Vida & Arte
PROSA
O polegar de Luis Fernando
Um romance policial que se passa na Amazônia, onde o dedo polegar tem papel central
Ubiratan Brasil
da Agência Estado
03 Nov 2004 - 01h22min
O motivo da viagem até Manaus era uma reportagem rotineira sobre plantas alucinógenas, mas, sem se dar conta, um jornalista acaba envolvido em uma trama da qual só conseguirá escapar quando chegar a um afluente de um afluente de um afluente do Rio Negro. Rocambolesca, escrita no tom seco dos melhores policiais, a mirabolante história que envolve xícaras estonteantes de chauasca e carícias não menos desconcertantes de belas mulheres mestiças marca a volta do escritor Luis Fernando Verissimo ao romance depois de quatro anos: O Opositor, que a editora Objetiva envia para as livrarias no dia 9, sucede a Borges e os Orangotangos Eternos (Companhia das Letras), também uma novela policial, que traz o relato de um crime ocorrido durante um congresso sobre Edgar Allan Poe.
Assim como o romance que tem Jorge Luis Borges como personagem, Verissimo escreveu O Opositor sob encomenda - o livro é o quarto volume da coleção ''Cinco Dedos de Prosa'', em que cada dedo das mãos inspirou diferentes escritores a criarem histórias policiais. Assim, Carlos Heitor Cony escreveu sobre o indicador (O Indigitado), Fernanda Young sobre o médio (O Efeito Urano) e Mário Prata sobre o dedo mínimo (Buscando o seu Mindinho). Moacyr Scliar vai encerrar a série sobre o dedo anular.
Verissimo ficou com o polegar - e o dedo, claro, é um dos destaques da história, especialmente quando surge a personagem Serena, a bela mestiça que é metade dinamarquesa, metade índia, e que teve justamente os dois polegares decepados. ''Há anos que vinha escrevendo a história, mas eu não conseguia engrenar, o que só aconteceu neste ano'', contou Verissimo, justificando o período em que apenas publicou crônicas e textos sobre uma de suas paixões, o cinema.
Tanto naquelas como no romance, porém, o escritor prende a atenção com um texto engenhoso e divertido. A história de O Opositor já toma um ritmo alucinante no início, quando o jornalista, exausto e extasiado, entra naquele bar de Manaus e um estrangeiro, enorme e vermelho, conhecido por Polaco, senta-se ao seu lado.
Jósef Teodor, seu nome verdadeiro, é um sujeito que há anos não sai do bar nem larga a cadeira que elegeu como seu ponto fixo. Ele é um dos ''Opositores'', homens encarregados de agir em nome das organizações mais poderosas do mundo. Uma função semelhante ao do dedo polegar em relação aos outros da mão, garantindo-lhes funcionalidade e precisão. E, curiosamente, o grupo defende que a humanidade não sofreria tantos problemas se o homem não tivesse o polegar e, com isso, não poderia segurar a arma que mata seus semelhantes.
Além da originalidade da história, Verissimo brinca também com nomes de pessoas e instituições, fazendo referências explícitas ou sugeridas. Hatoum, por exemplo, o dono do bar onde o jornalista busca refresco para o calor, provoca uma evidente lembrança ao escritor Milton Hatoum, que nasceu na região amazônica. E os membros dos Opositores pertencem a um grupo, Meierhoff, o mais poderoso do mundo e cuja fonética faz lembrar o grupo Baader-Meinhoff, guerrilheiros urbanos da Fração do Exército Vermelho (RAF), responsável por sangrentas ações terroristas na Alemanha entre os anos 1970 e 80.
A agilidade da narrativa, porém, não revela a dificuldade enfrentada por Verissimo. ''Escrever diálogos em inglês é mais fácil, pois a autenticidade é garantida'', justifica. ''Em português, ao contrário, é complicado, pois uma frase escrita gramaticalmente correta não parece autêntica como um diálogo.'' A paixão pelo cinema, especialmente os filmes com grandes roteiros, é uma justificativa encontrada pelo escritor para explicar sua habilidade em criar falas.
Assim como o romance que tem Jorge Luis Borges como personagem, Verissimo escreveu O Opositor sob encomenda - o livro é o quarto volume da coleção ''Cinco Dedos de Prosa'', em que cada dedo das mãos inspirou diferentes escritores a criarem histórias policiais. Assim, Carlos Heitor Cony escreveu sobre o indicador (O Indigitado), Fernanda Young sobre o médio (O Efeito Urano) e Mário Prata sobre o dedo mínimo (Buscando o seu Mindinho). Moacyr Scliar vai encerrar a série sobre o dedo anular.
Verissimo ficou com o polegar - e o dedo, claro, é um dos destaques da história, especialmente quando surge a personagem Serena, a bela mestiça que é metade dinamarquesa, metade índia, e que teve justamente os dois polegares decepados. ''Há anos que vinha escrevendo a história, mas eu não conseguia engrenar, o que só aconteceu neste ano'', contou Verissimo, justificando o período em que apenas publicou crônicas e textos sobre uma de suas paixões, o cinema.
Tanto naquelas como no romance, porém, o escritor prende a atenção com um texto engenhoso e divertido. A história de O Opositor já toma um ritmo alucinante no início, quando o jornalista, exausto e extasiado, entra naquele bar de Manaus e um estrangeiro, enorme e vermelho, conhecido por Polaco, senta-se ao seu lado.
Jósef Teodor, seu nome verdadeiro, é um sujeito que há anos não sai do bar nem larga a cadeira que elegeu como seu ponto fixo. Ele é um dos ''Opositores'', homens encarregados de agir em nome das organizações mais poderosas do mundo. Uma função semelhante ao do dedo polegar em relação aos outros da mão, garantindo-lhes funcionalidade e precisão. E, curiosamente, o grupo defende que a humanidade não sofreria tantos problemas se o homem não tivesse o polegar e, com isso, não poderia segurar a arma que mata seus semelhantes.
Além da originalidade da história, Verissimo brinca também com nomes de pessoas e instituições, fazendo referências explícitas ou sugeridas. Hatoum, por exemplo, o dono do bar onde o jornalista busca refresco para o calor, provoca uma evidente lembrança ao escritor Milton Hatoum, que nasceu na região amazônica. E os membros dos Opositores pertencem a um grupo, Meierhoff, o mais poderoso do mundo e cuja fonética faz lembrar o grupo Baader-Meinhoff, guerrilheiros urbanos da Fração do Exército Vermelho (RAF), responsável por sangrentas ações terroristas na Alemanha entre os anos 1970 e 80.
A agilidade da narrativa, porém, não revela a dificuldade enfrentada por Verissimo. ''Escrever diálogos em inglês é mais fácil, pois a autenticidade é garantida'', justifica. ''Em português, ao contrário, é complicado, pois uma frase escrita gramaticalmente correta não parece autêntica como um diálogo.'' A paixão pelo cinema, especialmente os filmes com grandes roteiros, é uma justificativa encontrada pelo escritor para explicar sua habilidade em criar falas.
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