Ir para a página sobre a Publicidade

Vida & Arte

OUTRA LITERATURA

Fortaleza: formação e palavra

Um passeio literário pela cidade. No campo da ação da prosa e verso o articulista Manoel Ricardo se depara com Diana Melo, Diego Vinhas, Eduardo Jorge e Mirella Adriano

Manoel Ricardo de Lima
Articulista do O POVO

14 Mar 2005 - 21h45min

A+ A- Mudar tamanho

1. Fortaleza parece uma cidade órfã, mas não é. Basta se deslocar um pouco para se ver de perto, e saber: uma cidade que tem passeando por ela mínimas brechas de vento que articulam pensar. Uma gente que em outro lugar seria convidada para propor, conversar, de outra forma e outro jeito, completamente diferente do que tem acontecido. Aqui, a cidade parece não incorporar. Não quer ver nem propor o lugar da fenda, do que tensiona. E perde. E dança, literalmente. Uma suspensão às avessas. Aplaude tudo que se arma, monta, faz, aparece, cresce e vinga: repetições da mesmice. E parece não saber nem por onde começar um projeto sério de formação, o seu maior buraco: formação. E parece gostar mesmo é de evento. Mas nem assim se convida pra festa que ela mesma organiza.

Penso num time, bem rápido, e quase pessoal, que começa com um artista visual como Eduardo Frota (que expõe por todo o país menos aqui, e ninguém se pergunta os porquês). Numa universidade que tem ainda uma gente serena brigando por ela para fazê-la forte - entre tantos outros bons - um Silas de Paula, uma Fernanda Coutinho ou um Diatahy Bezerra de Menezes, para dizer simples. Arte-educadores mais que importantes e propositivos como um Solon Ribeiro (de um jeito, e à sua maneira fundamental) ou um Ernesto Gadelha (de outro jeito, à sua maneira também mais que fundamental). Um Alexandre Veras que, com precisa radicalidade no seu fazer, empresta a casa para que se possa propor, o Alpendre, abrindo o olho para dizer a fenda. Um Carlos Augusto Lima que vem chamando atenção para a formação, de outro olhar, de outro dizer no que trata da literatura, aqui. E mais que nunca, agora, Fortaleza tem oportunidade ímpar de, ao menos, conversar; porque o seu secretário de cultura, Alexandre Barbalho, apesar dos revezes que enfrenta de tantos anos de desmando, abre a porta e deixa a cidade vir, porque sabe o que é alguma possibilidade de política pública para a cultura.

Olhando a ausência de formação e os vazios que Fortaleza vai sendo e os convites que faz para que se saia dela, no que me chama atenção, busco apontar aqui quatro sensos de uma mais que novíssima geração ligada ao trabalho com a literatura, entre 20 e 26 anos, com gesto para o pensamento, que se forma sozinha no seu próprio esforço e brigando contra a cidade num jeito, cada um no seu possível, o que é ruim pra cidade, de também ir embora; mas são os que consigo ver como mais sérios com isso da formação que vem bem antes do trabalho: Diana Melo, Diego Vinhas, Eduardo Jorge e Mirella Adriano. São ainda quatro vozes se procurando, se fazendo, se indo, se deslocando pra saber até onde a palavra faz algum sentido mesmo, para cada um.

2. Diana Melo é moradora do bairro do Monte Castelo, o que já desloca o olhar para a própria cidade. Um morar que em si já parece propor percurso, travessia e travessura. Tem um livro infantil no prelo - Não põe a mão no formigueiro, não -, tem um outro não-infantil, em preparo, Barulho de Pombos , e tem publicado seus trabalhos por aí, como na revista de contos mais importante do País, hoje, a Ficções (editora 7Letras, RJ). Diana é de uma habilidade fora do comum com a construção do diálogo, esta dificuldade visível da literatura no Brasil, com as exceções a que Diana parece se vincular, como um Dalton Trevisan ou um Luiz Vilela. Diego Vinhas, dos quatro aqui, é o único com livro publicado por uma editora, um bom livro e de título mais que bonito, Primeiro as coisas morrem (7Letras, coleção Guizos). Recente recebeu aqui, neste espaço, uma resenha de Carlos Augusto Lima, que lhe apontava o nó e as boas questões que seu livro traz. É ainda de alguns cacoetes formais em seu trabalho, mas que também lhe conferem abrir a mão para propor uma certa outra responsabilidade formal, e deixa claro: há ali trabalho e muita leitura. E o que chama atenção também: a habilidade com a construção de um poema que não se desmancha nele mesmo, e que é sim propositivo.

Eduardo Jorge é talvez, aqui, o mais aberto às experimentações. Seu primeiro trabalho, San Pedro, um livro-envelope, singelo, é o resultado de uma experiência corpórea, a de habitar o antigo edifício São Pedro, no bairro de Iracema, durante um tempo e propor. Eduardo aponta: se poesia ou se prosa não tem mais a menor importância. Importa o como de trabalho e pensamento, e texto. Para abrir o olhar trafega entre o vídeo, a fotografia, a dança e o poema visto não só como literatura, mas também como objeto, interdição ou risco profundo na passagem do espaço ao lugar, entre a casa e a cidade (aqui, a cidade não mais como tema, mas como respiração). Por fim, Mirella Adriano, a de sintaxe mais interessante; uma sintaxe que talvez lhe seja provocada por um olho que é sempre em desvio, torto, e que refaz o desenho da frase. Sua frase é um desenho enviesado, sempre. Tem também um livro infantil no prelo - A menina dos porquês -, e o que vem num título simples desemboca na forma como as frases aparecem e somem dando voltas sobre si mesmas, em rodopio, um ''redemunho''. O texto como síntese de uma respiração ultracurta, própria de seu tempo, ou sem tempo, uma quase mudez. Mirella trabalha com uma ausência da fala, um outro que é sempre o mesmo não-ser, como no dito de Rosa, sua maior referência incorporada, mesmo que ela talvez não saiba: ''por tanto é que refiro tudo nestas fantasias''.


Manoel Ricardo de Lima é professor de Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, autor de, entre outros, Falas Inacabadas (com a
artista visual Elida Tessler) e As Mãos.




1) Diana Melo, fragmento de Folhas Secas

[...]
- Antes tu tinha perguntado o que mesmo, hein?
- Antes de quê?
- Dessa conversa estranha.
- De outono. Se NAQUELE TEMPO era outono.
- Acho que tinha mesmo muito sol pra ter sido. Mas tu sente hoje, que era?
- Verdade é que sinto como parte de agora.
[...]
- Olha ali pela janela aquela árvore seca, só os galhos. É o ipê!
- Tem certeza?
- Tenho, e ficou assim desde o dia em que tu soltou a minha mão.

2) Diego Vinhas, Visita

da mesma matéria
de que são feitos
os domingos
- tédio e vapor em pedra-sabão -
compunha-se a espera
num gesto mais
branco.

3) Eduardo Jorge, um tratamento

as palmas perlongam pelas costas com carinho. sentem as
costelas. os dedos decifram pouco a pouco, osso a osso. as
mãos se ajustam ao trapézio em leves contrações. a tosse gera
outro silêncio: o de dormir juntos, abraçados.

4) Mirella Adriano, Fragmentos

Eu inverto o tempo acaso passe demais em mim.
Mas ainda tem alfinetes em todos os cantos da casa.
Se fosse dizer, diria que, nessa hora, o céu parece feito de fórmica.
Primeira vez que vai sentir uma partida. Sem saber como fazer com o pedaço que fica.

- Adoro essa música. Mas sabe o que é, adorar?
- Sei. É quando a gente é todo a coisa.

Dê sua nota clicando nas estrelas

Espaço dos leitores:

Comentar essa notícia

Seu nome:

Seu e-mail:

Sua cidade:

Comentário:

Importante: Os comentários publicados são de exclusiva responsabilidade de seus autores e as conseqüências derivadas deles podem ser passíveis de sanções legais. O usuário que incluir em suas mensagens algum comentário que viole o regulamento será eliminado e inabilitado para voltar a comentar.

Mais Notícias

Últimas

Últimas

Botao para a página sobre a Publicidade

Indique essa notícia

Seu nome:

Seu e-mail:

Nome do destinatário:

E-mail do destinatário:

Enquete

Qual é a melhor atração das férias?

Estreia do novo Harry Potter

Estreia de A Era do Gelo 3

Os shows do Férias no Ceará

Praia todos os dias

Ir para a página sobre a Publicidade

Ir para a página sobre a Publicidade

Ir para a página sobre a Publicidade

Charge

Ir para a página sobre a Publicidade

© 2008 O POVO - Todos os direitos reservados