Vida & Arte
SHOW
Bons ventos
Os Los Hermanos se afirmam como fetiche da música pop no Brasil. Após uma série regular de shows em Fortaleza em sete anos de carreira, o quarteto levou um público dedicado à Praia do Futuro no último fim de semana. Foi a estréia dos Hermanos na Biruta
Felipe Gurgel
da Redação
23 Jan 2006 - 04h31min
Em 2005, fez 14 anos. A comemoração teve show da Nação Zumbi - já afinada sem o saudoso Chico. Adentrando 2006, a Biruta debuta, suspira e evidencia bons ventos: na última sexta, 20, foi a vez dos cariocas do Los Hermanos pisarem pela primeira vez no palco da barraca e lançarem o repertório do quarto disco de carreira, 4, à famigerada legião de fãs da capital cearense. Foi o décimo show dos Hermanos em Fortaleza - somando sete anos de estrada. Os que foram ao último Ceará Music, em outubro do ano passado, viram um ensaio geral do set list - dedicado ao último CD - dessa sexta.
Marcelo Camelo (voz e guitarra), Bruno Medina (teclados), Rodrigo Amarante (voz e guitarra) e Barba (bateria) já não têm mais por onde cavar espaços aqui. A exemplo do que acontece em várias regiões do País, a "beatlemania" do quarteto se alastrou. Ouse tentar escutar as vozes de Camelo e Amarante, sem intervenções, ao vivo. O público canta tudo. Das canções arrastadas às contagiantes.
O nome sólido na cena da música pop brasileira tem sua razão: a tríade Bloco do Eu Sozinho (2001), Ventura (2003) e agora, 4 (2005). Os três álbuns revelaram uma inspiração surpreendente para uma banda antes marcada pela estréia simples ( Los Hermanos, 1999) e um hit chiclete (Anna Júlia). Vê-se um esforço do quarteto a fim de escapar dos rótulos. "Nova MPB", "MPB-rock", de tudo já inventaram para enquadrar o que ficou difícil definir. Uma música de cada, até fica mais fácil.
Os Hermanos no palco são o que são, ao que parece. O tecladista Bruno Medina só se faz notar pela presença física. Dá impressão de estar com a cabeça em qualquer lugar, menos ali. Como quem acordou e esqueceu de lavar o rosto. A linha de frente - Amarante e Camelo - esboça uma performance mínima. O primeiro dança feito um boneco de corda, "ginga" de passo em passo.
As canções de Amarante são os alicerces do novo repertório. A belíssima Primeiro Andar ; Condicional e o hit O Vento, duas pérolas pop, provam o trunfo. A interpretação peculiar do "Ruivo" tem sua graça ao vivo. É aquela voz despojada. Típica do mais espontâneo cantor de chuveiro, no sentido honesto da expressão.
Camelo, por outro lado, tomou-se por uma inspiração "Lado B" em 4: Horizonte Distante é triunfante. Morena e Fez-se Mar, extremamente sutis. Se por um lado o compositor não manteve o vigor dos dois álbuns anteriores, Camelo fez um link interessante através da composição dos novos arranjos: a sonoridade se assemelha ao capricho de influências de parte dos fãs da banda, como Radiohead e outras referências do rock alternativo dos anos 90.
Os detalhes dos arranjos escapam aos ouvidos mais desatentos. Na Biruta então, a história complicou. O som embolado - problema de praxe em shows na casa - prejudicava a clareza das nuances. Para um grupo que opta por uma afinação incomum (meio tom abaixo do padrão) e acordes dissonantes, pior ainda. Barba socava a bateria e o som saía "distante", perdido no bolo sonoro.
Apesar dos problemas técnicos, o show foi preciso. Amarante fez jus à história da Biruta. "Sempre quis tocar aqui", disse. O essencial estava lá: Todo Carnaval tem seu Fim, Cara Estranho, A Flor. Além de boas surpresas: Casa Pré-Fabricada - canção do Bloco... "esquecida" durante a longa turnê do Ventura - apareceu no bis. A banda hoje se torna figura batida do período de férias em Fortaleza. Provação para a beatlemania dos Hermanos? Sem muita pretensão, Amarante já "cantou" essa: "O vento vai dizer lento o que virá...".
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