Vida & Arte
LITERATURA / CRÍTICA
Cinco passos em terra de cegos
Manoel Ricardo de Lima
Articulista do Vida & Arte
01 Jun 2004 - 02h34min
''pois, desde que ceguei, mais estou vendo''.
Glauco Mattoso
1.
Atento a uma idéia da cegueira: desde o Demolidor, o meu herói favorito dos quadrinhos (que vê melhor o mundo que todos nós), depois nas emendas brancas da cegueira das personagens de Saramago e, muito e muito mais, pela sombra e a luz dum outro olhar de Evgen Bavcar. Evgen é esloveno, cego e um pensador da imagem que usa da câmera fotográfica para dizer das coisas de estar no mundo. Mora em Paris. Numa segunda-feira de maio do ano passado, em São Paulo, hora do almoço, tive a alegria de sentar à mesa com ele, junto com Elida Tessler (artista plástica de objetos em delicadeza e filigrana com movimento sibilino) e Bruno Zeni (um amigo que escreve bonito e refaz de fato, o olhar para estas nossas cidades-vinténs, com uma interdição de gesto).
Simples, com os olhos sempre piscando rápidos, Evgen fala cinco línguas: quer saber tudo à sua volta. Conversava em francês com a Elida e num italiano perfeito e sofisticado comigo e com o Bruno, enquanto nos esforçávamos lá num italiano parco, tosco, mas possível de falarmos com ele e de ouvi-lo, o que era muito melhor. Evgen não fala inglês. Assim, a partir e para além desse fato, me dei conta do quanto passei a achar que os cegos vêem demais.
2.
Outro que vê demais é Glauco Mattoso. Completamente cego desde meados da década de 90, foi perdendo a capacidade de ver por causa de um glaucoma, o mesmo que adotou como nome. O seu nome de fato é Pedro José Ferreira da Silva, paulistano nascido em 1951. O diabo é que não consigo achar que Glauco é cego porque ele enxerga longe demais. Aliás, não consigo mais achar que os cegos não vêem, mas sim que eles olham melhor, sempre melhor, e diferente. Glauco lançou seu primeiro livro de poemas em 1974/75. Assim, está completando 30 anos deste crime de lesa-vida, mas para a alegria, chamado poesia. E para dar conta destes anos todos de labor e diversão, Glauco está espalhando livros. Um vai sair pela mais que novíssima e corajosa editora Lamparina, do Rio de Janeiro, que está preparando outros bons títulos para depois; o outro, está à mão: Poesia Digesta, pela editora Landy, coleção Alguidar, que é coordenada pelo poeta Frederico Barbosa (que também está de livro novo, pela mesma coleção, junto com Antônio Risério, Brasibraseiro, assunto para outra conversa aqui, depois).
3.
Glauco é um nó dos mais interessantes na poesia brasileira. Ativo de uma outra forma nos anos 70, homossexual assumido desde sempre, Glauco fazia o generoso Jornal Dobrabil. Uma folha de papel ofício toda datilografada (ou desenhada) com a letra ''o'' de uma máquina de escrever que era enviada pelo correio sabe-se lá até onde, ''numa tiragem ridícula de 100 a 200 cópias'', como ele costuma dizer. Nela, sempre, aparecia uma de suas personagens - Pedro, o podre - que escarrava toda a sua insanidade fescenina a favor de suas precariedades como poeta, como ser vivente deste mundo estranho, inda mais naquele momento, quando não se podia dizer. Todas essas páginas que davam notícia da vida e de uma poesia que foi chamada de marginal foram reunidas numa bonita edição da editora Iluminuras, 2001, em tamanho e reprodução originais.
Paulo Leminski - que este ano faria 60 anos estivesse vivo, e que completa no dia 7 de junho 15 anos de morte - diz bacana de Glauco em uma de suas cartas para Régis Bonvicino, quando do lançamento de seu romance-invenção Catatau, 1975. Caetano Veloso, que descambou pra chatice faz tempo, em outro tempo, melhor, põe o nome de Glauco em uma das suas mais famosas canções, ''Língua''. É de Glauco também um livrinho gasto de lido, da itinerante coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense, O Que é Poesia Marginal.
4.
Este seu Poesia Digesta reúne o melhor do seu trajeto às avessas. Depois da cegueira, Glauco - que sempre gostou de experimentar os espaços da página - retomou o soneto. Mas aí, em se tratando dele, não se pode (nem se deve) em nenhum momento pensar o soneto como estrutura formal centrada no óbvio métrico, apenas. Esta estrutura de curral, fechada, apenas ajuda Glauco a ver melhor o seu poema. Toda a sua trajetória despudorada, em todos os sentidos bons disso, parece mais forte ainda dentro do encurralamento. E neste Poesia Digesta fez um recorte de todos os seus livros anteriores: assim, este é uma montagem, um panorama do seu melhor do melhor. Ele mesmo diz de sua poesia: ''Chamemo-la de fase iconoclasta, / à minha poesia antes de cego. / Pintei, bordei. Porém não a renego. / Forçou-me a invalidez a dar um basta. // A nova não é casta, nem contrasta / com velhas anarquias. Só me entrego / ao pé, onde em soneto a língua esfrego. / Chamemo-la de fase podorasta.// Mas nem por isso é menos transgressiva. / impõe-se um paradoxo na medida / da forma e da temática obsessiva: // Na universalidade presumida, / igualo-me a Bocage, Botto e Piva. / Ao cego, o feio é belo, e a dor é vida''. O que fez Cacaso dizer dele: ''Ele desconfia de tudo. Usa de tudo e não se prende a nada. Satiriza tanto a falta de seriedade quanto a falsa seriedade''.
5.
O que deixa a ver (e ver nesse momento passa a ter sentido maior) é a tristeza da repetição, não a de Glauco, obviamente (porque nele, como afirma sobre outra coisa o Edson Sousa, ''a repetição pede o novo. Repetir não é reencontrar a mesma coisa''), mas a das estruturas que se vão falindo e em momentos importantes como este, da reedição de um trabalho como o de Glauco, passem batidas por ele, por exemplo. Como sempre aqui em nossa cidade. E é provável se repitam, se repitam, e façam o mesmo de sempre: penso no caso das feirinhas de livros, das bienais enfadonhas do livro: as mesmas de sempre, com as mesmas coisas e pessoas de sempre, o mesmo discurso de sempre, com ''coisas que se come por costume''. Projetinhos lacunares que desconhecem ver este país virado pelo avesso e toda uma, ou alguma, que seja, parcela da produção mais interessante que este Brasil cansado de meu deus ainda consegue ter.
Manoel Ricardo de Lima é professor de literatura e semiótica. Autor de As Mãos (7Letras, RJ) entre outros, e doutorando em Teoria da Literatura, UFSC.
Serviço
Poesia Digesta 1974 / 2004 - de Glauco Mattoso. Editora Landy, coleção Alguidar. 232 págs. R$ 35,00.
MANOEL RICARDO DE LIMA ESCREVE MENSALMENTE
manoelrl@uol.com.br
Glauco Mattoso
1.
Atento a uma idéia da cegueira: desde o Demolidor, o meu herói favorito dos quadrinhos (que vê melhor o mundo que todos nós), depois nas emendas brancas da cegueira das personagens de Saramago e, muito e muito mais, pela sombra e a luz dum outro olhar de Evgen Bavcar. Evgen é esloveno, cego e um pensador da imagem que usa da câmera fotográfica para dizer das coisas de estar no mundo. Mora em Paris. Numa segunda-feira de maio do ano passado, em São Paulo, hora do almoço, tive a alegria de sentar à mesa com ele, junto com Elida Tessler (artista plástica de objetos em delicadeza e filigrana com movimento sibilino) e Bruno Zeni (um amigo que escreve bonito e refaz de fato, o olhar para estas nossas cidades-vinténs, com uma interdição de gesto).
Simples, com os olhos sempre piscando rápidos, Evgen fala cinco línguas: quer saber tudo à sua volta. Conversava em francês com a Elida e num italiano perfeito e sofisticado comigo e com o Bruno, enquanto nos esforçávamos lá num italiano parco, tosco, mas possível de falarmos com ele e de ouvi-lo, o que era muito melhor. Evgen não fala inglês. Assim, a partir e para além desse fato, me dei conta do quanto passei a achar que os cegos vêem demais.
2.
Outro que vê demais é Glauco Mattoso. Completamente cego desde meados da década de 90, foi perdendo a capacidade de ver por causa de um glaucoma, o mesmo que adotou como nome. O seu nome de fato é Pedro José Ferreira da Silva, paulistano nascido em 1951. O diabo é que não consigo achar que Glauco é cego porque ele enxerga longe demais. Aliás, não consigo mais achar que os cegos não vêem, mas sim que eles olham melhor, sempre melhor, e diferente. Glauco lançou seu primeiro livro de poemas em 1974/75. Assim, está completando 30 anos deste crime de lesa-vida, mas para a alegria, chamado poesia. E para dar conta destes anos todos de labor e diversão, Glauco está espalhando livros. Um vai sair pela mais que novíssima e corajosa editora Lamparina, do Rio de Janeiro, que está preparando outros bons títulos para depois; o outro, está à mão: Poesia Digesta, pela editora Landy, coleção Alguidar, que é coordenada pelo poeta Frederico Barbosa (que também está de livro novo, pela mesma coleção, junto com Antônio Risério, Brasibraseiro, assunto para outra conversa aqui, depois).
3.
Glauco é um nó dos mais interessantes na poesia brasileira. Ativo de uma outra forma nos anos 70, homossexual assumido desde sempre, Glauco fazia o generoso Jornal Dobrabil. Uma folha de papel ofício toda datilografada (ou desenhada) com a letra ''o'' de uma máquina de escrever que era enviada pelo correio sabe-se lá até onde, ''numa tiragem ridícula de 100 a 200 cópias'', como ele costuma dizer. Nela, sempre, aparecia uma de suas personagens - Pedro, o podre - que escarrava toda a sua insanidade fescenina a favor de suas precariedades como poeta, como ser vivente deste mundo estranho, inda mais naquele momento, quando não se podia dizer. Todas essas páginas que davam notícia da vida e de uma poesia que foi chamada de marginal foram reunidas numa bonita edição da editora Iluminuras, 2001, em tamanho e reprodução originais.
Paulo Leminski - que este ano faria 60 anos estivesse vivo, e que completa no dia 7 de junho 15 anos de morte - diz bacana de Glauco em uma de suas cartas para Régis Bonvicino, quando do lançamento de seu romance-invenção Catatau, 1975. Caetano Veloso, que descambou pra chatice faz tempo, em outro tempo, melhor, põe o nome de Glauco em uma das suas mais famosas canções, ''Língua''. É de Glauco também um livrinho gasto de lido, da itinerante coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense, O Que é Poesia Marginal.
4.
Este seu Poesia Digesta reúne o melhor do seu trajeto às avessas. Depois da cegueira, Glauco - que sempre gostou de experimentar os espaços da página - retomou o soneto. Mas aí, em se tratando dele, não se pode (nem se deve) em nenhum momento pensar o soneto como estrutura formal centrada no óbvio métrico, apenas. Esta estrutura de curral, fechada, apenas ajuda Glauco a ver melhor o seu poema. Toda a sua trajetória despudorada, em todos os sentidos bons disso, parece mais forte ainda dentro do encurralamento. E neste Poesia Digesta fez um recorte de todos os seus livros anteriores: assim, este é uma montagem, um panorama do seu melhor do melhor. Ele mesmo diz de sua poesia: ''Chamemo-la de fase iconoclasta, / à minha poesia antes de cego. / Pintei, bordei. Porém não a renego. / Forçou-me a invalidez a dar um basta. // A nova não é casta, nem contrasta / com velhas anarquias. Só me entrego / ao pé, onde em soneto a língua esfrego. / Chamemo-la de fase podorasta.// Mas nem por isso é menos transgressiva. / impõe-se um paradoxo na medida / da forma e da temática obsessiva: // Na universalidade presumida, / igualo-me a Bocage, Botto e Piva. / Ao cego, o feio é belo, e a dor é vida''. O que fez Cacaso dizer dele: ''Ele desconfia de tudo. Usa de tudo e não se prende a nada. Satiriza tanto a falta de seriedade quanto a falsa seriedade''.
5.
O que deixa a ver (e ver nesse momento passa a ter sentido maior) é a tristeza da repetição, não a de Glauco, obviamente (porque nele, como afirma sobre outra coisa o Edson Sousa, ''a repetição pede o novo. Repetir não é reencontrar a mesma coisa''), mas a das estruturas que se vão falindo e em momentos importantes como este, da reedição de um trabalho como o de Glauco, passem batidas por ele, por exemplo. Como sempre aqui em nossa cidade. E é provável se repitam, se repitam, e façam o mesmo de sempre: penso no caso das feirinhas de livros, das bienais enfadonhas do livro: as mesmas de sempre, com as mesmas coisas e pessoas de sempre, o mesmo discurso de sempre, com ''coisas que se come por costume''. Projetinhos lacunares que desconhecem ver este país virado pelo avesso e toda uma, ou alguma, que seja, parcela da produção mais interessante que este Brasil cansado de meu deus ainda consegue ter.
Manoel Ricardo de Lima é professor de literatura e semiótica. Autor de As Mãos (7Letras, RJ) entre outros, e doutorando em Teoria da Literatura, UFSC.
Serviço
Poesia Digesta 1974 / 2004 - de Glauco Mattoso. Editora Landy, coleção Alguidar. 232 págs. R$ 35,00.
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