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Vida & Arte

U2

O fim da inocência

Há 25 anos, a banda irlandesa U2 começava a fazer sucesso para além das fronteiras de seu País. O início de uma trajetória que transformaria Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. na banda de rock de maior sucesso dos anos 80, posto que conseguem manter até hoje

Luciano Almeida Filho
da Redação

30 Mai 2005 - 19h05min

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INTEGRANTES da banda U2 festejam recebimento do Grammy no ano passado/AGÊNCIA EFE/STR
1980. A explosão punk tinha deixado rastilhos por todos os lados. Uma diversidade de estilos musicais se processava na cena roqueira das Ilhas Britânicas. As bandas influenciadas pelo punk buscavam saídas estilísticas entre experimentações - era o reinado do pós-punk. Uns passaram a usar os primeiros instrumentos eletrônicos, outros buscavam trabalhar com uma diversidade de ritmos como funk, reggae e ska. Outros testavam novas formas de trabalhar com o trio básico de guitarra, baixo e bateria. Entre estes estavam os quatro rapazes irlandeses do U2.

Eles ainda eram uns fedelhos quando pegaram seus instrumentos para tocar com colegas de escola. O baterista Larry Mullen, Jr. fixou um cartaz no colégio procurando músicos para montar uma banda. Responderam ao anúncio os irmãos Dave e Dick Evans, Adam Clayton, Peter Martin e Ivan McCormicke. Juntos formaram a banda Feedback, em 1976. O movimento punk ainda não tinha chegado à Irlanda e os garotos tocavam covers de Beatles, Rolling Stones e sucessos da época.

Tinham então 15, 16 anos. O também colega de escola Paul Hewson foi um dia ver um ensaio da banda, trocou figurinhas com os integrantes, se identificando com a proposta da banda. Peter e Ivan saem. Paul assume os vocais e o Feedback participa de um festival de talentos da escola, tirando segundo lugar. A banda troca o nome da banda para The Hype, em 1977, e começam a aparecer as primeiras composições próprias. A ideologia anárquica e espírito do 'faça-você-mesmo' do movimento punk contagia os garotos.

Dick Evans sai para formar o Virgin Prunes - outra promissora formação do rock irlandês da virada dos anos 70 para 80. Dave adota o apelido de The Edge e Paul passa a assinar artisticamente como Bono Vox. Em 1978, Larry segue a dica de um amigo que lhe falava do avião de guerra U2 e adota o nome para a banda. De passagem pela Irlanda como empresário da banda punk The Stranglers, Paul McGuiness, vê uma performance do quarteto, gosta do som da rapaziada e se oferece para empresariá-los. Se torna uma espécie de ''quinto'' membro e até hoje está à frente dos negócios da banda.


Paul McGuiness passa a batalhar um contrato para seus pupilos, enquanto o U2 vai conquistando fãs nos clubes de Dublin e cidades vizinhas. Em 1979, consegue enfim um contrato com a subsidiária irlandesa da CBS que lança o disco U2-3, contendo três músicas: ''Out of Control'', ''Stories For Boys'' e ''Boy-Girl''. Lançado em setembro daquele ano, conseguindo uma boa repercussão na imprensa local e já chamando atenção na vizinha Inglaterra. Em fevereiro de 1980, sai mais outro compacto com ''Another Day'' e ''Twilight'', ainda pela CBS irlandesa. É então que entra a gravadora Island Records que contrata o U2 para seu cast.

Para fazer o primeiro compacto na nova gravadora, é contratado o produtor Martin Hannett - então famoso por suas produções inovadoras com o Joy Division. Em maio de 80 sai o resultado desta parceria: ''11 O'Clock Tick Tock'' e ''Touch'', que tem ótima receptividade na imprensa. Mas preferem trocar de produtor e é chamado outro fera dos estúdios, Steve Lillywhite, também em alta com discos de Peter Gabriel no currículo. A banda e o produtor se dão bem. O compacto ''A Day Without Me''/ ''Things do Make and Do'' sai em agosto de 1980, enquanto Bono, The Edge, Adam e Larry, então com 19, 20 anos, se trancam em estúdio com o produtor para fazer o primeiro LP.

Boy, com o garoto na capa, é editado em outubro de 80, puxado pelo hit ''I Will Follow''. O disco é recebido como um dos melhores trabalhos de estréia do período e o U2 aclamado como uma das mais promissoras bandas da nova geração. Ao vivo, eles se tornam imbatíveis com performances apaixonadas, principalmente devido ao carisma de Bono Vox como vocalista e porta-voz do grupo. Conquistado o Reino Unido, o próximo passo é o difícil mercado americano. O U2 abre shows dos Talking Heads e consegue colocar Boy nas paradas americanas, ainda timidamente, no início de 1981. O disco chegou a ser lançado no Brasil sem grande repercussão.


É o início de uma trajetória de sucesso. Somente no terceiro LP, War (novamente com o garoto na capa), os EUA recebem o U2 de braços abertos. Eles então gravam o disco ao vivo Under A Blood Red Sky. O disco de 1984, The Unforgettable Fire, amplia mais ainda o sucesso de Bono e sua turma. No Brasil, só começam a chamar atenção depois da aparição apoteótica no megashow beneficente Live Aid, em julho de 1985. É quando os discos do U2 passam a ser editados um atrás do outro por aqui, tirando o atraso de quem não tinha acesso aos caros bolachões importados.

O megaestrelato viria com The Joshua Tree (1987), conquistando vários Grammy e os primeiros lugares nas paradas mundiais. De lá pra cá, o U2 não perdeu seu posto de mais importante banda de rock de seu tempo. E Bono se tornou uma das celebridades mais influentes, com suas posições políticas em favor de causas como o Apartheid, a Anistia Internacional, a Aids, a paz mundial e o perdão da dívida externa do Terceiro Mundo. A atual turnê de lançamento do CD How to Dismantle an Atomic Bomb, chamada Vertigo Tour, estes senhores de 44 e 45 anos voltaram a tocar músicas do início da carreira, como forma de comemorar os 25 anos de carreira discográfica. A turnê encerrou sua primeira fase nos EUA, agora em maio, e em junho inicia as datas européias. No final do ano, retornam aos EUA para uma segunda fase da excursão. Por enquanto não há previsão do U2 passar pelo Brasil dentro da Vertigo Tour - eles tocaram aqui na turnê Pop-Mart, em 1997.

Loucos por U2


Eles não se conhecem mas os três têm algo em comum: são loucos por U2. Luís Carlos Costa Filho conheceu o som da banda na sua adolescência. ''Tinha 14 anos e curtia muito as músicas do U2''. Passou a escrever frequentemente para o fã-clube, recebendo brindes. A história de Evandro Ferreira Gomes é semelhante, também conheceu o U2 na adolescência e hoje coleciona tudo sobre a banda, promovendo inclusive festas à frente do projeto Altern@tividade - a última dedicada ao U2 aconteceu em 7 de maio no Noise 3D Club. Ronaldo Régis Mourão Filho lembra que um amigo lhe emprestou o LP Under A Blood Red Sky, ainda no colégio. ''Eu tinha 14, 15 anos e fiquei vidrado no som dos caras'', conta.

O ex-piloto de aviação civil, Luís Carlos, 29 anos, talvez tenha ido mais fundo na sua tietagem. Já chegou a ''pegar emprestado um avião'' para ver show da banda irlandesa. ''Foi quando eu estava numa escola de aviação nos EUA. Soube que tinha um show do U2 numa cidade a 1500km de distância e convenci uns colegas de escola a pegar um avião para vê-los. Foi uma loucura. Taxiamos nosso bimotor ao lado do avião que levava a banda. Chegamos a entrar e conhecer o aeronave da turnê por dentro. Mas não foi dessa vez que conheci os integrantes'', revela.

A aproximação se deu já no Brasil. ''Pedi dispensa do meu vôo e fui para o Rio ver o show. Chegando lá botei o uniforme de piloto, entrei na área restrita do aeroporto Santos Dumont e fui conversar com o piloto deles. Eles chegaram e eu fiquei paralisado. Fiquei tão nervoso que embaralhei as línguas, falava meio inglês meio português. Eles foram muito simpáticos e gentis, me deram autógrafos'', conta. De volta a Fortaleza, Luís Carlos faz planos para ver o show da Vertigo Tour, no final do ano nos EUA. Ele demonstra sua paixão pela banda. Deu o nome de seu cão yorkshire de Bono, o fila brasileiro é The Edge e as tartarugas Adam e Larry (esta última desapareceu). Recentemente, comprou uma fêmea de yorkshire e lhe deu nome de Ally, esposa de Bono.

Dos três, apenas o engenheiro civil Ronaldo já está com ingresso na mão para ver o U2 neste turnê que comemora 25 anos do primeiro LP. ''Meu objetivo era vir ver em Dublin (Irlanda), a terra natal dos caras. Mas seria muito mais caro. Optei por ver em Lisboa (Portugal) em agosto. Os ingressos mais baratos se esgotaram rápido, comprei do mais caro, mas vou vê-los no gargarejo. Vou poder pegar na mão de Bono!'', espera.

Luís Carlos e o professor de inglês Evandro pretendem ir ver o show na segunda fase da turnê nos EUA, no final do ano. ''Tentei comprar ingressos para ver em Portugal mas foi muito díficil. Eles botaram os ingressos para vender em postos de gasolina. Acabou tudo em poucas horas. Vou tentar ver nos EUA. Mas vai depender das minhas férias e da minha mulher'', adianta. (LAF)


DISCOGRAFIA
Boy (1980)
October (1981)
War (1983)
Under A Blood Red Sky (1983) ao vivo
The Unforgettable Fire (1984)
Wide Awake in America (1985) ao vivo
The Joshua Tree (1987)
Rattle and Hum (1988)
Achtung Baby! (1991)
Zooropa (1993)
Passengers: Original Soundtracks vol.I (1995) projeto com Brian Eno
Pop (1997)
Best of 1980-1990 (1998) coletânea
The Million Dollar Hotel (2000) trilha sonora
All That You Can't Leave Behind (2000)
Best of 1990-2000 (2002) coletânea
How to Dismantle An Atomic Bomb (2004)

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