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Maria de alma e cheiro

Em entrevista ao Vida & Arte, o cineasta francês Georges Gachot fala sobre seu documentário Maria Bethânia - Música é Perfume, que estréia hoje em Fortaleza. Além de abordar o processo criativo da intérprete, o longa-metragem procura mapear o contexto histórico da música popular brasileira

Camila Vieira
da Redação

05 Mai 2006 - 03h56min

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MARIA Bethânia, cantora brasileira é tema do documentário Maria</I> Bethânia</I> -</I> Música</I> é</I> Perfume,</I> dirigido pelo documentarista francês Georges Gachot
Por 15 anos, o cineasta francês - radicado na Suíça - Georges Gachot filmava documentários sobre música clássica. Quando viu Maria Bethânia no palco do Festival de Jazz de Montreux, Gachot decidiu que a cantora brasileira seria a principal personagem de seu mais recente longa-metragem: Maria Bethânia - Música é Perfume. De 1998 a 2003, o documentarista dedicou-se à pesquisa não só sobre Bethânia, mas sobre a música brasileira. Para convencer a intérprete a participar do filme, Gachot enviou à cantora uma cópia do seu documentário Conversas Noturnas, sobre a pianista argentina Martha Argerich - amiga do brasileiro Nelson Freire.

Produzido pelo canal francês ARTE, Maria Bethânia - Música é Perfume aborda o processo criativo da cantora, fazendo um paralelo com as transformações sociais ocorridas no Brasil. O documentário registra as gravações do álbum Brasileirinho, bem como os shows de Bethânia, além de colher depoimentos de Chico Buarque, Gilberto Gil, Nana Caymmi, Miúcha, do diretor musical Jaime Alem e de dona Canô Veloso, mãe de Bethânia. "Não é um filme sobre uma cantora brasileira famosa, mas uma visão sobre uma artista única e uma busca sobre a origem da inspiração e da energia que deram luz a isso", afirma Gachot. Em entrevista por e-mail ao Vida & Arte, Georges Gachot conta como foi seu primeiro encontro com Maria Bethânia, fala sobre a pluralidade da música brasileira e comenta sobre o processo de produção do documentário.

O POVO - Como surgiu a idéia de fazer o documentário?
Georges Gachot - Minha vida é música e minhas visões musicais nos filmes. A música me levou à carreira cinematográfica em 1989. Durante 15 anos, rodei filmes apenas sobre música clássica e, certo dia, em 1996, um amigo me levou a um concerto da Maria Bethânia no Festival de Jazz de Montreux (na Suíça). Este concerto foi uma revelação para mim, porque não tinha qualquer relação com o Brasil ou sequer conhecia a música brasileira. Fiquei bastante impressionado pela Bethânia como artista, sua dramaturgia no palco, seu riso e sua generosidade, seu repertório e, sobretudo, sua musicalidade. Foi também a primeira vez que fiquei no meio do público, do povo brasileiro que estava cantando e quase respirando a artista no palco. Lembro também que a estrutura das melodias de cada música que ela cantava me agradou muito. Havia intervalos que levavam a melodia a algum lugar que eu nunca escutei antes e nunca acabava no kitsch.

OP - Entre tantas boas cantoras brasileiras, por que escolheu Maria Bethânia?
Gachot - Mesmo que hoje eu conheça mais sobre a música brasileira e ame, é claro, outras intérpretes brasileiras, a arte de Bethânia é muito próxima a mim. Sei que nunca confundo com meus sentimentos musicais e tenho este dom de ser capaz de voltar às minhas primeiras impressões ou sentimentos. Hoje quando escuto o CD Maria Bethânia - Ao Vivo, ainda recordo deste concerto de 1996 em Montreux. De alguma forma, a Bethânia me deu “a luz” à música brasileira. Não dá para esquecer isso. Sei sobre sua carreira e tenho vários CDs dela, mas não todos. Não sou especialista da carreira nem da vida de Maria Bethânia. Todos os dias aprendo mais sobre ela, que ainda me surpreende. Não gosto de brincar o jogo dos famosos. É mais importante se perguntar por qual motivo gosta de algo e não porque todo mundo diz o quanto é legal. Maria Bethânia - Música é Perfume não é um filme sobre uma cantora brasileira famosa, mas uma visão sobre uma artista única e uma busca sobre a origem da inspiração e da energia que deram luz a isso. Fiz honestamente, porque em um filme musical como esse, você não pode esconder e o público sentiria o seu jogo. Este filme tocou inclusive muitas pessoas que não conheciam Maria Bethânia. Isso me deixou muito feliz.

OP - Ao analisar sua filmografia, constatamos que sua especialidade é filmar documentários sobre música clássica. O que você encontrou na música popular brasileira que lhe instigou?
Gachot - Riqueza e mente aberta. Inclusive esse é o segundo significado do título do filme: Música é Perfume. Quer dizer que a música brasileira está em permanente desenvolvimento e se mistura com outros estilos musicais de qualquer lugar. Todos os dias encontro influências da música clássica. Só aqui os CDs de Tom Jobim ou Amoroso, de João Gilberto. A música clássica hoje pode aprender muito com a música brasileira. Às vezes, sonho com Mozart chegando ao Brasil e compondo uma ópera em português. Ou você consegue imaginar o que aconteceria se Schumann ou Bach conhecessem a Bossa Nova?

OP - Quando você encontrou Maria Bethânia pela primeira vez?
Gachot - Em Lisboa, nos encontramos pela primeira vez e eu nem falava português. Gosto de dizer que eu e a Bethânia nos comunicávamos por inteligência musical. Não precisamos de um tradutor para compreender um ao outro. Depois de 30 minutos, ela me levou para escutar a versão não mixada do álbum Brasileirinho. Dois meses depois, eu viajei até o Rio de Janeiro para a primeira filmagem.

OP - Como foi o processo de seleção dos entrevistados do documentário?
Gachot - É claro que fiz todas as entrevistas sozinho. Para tanto, usei um tradutor no set. Mas devo dizer que nunca faço entrevistas do tipo “perguntas e respostas”. Prefiro discutir livremente e nunca preparar qualquer questão antes. Para mim, uma entrevista filmada deve ser uma reflexão de um momento gasto entre duas pessoas que compartilham pensamentos, reflexões e, acima de tudo, emoções comuns. Gosto de dizer que prefiro emoção que informação. Ou se a emoção é algo informativo, deve ser o mais forte, porque vem de uma relação humana.

OP - Que dificuldades aconteceram durante o processo de produção do filme?
Gachot - Esqueci todas as dificuldades que aconteceram, porque fazer esse filme trouxe-me tanta felicidade. Para mim, as dificuldades foram mais morais: quando você sabe que precisa criar um filme sobre uma das grandes cantoras que já conheceu. Sempre espero que tenha alcançado o patamar da arte de Bethânia.

OP - Para finalizar, qual sua cena dileta no filme?
Gachot - A música Estrela do Mar é a cena chave deste filme. Em primeiro lugar, por causa desta maravilhosa canção (música e texto), que consegui transportar como um momento musical forte para a edição e para a mixagem de som. A transição de diferentes lugares funcionou perfeitamente e aquele momento no filme... O observador não deve saber se está no céu ou ainda na terra. Por muito tempo, pensei em dar o título do filme de Estrela do Mar.

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