Vida & Arte
AUDIOVISUAL
Luz, música, ação!
A produção audiovisual de videoclipes no Ceará respira. E bem. Com a veiculação da TV União na mídia cearense e o acesso a recursos alternativos de realização, grupos do underground local lançam um clipe atrás do outro: Macula, O Sonso, Alegoria da Caverna, entre outros. Fora do circuito alternativo, a produção é escassa e desacreditada pela falta de investimentos. Ainda assim, há quem aposte, como a dupla Régis & Rogério
Felipe Gurgel
da Redação
18 Nov 2005 - 23h37min
Joe sonda os motivos dessa "falta". "Eu adoraria viver fazendo videoclipes, mas não tem mercado aqui no Ceará. Tem que ter grana, é um desafio a todas as limitações orçamentárias que você têm. Existe videoclipe no Brasil que custa mais que um longa-metragem. Requer equipamentos, softwares de finalização caríssimos", diz. Ele ainda aponta ingenuidade na produção do underground local. "Essa galera nova aposta muito pelo sonho. De estar começando agora, achando que as coisas vão acontecer. Na verdade, vejo artistas como o Paulo Façanha, David Duarte, meio desiludidos com o esquema", afirma.
Por outro lado, a cena independente se vira por outros meios. Sem dinheiro, foge de orçamentos. Lançado na última quarta, 16, no Teatro Sesc Emiliano Queiroz, "Dança do Sol", do trio Macula, foi realizado em parceria com a organização não-governamental (ONG) Fábrica de Imagens - um projeto de formação de videomakers <\I>na periferia de Fortaleza. "Não tínhamos dinheiro pra fazer, o custo que tivemos foi com transporte, essas coisas. Rolou uma parceria de troca de trabalho, fizemos um apanhado de shows para a Fábrica. Queríamos colocar o clipe como top de linha. Depois, a gente passou por algumas dificuldades: equipamento, tempo, iluminação. Mas acabou que a idéia superou todas as nossas expectativas", conta o baixista Antônio Arruda, responsável pela produção do clipe. Ele explica: "essa parte da produção é aquela coisa operacional. Organizar equipamentos, fazer contatos, ir atrás de comida para a galera da equipe".
O trio enxerga o diferencial da produção. A partir do lançamento, aguarda o retorno da aparição na mídia e olha adiante. "Já tem gente querendo fazer outro clipe nosso, no mesmo esquema, mas ainda estamos acertando como vai ser. É um passo. Agora a música tem um visual, é muito bom perceber cada frase ali. Ver e escutar é outra história. Vamos mandar o clipe para a MTV também, com quem já estamos assinando um contrato de sonorização de programas", diz o baterista Herveson Santos. Apadrinhando o feito, o diretor Luis Carlos Moreira - de apenas 20 anos - depõe: "fiquei satisfeito, porque foi meu primeiro videoclipe. Não tinha muita idéia do que iria fazer, já havia produzido alguns curtas. Toda a fotografia me surpreendeu. Aqui em Fortaleza, há ótimos lugares pra se fazer clipe. Praia, casa velha, sol que nasce e morre no mar. O que falta é investimento. O videoclipe deixa você experimentar, fugir do padrão do documentário, da ficção. A gente brinca de fazer clipe".
Seguindo a reflexão da linguagem, Joe Pimentel vê um "tudo permitido" no videoclipe. "Dentro do ponto de vista acadêmico, faz-se o que não é permitido, desconcerta-se a linguagem. Apesar de que, você tem de fazer bom uso desse 'tudo permitido´. Acho que você tem dois caminhos: seguir a letrar ou traduzir um clima, uma sonoridade", diz o videomaker. O diretor de fotografia Roberto Iuri - que trabalhou nos videoclipes "My Device", do 2Fuzz, e "E Assim Ficou", d'O Sonso - acredita que o clipe não sobrevive sem a âncora do artista. Iuri vê a produção como cartão de visitas. "Quem gosta de clipe, vê que é difícil você ter uma idéia original. O negócio é ter uma boa música, uma boa banda e fazer um trabalho honesto. Os independentes têm pouca grana, mas como não tem gravadora, não são privados de idéias", opina.
CONHEÇA OS CLIPES
Régis & Rogério, Forromântico (2005), direção: Ronaldo Nunes
Para quem viu e "despercebeu", vale rememorar: a dupla de irmãos gêmeos tinha assento no Massafeira - movimento artístico local que revelou o Pessoal do Ceará (Fagner, Ednardo, Belchior, entre outros) ao Brasil. Hoje, Régis & Rogério seguem uma linha romântica sorridente, ainda influenciados pela expressão nordestina. O clipe de "Forromântico" - o sexto da carreira - foi lançado no último Festival de Escargot da Taíba, em agosto. Desde então, a dupla vem exibindo o clipe por onde faz shows da turnê de Forró com Baião dos Dois. O vídeo lembra uma peça publicitária, na levada de um xote com tendências pop. Sob o "flerte" da dupla, a bailarina Carla Rocha parece pouco à vontade, ostentando um sorriso amarelo vez por outra. A produção é mais sofisticada em relação à média dos clipes cearenses. Gravado nas dunas da Taíba, o vídeo foi projetado em película de cinema, com uma boa definição de imagens. Está na programação da TV União.
Macula, "Dança do Sol" (2005),
direção: Luis Carlos Moreira
Pode-se dizer que o trio Macula "arriscou" o projeto de seu primeiro videoclipe. Foi a estréia da ONG Fábrica de Imagens em trabalhos do gênero. A ONG atua na formação de videomakers na periferia de Fortaleza e nunca havia produzido um clipe. O vídeo é limitado, dispõe de poucos recursos. Em foco, duas situações de cena: a banda tocando com a câmera tremida e a introspecção da atriz Laya Lopes - cantora do grupo cearense Quarto das Cinzas. O contraponto denota perturbação, em um duelo dos músicos frente a inquietude da moça. Laya aparece deitada, chorosa. É uma idéia concisa, sem tanta invenção. Plasticamente interessante. No entanto, a "viagem" da Macula permitia mais. O clipe ainda mantém um traço forte amador. Talvez pelo pioneirismo da produção. O final pinça o melhor: Laya dança coreografando com o sol ao fundo, em uma referência óbvia, mas fundamental para a adequação do roteiro à letra da música. O clipe será veiculado em breve na programação da TV União (canal 17 UHF e 21 da NET).
O Sonso, E Assim Ficou (2005),
direção: Nilbio The e Tiago Therrien
O quinteto lançou o segundo EP no último mês de setembro, no Amici´s. Na ocasião, o videoclipe de "E Assim Ficou" foi exibido em telão. O vídeo é bem seqüenciado, profissional, apesar da idéia batida. Ouvindo o repertório d`O Sonso, parece que o critério de escolha para o clipe foi a roupagem pop e o apelo comercial da faixa, entre canções mais competentes musicalmente, como "Cadê Você". Vê-se que atuar não é atribuição de músico, enfim, desconta-se: um ou outro integrante soa "constrangido" no vídeo, em alguns momentos. Além disso, as cenas da fila entre portas e um corredor lembram qualquer coisa de uma turma de comediantes, o que é normal pela idéia de descontração. A projeção de imagens sombreadas é o melhor recurso do clipe, enfatizando vultos - uma idéia comum, porém interessante. O clipe está na programação da TV União.
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