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Vida & Arte

Coração de torcedor


10 Jan 2004 - 15h54min

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Lamartine Babo tinha de sete para oito anos de idade quando foi levado pelo amigo mais velho Augusto Albuquerque para assistir a uma partida entre Fluminense e América do Rio de Janeiro. Augusto, tricolor, ainda tentou tentar subornar o garoto a torcer pelo Fluminense com a promessa de lhe dar um anel de ouro. Mas a vitória do Mequinha (apelido carinhoso do América) e o vermelho da camisa do time conquistaram o coração do pequeno Lalá. Nascia ali uma de suas paixões, o futebol, que, décadas mais tarde, resultaria num dos capítulos mais populares da história do esporte no Rio.

Em 1942, Lamartine apresentava o programa Trem da Alegria, na rádio Mayrink Veiga, ao lado de Yara Sales e Héber Bôscoli. Esse último desafiou Lalá a compor um hino para cada um dos principais clubes cariocas. Desafio aceito, toda terça-feira, lá estava Lamartine com um novo hino. Cada clube recebeu uma melodia de acordo com sua tradição. Para Lalá, a origem aristocrática do Fluminense correspondia a um toque lírico na canção. Por sua vez, o clube da colônia portuguesa, o Vasco, mereceu um trecho com a música popular daquele país.

Com o Botafogo, Lalá arranjou uma grande confusão. Determinado trecho do hino desagradou à diretoria. Dizia: ''campeão de 1910''. Para os cartolas, o verso fazia supor que o clube só fora campeão naquele ano. Em sua defesa, Lamartine apresentou duas versões. Segundo a primeira, o ano foi citado pois aquele teria sido o campeonato mais expressivo do Botafogo. A segunda, mais conhecida, alega que a letra original seria ''desde 1910'' e que o cantor gravara de maneira errada. A diretoria ainda tentou proibir o hino, mas esse caiu no gosto dos torcedores alvinegros, que consagraram a versão de Lalá.

O hino do Flamengo composto por Lamartine também não é o oficial, porém, é o preferido pela torcida do time mais popular do País. Para alguns estudiosos, a exemplo do vascaíno Sérgio Cabral, é o mais bonito entre os clubes cariocas. Lamartine achava que o tema do Flamengo deveria lembrar um ''hino de guerra'', por se tratar de um clube de massa e os versos destacam a paixão rubro-negra: ''Vencer! Vencer! Vencer!/ Uma vez Flamengo/ Flamengo até morrer''. Mas a maioria atribui a honra de mais bonito ao hino do time de coração de Lamartine. A melodia é calcada sobre uma marcha americana de remadores e quando indagado sobre o famoso ''tra-la-lá'' da canção, Lamartine respondia: ''a paixão que eu sinto não cabe em compassos''. (PK)

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