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Vida & Arte

LITERATURA

Fora da rede

Uma geração que tem a faca e o queijo nas mãos, onde a faca é a Internet e o queijo, a fascinante notoriedade no meio literário. No Brasil, já existe uma turma saindo dos blogs e zines eletrônicos para o mercado editorial. Corpo Presente, romance de João Paulo Cuenca, marca o próximo passo

Thaís Aragão
da Redação

28 Out 2003 - 04h32min

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Primeiro foi o pessoal gaúcho. A dupla de Daniéis, o Pellizzari e o Galera, publica com algum reconhecimento através de editora própria, a comentada Livros do Mal. Antes, eram nomes no Cardoso Online, que era enviado regularmente a uma lista de milhares de e-mails.

Quem lia o Brazileira Preta (brazileirapreta.blogspot.com) pôde ler, antes, trechos do que viriam a ser capítulos da estréia de Clarah Averbuck, outra ''ex do Cardoso''. Máquina de Pinball (2002) começa com sua viagem à Inglaterra para acompanhar shows da banda novaiorquina Strokes. Aqui, Averbuck já tem textos sendo adaptados para teatro e cinema, envolvendo nomes como Antonio Abujamra e Murilo Salles.

Ao que parece, o eixo da tendência vai se mudar para o Rio de Janeiro. A jornalista Cecília Giannetti, colaboradora dos sites cults (porém finados) No.com.br e Pl4y.com.br, matou e ressuscitou seu próprio weblog, onde agora avisa: ''Não me cobrem literaturas nos posts. Ou seja, o livro só vai sair no livro. O primeiro é uma coletânea, é um livro de contos da Editora Planeta, com lançamento acertado pra novembro ou dezembro. O romance eu tô escrevendo. Mais sobre isso depois.'


Vocalista da banda pós-bossa Casino, ela se apresentou semana passada no lançamento do livro do colega João Paulo Cuenca, que preenchia o blog Folhetim Bizarro com histórias sobre temas a que recorre novamente em seu primeiro romance.

Em Corpo Presente, ele enfileira capítulos salteados, todos ímpares, à exceção de ''Alberto'', ''Alberto e Carmen'' e ''Carmen''. Com o passar das páginas, o leitor se dá conta de que não pode acompanhar uma narrativa linear e que o problema em conhecer os personagens se dá pelo fato de que todos no livro - e são muitos - se chamam Alberto ou Carmen.

São crianças, jovens, senhores de idades. Gordinhas, loiras, negras de um baile funk carioca. Há muito sexo (será uma prerrogativa dessa estirpe?) e uma espécie de conclusão amoral sobre um estado de solidão quase pleno, se não fosse a ausência de julgamentos que revela uma estranha compaixão entre homens e mulheres que se encontram, já separados.

Aparentemente, o autor faz juízo de si e do que representa quando escreve: ''só vejo o vazio (...) entre óculos de aro grosso, orelhas amassadas sob cabelos pintados de loiro, em diários na rede, programas de auditório e sessões sofisticadas de cinema''. E do próprio trabalho: ''A gente faz crônica e conto, mas não tem conteúdo para escrever um romance''. Daí veio o truque da costura de histórias aleatórias? Daí veio a sentença de uma literatura natimorta, pelo guitarrista de uma banda de surf music chamada Netunos, que também usa um par dos óculos descritos? Ou é tudo ficção?

Corpo Presente - Romance de João Paulo Cuenca, 144 páginas, Editora Planeta, Preço médio: R$ 35,00.

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