Vida & Arte
FESTIVAL
O filho do pastor
Pernambucano, o violinista e compositor Raimundo Penaforte apresenta-se nesta quarta-feira no VI Festival Eleazar de Carvalho
Ethel de Paula
da Redação
14 Jul 2004 - 04h26min
Vinte anos de Estados Unidos não roubaram a espontaneidade do instrumentista e compositor pernambucano Raimundo Penaforte, que aperfeiçoou a técnica entre a Hardin-Simmons University, no Texas, a New York University e a Julliard School, ambas em Nova Iorque. ''Na América, a vontade de fazer valer a criatividade, sobrepondo-a ao virtuosismo técnico, talvez se perca um pouco em um meio onde você não é solicitado para tal, ao contrário do que acontece no Brasil. Só que é como se um leão fosse criado no quintal de casa: você dá mamadeira pra ele todo dia, mas se botar na selva já começa a rosnar, daí, se passar alguém do lado, vem a dentada. Ou seja, penso que estou acadêmico demais, mas quando chego aqui e subo no palco, o pau canta de novo'', atesta. Confira-se in loco: hoje, a partir de 20h30min, no Theatro José de Alencar, palco do VI Festival Eleazar de Carvalho, ele protagoniza um concerto com direito a improvisações e surpresas.
Nos bancos universitários, o doutor em composição e violino semeou a base para que seus trabalhos ganhassem espaço entre os mais importantes selos do mercado musical como EMI/Classics, Angel, Sony, Denon, Pamar e Romeo Records. Antes, porém, treinou o ouvido no Nordeste brasileiro. Primeiro intuitivamente, no ambiente do seminário frequentado pelo pai, pastor evangélico. Depois, na Universidade Federal de Pernambuco e no Grupo Experimental de Cordas do Sesi, que funcionou em Fortaleza nos anos 1970, primeiramente sob regência de Alberto Jaffet. ''Quando vi a orquestra do Recife tocar no seminário do meu pai, fiquei encantado com aqueles violinos que brilhavam nas mãos de homens com camisa de colarinho alto branca. Escolhi o instrumento. E em Fortaleza, no Sesi, curti o prazer das primeiras viagens pelo Brasil para apresentações. O Ceará antecipou o que seria minha vida errante, pautada pela disciplina. Me deu régua e compasso'', recorda.
A coragem para aceitar a bolsa de estudos nos Estados Unidos veio depois de uma conversa com o hoje ilustre conterrâneo, pianista Marlos Nobre. ''Conheci-o justamente em uma de suas passagens pelo Ceará, acho que era diretor da Funarte. Nos convidou para apresentações no Rio de Janeiro e ia nos ver ensaiar. Em meados de 90, esteve em um festival de música brasileira nos Estados Unidos, tocando seu piano maravilhoso. Claro que não ia lembrar de mim, mas lembrou da experiência do Sesi. E falei pra ele sobre a conversa que tivemos, em 1982, eu como aluno da Sinfônica de Recife, ele como regente. Estava receoso em encarar sozinho o exterior e ele disse que eu deveria tentar, porque, afinal, se não desse certo, simplesmente voltaria'', credita. Deu. As músicas de Penaforte têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e, claro, Brasil.
Como instrumentista, passeando virtuose por diferentes gêneros musicais, já colaborou com músicos como o ícone da música folk americana, Richie Havens; o trompetista canadense Maynard Ferguson; o clarinetista argentino Giora Feidman; o trompetista americano - ganhador do Grammy -, Chuck Mangione; o primeiro trompetista da Orquestra Sinfônica de São Paulo, Fernando Dissenha; o pianista/compositor brasileiro, Dom Salvador, com quem inclusive prepara um disco, e o percussionista brasileiro, Edson da Silva Café, entre outros. De Fortaleza, já segue para Portugal e Luxemburgo, com uma banda que vem de Nova Iorque. As solicitações já avançam por 2005, quando, em março uma peça sua para violoncelo e cordas será apresentada pela Orquestra Lehigh Valley Chamber, na Pensilvânia.
Entre a tradição e a invenção, o instrumentista fica com os dois, embora penda para ''a nota escrita no papel''. ''Sou igualmente admirador da primeira fase de Stravinski, do repertório dos românticos europeus e da música popular brasileira. Guerra Peixe, por exemplo, é um caso à parte, músico pesadíssimo, alto nível. E, claro, fechando, temos Hermeto Pascoal. Dentro da tradição, ele consegue quebrar tudo, é mais corajoso por ter experimentado tanto do que vanguardista, digamos. Basta ver seus últimos trabalhos que são chorinhos, sambas, baiões. Trata-se de uma tradição a la Hermeto. Quando falo em não-tradição é o acadêmico, a história de pegar a nota, revirar, botar no computador... Esta não é minha praia'', admite Penaforte, que, nos Estados Unidos, também começa a experimentar-se enquanto professor. Ele ensina violino, viola e cello em escolas públicas de bairros periféricos americanos. Recluso, quando não está às voltas com convites para composições, apresentações, gravações e produções, lê jornais na padaria mais próxima, vê filmes e preenche cadernos pautados com crônicas do dia-a-dia.
VI Festival Eleazar de Carvalho - Concerto com o violinista e compositor Raimundo Penaforte, que se apresenta ao lado de instrumentistas profissionais convidados. Hoje, a partir de 21 horas, no Theatro José de Alencar (Pç. José de Alencar - Centro). Entrada franca. Info.: 452.1590.
Nos bancos universitários, o doutor em composição e violino semeou a base para que seus trabalhos ganhassem espaço entre os mais importantes selos do mercado musical como EMI/Classics, Angel, Sony, Denon, Pamar e Romeo Records. Antes, porém, treinou o ouvido no Nordeste brasileiro. Primeiro intuitivamente, no ambiente do seminário frequentado pelo pai, pastor evangélico. Depois, na Universidade Federal de Pernambuco e no Grupo Experimental de Cordas do Sesi, que funcionou em Fortaleza nos anos 1970, primeiramente sob regência de Alberto Jaffet. ''Quando vi a orquestra do Recife tocar no seminário do meu pai, fiquei encantado com aqueles violinos que brilhavam nas mãos de homens com camisa de colarinho alto branca. Escolhi o instrumento. E em Fortaleza, no Sesi, curti o prazer das primeiras viagens pelo Brasil para apresentações. O Ceará antecipou o que seria minha vida errante, pautada pela disciplina. Me deu régua e compasso'', recorda.
A coragem para aceitar a bolsa de estudos nos Estados Unidos veio depois de uma conversa com o hoje ilustre conterrâneo, pianista Marlos Nobre. ''Conheci-o justamente em uma de suas passagens pelo Ceará, acho que era diretor da Funarte. Nos convidou para apresentações no Rio de Janeiro e ia nos ver ensaiar. Em meados de 90, esteve em um festival de música brasileira nos Estados Unidos, tocando seu piano maravilhoso. Claro que não ia lembrar de mim, mas lembrou da experiência do Sesi. E falei pra ele sobre a conversa que tivemos, em 1982, eu como aluno da Sinfônica de Recife, ele como regente. Estava receoso em encarar sozinho o exterior e ele disse que eu deveria tentar, porque, afinal, se não desse certo, simplesmente voltaria'', credita. Deu. As músicas de Penaforte têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e, claro, Brasil.
Como instrumentista, passeando virtuose por diferentes gêneros musicais, já colaborou com músicos como o ícone da música folk americana, Richie Havens; o trompetista canadense Maynard Ferguson; o clarinetista argentino Giora Feidman; o trompetista americano - ganhador do Grammy -, Chuck Mangione; o primeiro trompetista da Orquestra Sinfônica de São Paulo, Fernando Dissenha; o pianista/compositor brasileiro, Dom Salvador, com quem inclusive prepara um disco, e o percussionista brasileiro, Edson da Silva Café, entre outros. De Fortaleza, já segue para Portugal e Luxemburgo, com uma banda que vem de Nova Iorque. As solicitações já avançam por 2005, quando, em março uma peça sua para violoncelo e cordas será apresentada pela Orquestra Lehigh Valley Chamber, na Pensilvânia.
Entre a tradição e a invenção, o instrumentista fica com os dois, embora penda para ''a nota escrita no papel''. ''Sou igualmente admirador da primeira fase de Stravinski, do repertório dos românticos europeus e da música popular brasileira. Guerra Peixe, por exemplo, é um caso à parte, músico pesadíssimo, alto nível. E, claro, fechando, temos Hermeto Pascoal. Dentro da tradição, ele consegue quebrar tudo, é mais corajoso por ter experimentado tanto do que vanguardista, digamos. Basta ver seus últimos trabalhos que são chorinhos, sambas, baiões. Trata-se de uma tradição a la Hermeto. Quando falo em não-tradição é o acadêmico, a história de pegar a nota, revirar, botar no computador... Esta não é minha praia'', admite Penaforte, que, nos Estados Unidos, também começa a experimentar-se enquanto professor. Ele ensina violino, viola e cello em escolas públicas de bairros periféricos americanos. Recluso, quando não está às voltas com convites para composições, apresentações, gravações e produções, lê jornais na padaria mais próxima, vê filmes e preenche cadernos pautados com crônicas do dia-a-dia.
VI Festival Eleazar de Carvalho - Concerto com o violinista e compositor Raimundo Penaforte, que se apresenta ao lado de instrumentistas profissionais convidados. Hoje, a partir de 21 horas, no Theatro José de Alencar (Pç. José de Alencar - Centro). Entrada franca. Info.: 452.1590.
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