Vida & Arte
CINEMA
É bom, acredite!
2 Filhos de Francisco traz boas atuações e um drama carregado de miséria, superação e outras situações de vida
Felipe Gurgel
da Redação
24 Ago 2005 - 21h00min
Lembro que torci o nariz só de saber do lançamento deste filme. 2 Filhos de Francisco - A História de Zezé Di Camargo & Luciano é o primeiro longa-metragem do diretor Breno Silveira. E uma boa surpresa. Não só vale o preço do ingresso, como vale deixar de lado todos os preconceitos que atentam contra a música sertaneja. A produção casa bem todos os elementos básicos do desenho cinematográfico. Roteiro, atuações, fotografia, montagem, trilha sonora, enfim, apesar de alguns deslizes, não há o que comprometa a boa qualidade do longa.ç
O filme passa distante do perfil de seriado de outras produções da Globo Filmes, como Lisbela e o Prisioneiro (2003), que primam pelo exagero e pela caricatura. Apesar da produção caprichosa, 2 Filhos de Francisco destoa do espetáculo televisivo. E a 'culpa' é do enredo.
Francisco Camargo (Ângelo Antônio) é um lavrador do interior de Goiás, pai de nove filhos. Ele põe uma idéia fixa na cabeça: transformar duas de suas crias em uma dupla sertaneja de sucesso. Da escuta do rádio velho de pilha, ele parte para a realização do sonho. O primogênito Mirosmar (Dablio Moreira) ganha um acordeon. Ao lado do irmão Emival (Marcos Henrique), eles são disciplinados pelo pai a fim de desenvolver o talento musical. A família enfrenta os apertos da miséria, entre alegrias e tragédias até o estouro de Zezé Di Camargo & Luciano.
O roteiro escrito por Patrícia Andrade e Carolina Kotscho foi um achado. A teimosia de Francisco é fielmente reproduzida, sem adaptação dos fatos reais. A história é rica em cenas dramáticas e - pelo verídico - momentos de comédia involuntária. Principalmente pela boa interpretação de alguns atores. E Ângelo Antônio é um. O ator está excelente na atuação do protagonista: um simples 'matuto', de bom coração. Márcio Kieling, apesar de carregar o estereótipo 'Malhação', está muito bem caracterizado como Zezé na fase adulta. A semelhança é clara.
No entanto, é José Dumont quem rouba a cena como coadjuvante. Na pele do empresário Miranda, ele é um figurão que se aproveita do talento dos irmãos Mirosmar e Emival na infância. Miranda sai a rodar pelo interior de Goiás com os meninos. E se torna um segundo pai, às vezes severo, outrora bastante cômico.
O figurino do personagem é impagável. A caracterização da época em que se passa a história, também. A cena que retrata um velho posto de gasolina no calor do interior goiano dos anos 70, ilustra o capricho. A fotografia de André Horta é fantástica. As viagens de Miranda com os garotos privilegiam a paisagem e os horizontes do sertão de Goiás. É como se fosse possível - através da visão das imagens na tela - sentir a aridez do local.
2 Filhos de Francisco ainda sim comete pequenos deslizes. O início amarrado dá a falsa impressão de que o filme não vai emplacar. O barulho da sanfona do garoto Mirosmar se sobressai - e perturba demais - perante a letargia do roteiro. Chega a lembrar o ritmo do fraco Eu, Tu e Eles (1999), outra produção ambientada no sertão, cujo enredo parece não atingir o clímax.
O segredo do filme é deixar-se envolver. 2 Filhos de Francisco é sensível, surpreendente. Um bom filme, nada de extraordinário. O clima da produção te envolve na levada de sucessos manjados do estilo sertanejo, como ''É o amor''. Simpatizei mesmo. Quando vi, já saí cantando a trilha sonora na volta pra casa. E não só porque esta tem Maria Bethânia - entre outros adorados pela crítica. Talvez fosse inspirado pela minha companhia na sessão, quem sabe?
O filme passa distante do perfil de seriado de outras produções da Globo Filmes, como Lisbela e o Prisioneiro (2003), que primam pelo exagero e pela caricatura. Apesar da produção caprichosa, 2 Filhos de Francisco destoa do espetáculo televisivo. E a 'culpa' é do enredo.
Francisco Camargo (Ângelo Antônio) é um lavrador do interior de Goiás, pai de nove filhos. Ele põe uma idéia fixa na cabeça: transformar duas de suas crias em uma dupla sertaneja de sucesso. Da escuta do rádio velho de pilha, ele parte para a realização do sonho. O primogênito Mirosmar (Dablio Moreira) ganha um acordeon. Ao lado do irmão Emival (Marcos Henrique), eles são disciplinados pelo pai a fim de desenvolver o talento musical. A família enfrenta os apertos da miséria, entre alegrias e tragédias até o estouro de Zezé Di Camargo & Luciano.
O roteiro escrito por Patrícia Andrade e Carolina Kotscho foi um achado. A teimosia de Francisco é fielmente reproduzida, sem adaptação dos fatos reais. A história é rica em cenas dramáticas e - pelo verídico - momentos de comédia involuntária. Principalmente pela boa interpretação de alguns atores. E Ângelo Antônio é um. O ator está excelente na atuação do protagonista: um simples 'matuto', de bom coração. Márcio Kieling, apesar de carregar o estereótipo 'Malhação', está muito bem caracterizado como Zezé na fase adulta. A semelhança é clara.
No entanto, é José Dumont quem rouba a cena como coadjuvante. Na pele do empresário Miranda, ele é um figurão que se aproveita do talento dos irmãos Mirosmar e Emival na infância. Miranda sai a rodar pelo interior de Goiás com os meninos. E se torna um segundo pai, às vezes severo, outrora bastante cômico.
O figurino do personagem é impagável. A caracterização da época em que se passa a história, também. A cena que retrata um velho posto de gasolina no calor do interior goiano dos anos 70, ilustra o capricho. A fotografia de André Horta é fantástica. As viagens de Miranda com os garotos privilegiam a paisagem e os horizontes do sertão de Goiás. É como se fosse possível - através da visão das imagens na tela - sentir a aridez do local.
2 Filhos de Francisco ainda sim comete pequenos deslizes. O início amarrado dá a falsa impressão de que o filme não vai emplacar. O barulho da sanfona do garoto Mirosmar se sobressai - e perturba demais - perante a letargia do roteiro. Chega a lembrar o ritmo do fraco Eu, Tu e Eles (1999), outra produção ambientada no sertão, cujo enredo parece não atingir o clímax.
O segredo do filme é deixar-se envolver. 2 Filhos de Francisco é sensível, surpreendente. Um bom filme, nada de extraordinário. O clima da produção te envolve na levada de sucessos manjados do estilo sertanejo, como ''É o amor''. Simpatizei mesmo. Quando vi, já saí cantando a trilha sonora na volta pra casa. E não só porque esta tem Maria Bethânia - entre outros adorados pela crítica. Talvez fosse inspirado pela minha companhia na sessão, quem sabe?
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