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Vida & Arte

WILL EISNER

Até a próxima, Mr. Eisner

Carlos Augusto Lima
Especial para O POVO

22 Fev 2005 - 01h31min

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O que fez (faz) de Will Eisner um nome reverenciado, mesmo e ainda em vida, no universo da arte em quadrinhos? O que o tornou tão emblemático? Por que o culto? Onde sua singularidade?

A resposta está no fato de que Eisner estabelece pensamento. Sem tirar, é claro, mérito do seu talento criador, de sua técnica invejável, de suas narrativas, mas, antes de qualquer coisa, Eisner foi aquele que primeiro pensou os quadrinhos em sua especificidade, nos quadros como uma potência criadora. Primeiro passo, reconhecer seus limites, suas ignorâncias; depois, explorar novos caminhos, os sentidos ocultos naquele gênero, as múltiplas funções: uma pedagogia, uma literatura, além, e acima de tudo mesmo, uma grande diversão.

Will Eisner desmistificou os quadrinhos, ou como ele mesmo preferia, a arte seqüencial, colocando-os num outro patamar. Na maturidade, assim mesmo incansável, inquieta, molda as chamadas graphic novels, as novelas em quadrinhos e funde a cuca dos gêneros, manda-os para o espaço. Onde literatura? Onde HQ? Os quadrinhos de Eisner são outra coisa, uma ausência de fronteiras, talvez uma tensão. E dessas tensões, da busca delas, que nascia sua arte. Quem leu No Coração da Tempestade, publicado no Brasil em 1996, pela Abril Jovem, teve uma mostra do maravilhoso universo de tensões, de choques e lembranças remexidos por Eisner quando, ao construir uma narrativa autobiográfica, mergulha numa América do entre guerras excludente, caldeirão de culturas em conflito permanente. Com o olhar grudado na janela do expresso que leva um bando de recrutas para o treinamento militar que os preparará para a guerra, um jovem artista, vislumbra uma paisagem de memória, alguma dor e esperança. A história familiar, a carga da herança judaica, a tocante e absurda guerra intima das heranças, das origens, os sobrenomes, as ascendências , a cor da pele, e todas essas tolices que uma humanidade perdida se agarra, acoberta-se em nome de nada.

Will Eisner desenhou uma América às avessas, muito de sua arte assemelha-se ao que encontramos em um Hemingway, um Falkner, um Fante e muitos outros grandes narradores de uma América frágil, também repleta de tensões, donos de um realismo cru e delicado. Onde a literatura? Onde os quadrinhos?

Isso aqui não importa. Importa e muito e mais é pensar que Will Eisner deixou uma obra belíssima e tocante. Uma obra que desmonta os limites e os preconceitos para com os quadrinhos. Um desmonte das ignorâncias. A vida de Will Eisner confundia-se com a sua missão. Missão cumprida, e a vida continua. Até a próxima, Mr. Eisner.

[ Carlos Augusto Lima é mestrando em Letras/ UFC, leu muito Will Eisner, mas nunca fez um contrato com Deus.

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