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Vida & Arte

ESTRÉIA

A manipulação de um preconceito

O segundo filme da trilogia de Lars Von Trier, Manderlay, entra em cartaz no Cinema de Arte/ Faixa Nobre. Continua a saga da persoangem Grace, de Dogville. Desta vez, Bryce Dallas Howard faz o papel que foi de Nicole Kidman no primeiro filme. O último episódio já está sendo produzido

Marcelo Miranda
Especial para O POVO

15 Dez 2005 - 22h29min

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GRACE agora é vivida pela atriz Bryce Dallas Howard em Manderlay/FOTO DIVULGAÇÃO
Lars Von Trier tem um plano. Inconformado com a forma como os EUA vêm tratando os próprios problemas e os do mundo, o diretor dinamarquês que várias vezes deu novo fôlego ao cinema contemporâneo (em trabalhos como Ondas do Destino, Festa de Família e Dançando no Escuro) decidiu apontar suas armas para a América e liderar quase uma guerra santa contra Bush e asseclas através do cinema. Mas, inteligente como é, Von Trier bolou uma história que, apesar do foco no algoz, serve de parábola universal sobre a natureza humana, a manipulação, o preconceito e a injustiça. Dividiu-a em três partes, decidiu dar atenção total ao enredo, tirou a cenografia, manteve apenas objetos de cena e marcas no chão e bebeu na fonte do dramaturgo Bertold Brecht. O primeiro filhote desse processo foi Dogville, que causou frisson no Festival de Cannes de 2003.

Depois desse impacto há dois anos, chega agora aos cinemas Manderlay, segunda parte da trilogia. Com dois terços da saga de Grace definidos, e olhando em retrospecto, o filme anterior parece se tornar um trabalho ideologicamente infantil - apesar de muita gente já considerá-lo assim desde a estréia. A força de Dogville não diminui, mas Manderlay, que repete a falta de cenários e a linguagem narrativa de antes (com divisão em capítulos e narração em off), o supera em diversos aspectos.

A começar pelo foco: a escravidão e o racismo na América. Quando a personagem Grace chega a uma fazenda que, 70 anos após a abolição dos escravos, mantém negros no antigo regime, ela decide assumir o local e coloca gângsteres do pai para ajudar na imposição de sua própria visão do que é correto. A crítica mordaz à política norte-americana surge logo de cara: Grace não questiona a necessidade de seus atos. Ela acredita na visão pessoal e a leva até o fim, independente de opiniões alheias - exatamente, aliás, como o próprio Von Trier faz na posição de diretor.

Só que, com o passar do tempo, a moça compreende que nem sempre o olhar particular é o correto. E aprende da forma mais dolorosa o quanto o "ajudado" pode deixar de ser vítima para se tornar algoz, num efeito inverso ao que acontecia na cidade de Dogville com a mesma Grace. Ao final (sem contar detalhes, para não estragar surpresas), o recado óbvio é de que provavelmente a América ainda não consegue lidar com as dores e chagas de seu passado, e pra isso tenta consertar as coisas no mundo à sua maneira. No fundo, o filme é sobre uma ditadura frustrada, uma tentativa mal sucedida de impor regras num universo que já as possui ao seu modo particular.

Manipular o espectador já é praxe no cinema de Von Trier: o diretor tem a incrível capacidade de levar seu público até o limite, fazê-lo pensar como os protagonistas, sofrer com eles ou "apoiar" as ações que eles tomem. Mesmo que esse espectador tenha plena noção dos recursos de linguagem para se chegar a tanto, parte do talento do dinamarquês está em saber criar esses artifícios e conjugá-los de forma a criar uma fruição quase prazerosa e sádica com o que se vê na tela. Era o que acontecia não apenas em Dogville, mas nos demais trabalhos do cineasta em que a mulher era peça-chave da narrativa.

No caso de Manderlay, a força é mais certeira. O filme não é apocalíptico como o capítulo antecessor, nem tão utópico ou simplista na resolução dos conflitos. Visualmente, vai além das amarras do não-cenário para experimentar sensações como uma tempestade de areia, grande momento da ação. A narrativa é mais pé-no-chão, preocupa-se em criar outros tipos de laços entre os personagens, desenvolve relações com ênfase na desconfiança e descrença. A maior demonstração nesse sentido é o envolvimento de Grace com um dos escravos: ela está sedenta por sexo e paixão. A pele negra, o suor e o calor, tudo mexe com ela e a deixa cega a certos elementos que poderiam evitar a posterior desilusão. Esse maior minimalismo na criação da personagem está impresso em Bryce Dallas Howard, que substitui Nicole Kidman no papel principal e consegue evitar comparações com a atriz anterior. São dois trabalhos de criação distintos, apesar de serem da mesma personagem.

O que soa muito positivo. Se inicialmente a ausência de Kidman aqui se devia a outros compromissos de trabalho (tem quem diga que ela não suportaria continuar às ordens de Von Trier), e a presença de Howard era para tapar esse espaço, não poderia ter ocorrido algo tão oportuno. No fim de Dogville, Grace se mostrava capaz de atos monstruosos. Agora ela tem uma outra face - literalmente. A nova atriz é fisicamente menor e mais frágil que Kidman, mas o semblante traz o rosto da amargura, ressentimento e dor que lhe foram infligidos. Muito vem do talento de Dallas Howard (demonstrado com louvor em A<\I> Vila), mas também das intenções do diretor em tornar a protagonista, a "heroína", mais complexa. Grace amadurece junto com o filme. E a julgar pelas provações às quais ela volta a passar, na última parte da trilogia (Wasington), a sofrida moça aparecerá de novo modificada.

[ Marcelo Miranda é jornalista de Juiz de Fora (MG), é editor do Canal Cinefilia (www.canalcinefila.com.br) e colunista do site Digestivo Cultural (www.digestivocultural.com.br).


SERVIÇO
Manderlay (DIN/HOL/ING/SUE/FRA/ALE, 2005) De Lars von Trier. Com Bryce Dallas Howard, Isaach De Bankolé, Willem Dafoe, Danny Glover, Michael Abiteboul, Lauren Bacall e Jean-Marc Barr. 139min. Cartaz do Cinema de Arte e da Faixa Nobre. No Multiplex Iguatemi 12, às 21h30 (sexta), 10h45 (sábado) e 19h30 (Faixa Nobre - de segunda a quinta). 16 anos.

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