Vida & Arte
MARIA BETHÂNIA
Trilhas independentes
Os dois primeiros lançamentos mostram a que veio o novo selo Quitanda: Vozes da Purificação, de Edith do Prato e Brasileirinho, que já chega como um clássico na discografia de Bethânia
06 Out 2003 - 23h19min
A criação do selo Quitanda e o lançamento de seus primeiros discos, Vozes da Purificação e Brasileirinho, coloca Maria Bethânia no centro de três discussões extremamente relevantes para a música brasileira. A primeira delas é o significado político que um selo independente como esse passa a ter no panorama do nosso mercado fonográfico.
No mundo do rock e da música eletrônica, esse é um espaço já consolidado; e mesmo entre os artistas de música popular os selos independentes não chegam a constituir uma novidade. O dado novo é o fato de alguns dos chamados medalhões da MPB, que outrora ocupavam uma posição de destaque no catálogo das grandes gravadoras, estarem trilhando esse caminho.
Francis Hime, Miúcha, Paulinho da Viola e a própria Bethânia são apenas alguns dos protagonistas mais evidentes dessa inversão de status que se consolidou no mercado. E que ainda tende a levar muitos dos nossos grandes cantores e compositores para a trincheira de casas independentes como a Biscoito Fino e, agora, o Quitanda.
O segundo debate dá conta do valor histórico da realização de um disco como Vozes da Purificação. Nas palavras de Hermínio Bello de Carvalho, Dona Edith do Prato é o cartão postal sonoro do Recôncavo, matriz geográfica e espiritual de uma das vertentes mais fortes no processo de constituição do samba tal qual o conhecemos hoje: o samba de roda baiano, marcado pelas palmas, pelos ponteios de viola e pelas cantorias coletivas.
Apresentada para o País há trinta anos com uma participação no LP Araçá Azul, de Caetano Veloso, Dona Edith só gravou seu primeiro disco no ano passado. Mas como o material foi lançado numa tiragem comercial restrita, somente agora o CD vem à tona para o grande público pelas mãos de Bethânia. ''Pena que esse meu primeiro disco veio tão tarde, poderia ter sido mais cedo'', ela brinca.
Em Vozes da Purificação, Dona Edith, de 87 anos, esbanja energia e vigor vocal ao interpretar 13 sambas típicos da tradição do Recôncavo. Sempre armada com seu indefectível instrumento: um prato e uma faca que fazem as vezes de um reco-reco ancestral e irresistivelmente suingado. O nome do disco é uma referência ao grupo de cantoras septuagenárias de Santo Amaro que lhe acompanha na maioria das faixas.
Caetano Veloso, Roque Ferreira, Erlon Portugal e Nené Barreira, além da própria Bethânia, se revezam nas participações especiais e na interpretação de pérolas do samba do Recôncavo como ''Marinheiro só'', ''Senimbú e Calolé'', ''Viola meu bem'' (a mesma canção com que Dona Edith participou de Araçá Azul), ''Santo Amaro ê ê'' e ''Minha senhora'' (que ganhou uma vinheta de ''How beautiful'', de autoria de Moreno Velloso, filho de Caetano).
Mas que não se confunda o disco com um documento só para pesquisadores. Se é inegável o valor histórico de um registro com uma das matriarcas do verdadeiro samba de roda baiano - tão descaracterizado em sua versão comercial, onde pululam letras e danças vulgares -, outro mérito de J. Velloso, diretor musical do CD, foi fazer de Vozes da Purificação um projeto vivo e pulsante, que fala ao presente através da força e das origens quase imemoriais de seu ritmo.
Por fim, com Brasileirinho, Bethânia resgata um aspecto estético que andava meio esquecido em nossa música popular, o da permanência de um disco. Tamanha a força do repertório, formado em sua maioria por cantos religiosos afro-brasileiros; e tamanha a beleza do registro, sem excessos orquestrais que comprometam a grandiosidade da voz de Bethânia, que o disco já nasce clássico, ocupando um lugar de destaque em sua discografia.
Talvez por não se tratar de um lançamento previsto dentro do contrato com uma grande gravadora - e que na maioria das vezes é feito a toque de caixa -, o CD evidencia todo um projeto poético, musical e religioso que a cantora baiana conseguiu levar a cabo. E que vai marcar definitivamente sua carreira. Como sua persona artística sempre transitou entre a atriz e a intérprete, sua arte dialoga costumeiramente com o teatro, com a história e com a poesia.
Nesse sentido, em Brasileirinho, Bethânia esboça uma pequena epopéia por cânticos e poemas que mostram a religião e a mitologia (indígena, africana e sertaneja) como elementos fundadores desse conceito cambiante chamado identidade nacional. ''Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:/ não sei. De fato, não sei/ como, porque e quando a minha pátria/ mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água/ que elaboram e liqüefazem a minha mágoa/ em longas lágrimas amargas'', ela sintetiza ao ler o poema Pátria Minha, de Vinícius de Moraes.
''Salve as folhas'', de Gerônimo e Ildásio Tavares, com participação especial do Uakti; ''Yayá Massemba'', de Roberto Mendes e Capinam; ''Padroeiro do Brasil'', de Ary Monteiro e Irany Oliveira, onde a virtuose do grupo Tira Poeira realça o arranjo de Jaime Alem; e ''Melodia Sentimental'', de Villa-Lobos e Dora vasconcelos, que encerra o disco, são alguns dos capítulos mais belos nessa viagem de Bethânia. Sem falar nas canções e pontos de domínio público que justificam o epônimo de Brasileirinho.
Poucos discos na história da chamada MPB mergulharam tão fundo no Brasil. E poucas artistas trouxeram à tona um País tão bonito. (Felipe Araújo)
No mundo do rock e da música eletrônica, esse é um espaço já consolidado; e mesmo entre os artistas de música popular os selos independentes não chegam a constituir uma novidade. O dado novo é o fato de alguns dos chamados medalhões da MPB, que outrora ocupavam uma posição de destaque no catálogo das grandes gravadoras, estarem trilhando esse caminho.
Francis Hime, Miúcha, Paulinho da Viola e a própria Bethânia são apenas alguns dos protagonistas mais evidentes dessa inversão de status que se consolidou no mercado. E que ainda tende a levar muitos dos nossos grandes cantores e compositores para a trincheira de casas independentes como a Biscoito Fino e, agora, o Quitanda.
O segundo debate dá conta do valor histórico da realização de um disco como Vozes da Purificação. Nas palavras de Hermínio Bello de Carvalho, Dona Edith do Prato é o cartão postal sonoro do Recôncavo, matriz geográfica e espiritual de uma das vertentes mais fortes no processo de constituição do samba tal qual o conhecemos hoje: o samba de roda baiano, marcado pelas palmas, pelos ponteios de viola e pelas cantorias coletivas.
Apresentada para o País há trinta anos com uma participação no LP Araçá Azul, de Caetano Veloso, Dona Edith só gravou seu primeiro disco no ano passado. Mas como o material foi lançado numa tiragem comercial restrita, somente agora o CD vem à tona para o grande público pelas mãos de Bethânia. ''Pena que esse meu primeiro disco veio tão tarde, poderia ter sido mais cedo'', ela brinca.
Em Vozes da Purificação, Dona Edith, de 87 anos, esbanja energia e vigor vocal ao interpretar 13 sambas típicos da tradição do Recôncavo. Sempre armada com seu indefectível instrumento: um prato e uma faca que fazem as vezes de um reco-reco ancestral e irresistivelmente suingado. O nome do disco é uma referência ao grupo de cantoras septuagenárias de Santo Amaro que lhe acompanha na maioria das faixas.
Caetano Veloso, Roque Ferreira, Erlon Portugal e Nené Barreira, além da própria Bethânia, se revezam nas participações especiais e na interpretação de pérolas do samba do Recôncavo como ''Marinheiro só'', ''Senimbú e Calolé'', ''Viola meu bem'' (a mesma canção com que Dona Edith participou de Araçá Azul), ''Santo Amaro ê ê'' e ''Minha senhora'' (que ganhou uma vinheta de ''How beautiful'', de autoria de Moreno Velloso, filho de Caetano).
Mas que não se confunda o disco com um documento só para pesquisadores. Se é inegável o valor histórico de um registro com uma das matriarcas do verdadeiro samba de roda baiano - tão descaracterizado em sua versão comercial, onde pululam letras e danças vulgares -, outro mérito de J. Velloso, diretor musical do CD, foi fazer de Vozes da Purificação um projeto vivo e pulsante, que fala ao presente através da força e das origens quase imemoriais de seu ritmo.
Por fim, com Brasileirinho, Bethânia resgata um aspecto estético que andava meio esquecido em nossa música popular, o da permanência de um disco. Tamanha a força do repertório, formado em sua maioria por cantos religiosos afro-brasileiros; e tamanha a beleza do registro, sem excessos orquestrais que comprometam a grandiosidade da voz de Bethânia, que o disco já nasce clássico, ocupando um lugar de destaque em sua discografia.
Talvez por não se tratar de um lançamento previsto dentro do contrato com uma grande gravadora - e que na maioria das vezes é feito a toque de caixa -, o CD evidencia todo um projeto poético, musical e religioso que a cantora baiana conseguiu levar a cabo. E que vai marcar definitivamente sua carreira. Como sua persona artística sempre transitou entre a atriz e a intérprete, sua arte dialoga costumeiramente com o teatro, com a história e com a poesia.
Nesse sentido, em Brasileirinho, Bethânia esboça uma pequena epopéia por cânticos e poemas que mostram a religião e a mitologia (indígena, africana e sertaneja) como elementos fundadores desse conceito cambiante chamado identidade nacional. ''Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:/ não sei. De fato, não sei/ como, porque e quando a minha pátria/ mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água/ que elaboram e liqüefazem a minha mágoa/ em longas lágrimas amargas'', ela sintetiza ao ler o poema Pátria Minha, de Vinícius de Moraes.
''Salve as folhas'', de Gerônimo e Ildásio Tavares, com participação especial do Uakti; ''Yayá Massemba'', de Roberto Mendes e Capinam; ''Padroeiro do Brasil'', de Ary Monteiro e Irany Oliveira, onde a virtuose do grupo Tira Poeira realça o arranjo de Jaime Alem; e ''Melodia Sentimental'', de Villa-Lobos e Dora vasconcelos, que encerra o disco, são alguns dos capítulos mais belos nessa viagem de Bethânia. Sem falar nas canções e pontos de domínio público que justificam o epônimo de Brasileirinho.
Poucos discos na história da chamada MPB mergulharam tão fundo no Brasil. E poucas artistas trouxeram à tona um País tão bonito. (Felipe Araújo)
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