.
Depois de uma década de ostracismo em Recife, com shows esporádicos e gravações bissextas e malcuidadas, Noite voltou a gravar bons discos no final dos anos 90. Primeiro Eu sou o samba (1998), pela Camerati; depois o ótimo Perfil de um sambista (2001), pela gravadora Trama. Com esse último CD, o intérprete fez uma elogiada revisão de sua carreira e teve seu nome colocado novamente em evidência pela imprensa. Era mais uma daquelas voltas por cima que Vanzolinni preconizara.
Sobre o segredo para a longevidade artística, Noite afirmava: ''Olha, é amor à profissão, deve ser. Amor ao samba. Tem que amar para cantar. Eu gosto muito das coisas que tenho feito e espero poder fazer um pouco mais''. Infelizmente, o destino não lhe permitiu realizar um de seus últimos projetos, lançar um disco em homenagem ao mestre Ataulfo Alves, que nomeou o cantor mineiro como seu sucessor musical. Quem sabe alguma gravadora não vasculha seu baú de gravações e nos faz esse favor.
Enquanto isso não acontece, fica a saudade. Valeu, Noite!
Nascido em Pirapetinga, interior de Minas Gerais, em 10 de abril de 1928, Noite mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro, onde, na adolescência, começou a tomar contato com sambistas do Morro da Mangueira. O envolvimento com o samba continuou com os bambas de Oswaldo Cruz, subúrbio carioca onde fica localizada o G.R.E.S. Portela. Como integrante da escola, assumiu definitivamente a carreira como cantor e participou da célebre excursão da agremiação por São Paulo, em 1955.
O apelido surgiu nessa época, uma cortesia do humorista Zé Trindade. ''Por causa de uma revista que eu trazia no bolso e que se chamava Noite Ilustrada, ele começou a brincar com esse negócio'', ele contou numa entrevista ao Vida & Arte em março passado. ''Eu não gostei daquilo. O diabo é que quando você não gosta é que fica. Eu pedi para ele parar com esse negócio mas ele não parou e falou para outros amigos. Aí todo mundo só me chamava de Noite Ilustrada e não parou mais''.
Na capital paulista, Mário ficou trabalhando em boates, até a gravação de seu primeiro disco, lançado em 1958 pelo selo Mocambo. Apesar da repercussão discreta, o LP já apresentava aquele que seria um de seus maiores sucessos, ''Cara de Boboca'' (Jaime Silva e Edmundo Andrade). Outros, espalhados em mais de 20 discos lançados nos anos seguintes, seriam ''Balada número 7 - Mané Garrincha'' (Alberto Luís), ''O neguinho e a senhorita'' (Noel Rosa de Oliveira e Abelardo da Silva) e, principalmente, ''Volta por cima'', clássico maior de Paulo Vanzolinni que Noite eternizou no início dos anos 60.
''Reconhece a queda/ e não desanima./ Levanta, sacode a poeira/ e dá a volta por cima'', ele cantava, resumindo, talvez inconscientemente, sua própria trajetória artística. Com o surgimento da bossa nova e do canto apequenado de João Gilberto, Noite e outros vozeirões de sua geração quase foram enterrados na vala comum da ''velha bossa''. Mais tarde, depois da popularização do moderno pagode, que deu uma nova roupagem ao samba, os espaços nas grandes gravadoras foram diminuindo para intérpretes de sua estirpe.
Depois de uma década de ostracismo em Recife, com shows esporádicos e gravações bissextas e malcuidadas, Noite voltou a gravar bons discos no final dos anos 90. Primeiro Eu sou o samba (1998), pela Camerati; depois o ótimo Perfil de um sambista (2001), pela gravadora Trama. Com esse último CD, o intérprete fez uma elogiada revisão de sua carreira e teve seu nome colocado novamente em evidência pela imprensa. Era mais uma daquelas voltas por cima que Vanzolinni preconizara.
Sobre o segredo para a longevidade artística, Noite afirmava: ''Olha, é amor à profissão, deve ser. Amor ao samba. Tem que amar para cantar. Eu gosto muito das coisas que tenho feito e espero poder fazer um pouco mais''. Infelizmente, o destino não lhe permitiu realizar um de seus últimos projetos, lançar um disco em homenagem ao mestre Ataulfo Alves, que nomeou o cantor mineiro como seu sucessor musical. Quem sabe alguma gravadora não vasculha seu baú de gravações e nos faz esse favor.
Enquanto isso não acontece, fica a saudade. Valeu, Noite!
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