Vida & Arte
CRÍTICA
O novelo ou a linha de morrer
Se morre Will Eisner, morre com ele a invenção das Graphic Novels, morre também, com ele, uma das mais inventivas mãos de histórias em quadrinhos
Manoel Ricardo de Lima
Especial para O POVO
22 Fev 2005 - 01h31min
''aliás, são os outros que morrem''
Epitáfio de Marcel Duchamp
Nunca sabemos o tanto que é ver morrer a um homem. Até tentamos pensar o tanto que morre com ele, o tanto que padece no que fica dele. E mais longe, tentamos pensar no tanto que o celebra ainda como vida. Se morre Will Eisner, morre com ele a invenção das Graphic Novels (as novelas gráficas), morre também, com ele, uma das mais inventivas mãos de histórias em quadrinhos e todo um pensamento sobre a arte seqüencial, morre o que transformou pequenas e meras revistinhas de quadrinhos em livros, belíssimos livros. Will Eisner era da linhagem de um George McManus, de um George Herriman e, principalmente, de Winsor McCay, o mais brilhante antes dele, o que desenhou Little Nemo. Will Eisner sempre soube dizer muito obrigado, sempre se soube devedor (que é o gesto mais inteligente de um grande artista) e, provável, tenha se sabido também o quanto de depois para além deles todos, de outra forma, noutro jeito, noutro desvio.
Com Will Eisner morre o seu maior depois: foi um dos mais geniais pensadores da cidade moderna. Olhadinha breve nos quadros silenciosos de New York, um seu clássico, para dizer da rua, das janelas, do lixo, do trem, da música de rua, das gentes da cidade grande. Esta gente que desde seu princípio já nasce sem poder andar distraída, impedida, porque a turbamulta atrapalha, e se confina. Este livro de Will Eisner é um repensar de Edgar Allan Poe e seu O Homem da Multidão ou um seu diálogo intenso com as telas de Edward Hopper, do autômato ao notívago, o que sozinho não vê mais nem a si nem ao outro. Poe nos aponta o flâneur, a personagem títere da cidade, aquele que passeia pela multidão, já para dizer de sua impossibilidade de existir na Londres da metade do século XIX. Hopper pinta o cansaço, a exaustão da impossibilidade do convívio no homem da primeira metade do século XX. Will Eisner redesenha os dois para apontar o que para ele talvez fosse o maior impasse da cidade moderna: uma ausência de olhar, de formas de olhar. Como dissesse, além: ''Se você vem de uma cidade grande, a rua na qual você nasceu, cresceu e amadureceu foi sua 'terra natal', e ela sempre foi chamada de 'vizinhança'. A residência definiu você tão certo quanto sua origem nacional, e lhe deu uma afiliação vitalícia numa espécie de fraternidade que se manteve unida pelas memórias.''
Daí, a cidade vai se refazendo no novelo e na linha de seu trabalho: Spirit, O edifício, Um Contrato com Deus, Avenida Dropsie, O Nome do Jogo. Sempre para dizer do empobrecimento do cotidiano. Este, torpe, o que não provoca tensão nenhuma. Esta repetição às avessas, a mesma, enfadonha. Este cotidiano que em não se refazendo tanto retira a tensa quanto retira criar, e que no fosso dele mesmo vai deixando vivo o molambo humano que a cidade absorve e deixa invisível, mas que está ali, em algum lugar, e grito. Este cotidiano que não dói, sem sobrevida, asséptico, correto, aparente, frágil, desvalido.
A cidade de Will Eisner, em todos os seus trabalhos sobre o tema, é a que recupera o morrer como forma de experiência: é a cidade que é víscera, que dói, que tem sulco. Como um amor que toma o avião, e abre lacuna. Importa a ele a dobra, o cortar ou estender onde o contorno da paisagem é o fio escuro de uma cidade escura. Os nomes falsos para esticar uma espera, retornos. O que se perde. As janelas cegas. Os dias longos ficando curtos. Uma luz e uma chuva, sempre difusas. Rostos de vidro quando a cidade acende. Uma gente sem jeito no desenho do tempo. De um lado ruas de metal. Do outro lado ruas de metal. Um simples dizer para os movimentos da noite. Uma sempre e mesma indicação sinuosa, uma mesma insistência, um desencontro. As construções que sugerem. E vem um vento. O cheiro de pó, uma poeira, uma raspa. Ao esticar o pescoço um amuleto. Ou um engano. De ficar vendo as coisas passarem, passando. Como quem não pede nada ou apenas pedisse uma pausa para terminar de concluir um seu pensamento: que a vida também é só isso mesmo, um morrer.
[ Manoel Ricardo de Lima é professor de Teoria da Literatura, UFSC. Desenvolve pesquisa sobre passagem do tempo / paisagens urbanas / poesia brasileira contemporânea. Gosta mesmo é de histórias em quadrinhos e de Will Eisner.
Epitáfio de Marcel Duchamp
Nunca sabemos o tanto que é ver morrer a um homem. Até tentamos pensar o tanto que morre com ele, o tanto que padece no que fica dele. E mais longe, tentamos pensar no tanto que o celebra ainda como vida. Se morre Will Eisner, morre com ele a invenção das Graphic Novels (as novelas gráficas), morre também, com ele, uma das mais inventivas mãos de histórias em quadrinhos e todo um pensamento sobre a arte seqüencial, morre o que transformou pequenas e meras revistinhas de quadrinhos em livros, belíssimos livros. Will Eisner era da linhagem de um George McManus, de um George Herriman e, principalmente, de Winsor McCay, o mais brilhante antes dele, o que desenhou Little Nemo. Will Eisner sempre soube dizer muito obrigado, sempre se soube devedor (que é o gesto mais inteligente de um grande artista) e, provável, tenha se sabido também o quanto de depois para além deles todos, de outra forma, noutro jeito, noutro desvio.
Com Will Eisner morre o seu maior depois: foi um dos mais geniais pensadores da cidade moderna. Olhadinha breve nos quadros silenciosos de New York, um seu clássico, para dizer da rua, das janelas, do lixo, do trem, da música de rua, das gentes da cidade grande. Esta gente que desde seu princípio já nasce sem poder andar distraída, impedida, porque a turbamulta atrapalha, e se confina. Este livro de Will Eisner é um repensar de Edgar Allan Poe e seu O Homem da Multidão ou um seu diálogo intenso com as telas de Edward Hopper, do autômato ao notívago, o que sozinho não vê mais nem a si nem ao outro. Poe nos aponta o flâneur, a personagem títere da cidade, aquele que passeia pela multidão, já para dizer de sua impossibilidade de existir na Londres da metade do século XIX. Hopper pinta o cansaço, a exaustão da impossibilidade do convívio no homem da primeira metade do século XX. Will Eisner redesenha os dois para apontar o que para ele talvez fosse o maior impasse da cidade moderna: uma ausência de olhar, de formas de olhar. Como dissesse, além: ''Se você vem de uma cidade grande, a rua na qual você nasceu, cresceu e amadureceu foi sua 'terra natal', e ela sempre foi chamada de 'vizinhança'. A residência definiu você tão certo quanto sua origem nacional, e lhe deu uma afiliação vitalícia numa espécie de fraternidade que se manteve unida pelas memórias.''
Daí, a cidade vai se refazendo no novelo e na linha de seu trabalho: Spirit, O edifício, Um Contrato com Deus, Avenida Dropsie, O Nome do Jogo. Sempre para dizer do empobrecimento do cotidiano. Este, torpe, o que não provoca tensão nenhuma. Esta repetição às avessas, a mesma, enfadonha. Este cotidiano que em não se refazendo tanto retira a tensa quanto retira criar, e que no fosso dele mesmo vai deixando vivo o molambo humano que a cidade absorve e deixa invisível, mas que está ali, em algum lugar, e grito. Este cotidiano que não dói, sem sobrevida, asséptico, correto, aparente, frágil, desvalido.
A cidade de Will Eisner, em todos os seus trabalhos sobre o tema, é a que recupera o morrer como forma de experiência: é a cidade que é víscera, que dói, que tem sulco. Como um amor que toma o avião, e abre lacuna. Importa a ele a dobra, o cortar ou estender onde o contorno da paisagem é o fio escuro de uma cidade escura. Os nomes falsos para esticar uma espera, retornos. O que se perde. As janelas cegas. Os dias longos ficando curtos. Uma luz e uma chuva, sempre difusas. Rostos de vidro quando a cidade acende. Uma gente sem jeito no desenho do tempo. De um lado ruas de metal. Do outro lado ruas de metal. Um simples dizer para os movimentos da noite. Uma sempre e mesma indicação sinuosa, uma mesma insistência, um desencontro. As construções que sugerem. E vem um vento. O cheiro de pó, uma poeira, uma raspa. Ao esticar o pescoço um amuleto. Ou um engano. De ficar vendo as coisas passarem, passando. Como quem não pede nada ou apenas pedisse uma pausa para terminar de concluir um seu pensamento: que a vida também é só isso mesmo, um morrer.
[ Manoel Ricardo de Lima é professor de Teoria da Literatura, UFSC. Desenvolve pesquisa sobre passagem do tempo / paisagens urbanas / poesia brasileira contemporânea. Gosta mesmo é de histórias em quadrinhos e de Will Eisner.
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