Vida & Arte
CRÔNICA
Pátria amada terra
Feito besta-fera, o sol a pino derruba o aluno 919. Em pleno ensaio para o desfile de Sete de Setembro. ''Morrer pela pátria (...) não faz mais sentido num tempo em que ou nos unimos pelo bem geral do planeta e da espécie ou afundamos todos'', diz o escritor Ricardo Kelmer, que acha que até desmaiar pela pátria já é o maior mico
Ricardo Kelmer
Especial para o Vida & Arte
07 Set 2001 - 01h27min
Honroso é morrer pela pátria. Militar adora dizer isso. Bem, morrer pelo Brasil eu particularmente nunca morri. Mas já desmaiei por ele. Verdade. Tinha 12 anos e estudava no Colégio Militar. E como o colégio vive em função do Sete de Setembro, toda semana tinha treinamento para o grande desfile. Pois bem. Um dia, num desses treinos, nós todos metidos naquele pesado uniforme de gala e perfilados sob o solzão cruel, minha vista escureceu, o corpo fraquejou e bufo!, desabei feito um armário, de cara no chão. Despertei na enfermaria, tudo bem, só uns arranhões. Novecentos e dezenove, você está liberado por hoje! Sim, senhor!
Se desmaiar já é ridículo, imagine morrer pela pátria. Isso não faz mais sentido num tempo em que ou nos unimos pelo bem geral do planeta e da espécie ou afundamos todos. Sim, eu sei que muitos ainda crêem em superioridade racial e religiosa e outras ilusões. Porém está em curso atualmente uma revolução que ameaça mudar tudo isso. Silenciosa e sem sangue, ela está fazendo com que a humanidade, cada vez mais, se veja como um único povo a habitar uma única pátria: o planeta Terra.
Não, não se trata de mera filosofia. Na verdade é uma profunda transformação do modo da espécie entender a si mesma e ao mundo em que vive. Isso é tão sério que pode mudar para sempre o rumo evolutivo do Homo sapiens. Sempre que você se aprofunda um pouco mais na maneira de entender a si mesmo, está adentrando um novo nível pessoal de evolução. Você se transforma. E como tudo são espelhos a refletir tudo que há, nada fica imune à sua transformação. O mundo ao redor muda... simplesmente porque você mudou. Este é o segredo da revolução: você não precisa transformar o mundo: basta mudar a si mesmo.
E quando ela começou? Impossível precisar. No entanto, foi no século XX que ela tomou impulso. E no final da década de 1960, quando divulgaram ao mundo aquela primeira foto da Terra tirada do espaço, algo estalou na alma coletiva da humanidade. Foi um momento histórico muito significativo. A maioria não parou para refletir mas o estalo aconteceu. Pela primeira vez olhamos para a imagem do planetinha azul e percebemos enternecidos como ele é lindo. E nos demos conta de algo incrível: do alto não há fronteiras! Habitamos todos o mesmo lar! E somos todos responsáveis por ele!
É animador ver as novas gerações convivendo mais naturalmente com essa noção de cidadania planetária. As comunicações fáceis e a Internet incentivam os jovens a viajar mais, conhecer o mundo. Seus horizontes são mais amplos e não se conformam com fronteiras nem intolerâncias raciais, étnicas, sexistas ou religiosas. Vêem os fanatismos nacionalistas atuais como os últimos espasmos da velha mentalidade que não quer morrer - mas já está moribunda. Para eles essa noção de patriotismo é mesquinha demais diante de uma pátria bem maior que se chama Terra.
A nova revolução traz em sua luta o clamor pela conscientização ecológica, pelas liberdades individuais e pelo respeito à vida e às diferenças. Pode soar ingenuamente otimista mas são conceitos que a cada dia se espalham mundo afora feito um vírus benigno. A Terra é meu país e a humanidade minha família - este é o grito de seus soldados que, desarmados, se denominam cidadãos do mundo, uma nacionalidade bem mais abrangente e que abraça toda a riqueza da diversidade cultural humana. São ainda minoria, sim, esses belos revolucionários, mas sua bandeira tremula com a cor de todos os povos e eu me orgulho de lutar ao lado deles.
É por isso que quando assisto à parada do Sete de Setembro, tudo aquilo me parece tão pequeno... E é por isso que nada vejo de honroso em morrer pela pátria. Sim, eu adoro o Brasil e seu povo. Entretanto a nossa pátria verdadeira, de todos nós, é muito maior que o Brasil. E os nossos irmãos não são apenas brasileiros, brancos ou negros ou índios, muçulmanos ou cristãos, homo ou heterossexuais: nossos irmãos são a humanidade inteira, bela e diversa.
SERVIÇO
Ricardo Kelmer é autor do livro de contos Guia prático de sobrevivência para o final dos tempos, Editora Elevação. Na Internet: http://www.fortalnet.com.br/rkelmer
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