Vida & Arte
DOCUMENTÁRIO
Documentário Assalto chega à Discovery no segundo semestre
A cobertura feita pelo O POVO do assalto ao Banco Central, no ano passado, inspira o documentário Heist, da emissora Discovery Channel. Escrito e dirigido pelo diretor inglês James Erskine, o filme está em fase de montagem e tem co-produção de produtoras Limite Produções e Terra Vermelha Imagens
23 Mai 2006 - 02h19min
Escrito e dirigido pelo inglês James Erskine, o filme, intitulado Heist (gíria que significa "assalto", em inglês), é um docudrama. "A parte documental visa a contemplar a investigação e a busca pelos ladrões e o drama intenta reconstruir o plano e a execução do assalto, bem como alguns momentos da polícia. O filme começa no 8 de agosto, quando o buraco foi achado no cofre do banco, e segue a descoberta de pistas em ordem cronológica, o que ajuda a entender melhor como o assalto foi executado e por quem", diz o diretor. A dramatização foi feita principalmente em torno de quem estava na quadrilha - com destaque para "Paulo Sérgio" (interpretado por Ronaldo Reis), único assaltante que mostrou o rosto, ao abrir a firma de grama sintética. Curiosamente, sua identidade falsa, em cuja foto ele usava um gorro preto, tem aniversário dia 6 de agosto - exatamente o dia do furto. Para criar as cenas do furto, alguns sets foram construídos em um estúdio no Rio de Janeiro, inclusive versões, em escala menor, do cofre do banco, do túnel e da sala de grama sintética de onde a escavação teve início. De acordo com Erskine, toda construção foi baseada em relatórios e fotografias policiais, depoimentos judiciais dos acusados e de testemunhas. A parte documental, que envolve as entrevistas, foi feita, claro, em Fortaleza e em São Paulo.
Heist, co-produzido pelas produtoras brasileiras Limite Produções e Terra Vermelha Imagens, se constrói e se desenvolve a partir da série de matérias publicadas pelo jornal O POVO, ganhadora do Prêmio Esso Regional Nordeste de 2005. De acordo com Erskine, os jornalistas Demitri Túlio, Cláudio Ribeiro, Luís Henrique Campos e Flavio Pinto serão personagens de destaque no filme, ao falar sobre como a história se desdobrou na mídia. "Eu me lembro muito bem. Eu tava em casa, com dengue, ouvi no rádio, liguei pro pauteiro e disse: 'houve um assalto na 25 de março; descobriram um túnel dentro do banco'. Eu liguei umas 10:30, as notícias chegaram às redações quase ao mesmo tempo. Mandaram repórter e a história foi se desenrolando", rememora Cláudio Ribeiro. "O assalto ao BC é uma coisa factual que, ao longo do dia, foi-se vendo que era uma grande reportagem. Quando se viu que tinha um buraco que atravessava uma rua e chegava ao banco mais seguro do Ceará, está derrubado o mito de segurança", diz Demitri. Para a cobertura do primeiro dia, foram disponibilizados cerca de 15 repórteres, e capa e primeiro caderno foram dedicados ao caso.
De acordo com os dois jornalistas, para uma reportagem ser bem-sucedida - principalmente no chamado jornalismo investigativo - é necessário atentar para o cruzamento de informações (constante checagem) e para a postura adotada em relação às fontes. Sobre o primeiro ponto, no caso específico do BC, Demitri conta como a equipe descobriu a "casa do Mondubim", onde funcionava a segunda base da quadrilha. "Uma pessoa ligou para o jornal e disse: 'olha, a minha empregada viu no (programa) Barra Pesada o cara e começou a se tremer, dizendo que era um patrão dela'. Quando passou a informação pra gente, a gente foi checar. Podia nem ser, mas era. Era o Rogério 'Bocão', irmão do Charles (Morais), que fez a negociata dos carros. A gente começou a pegar informações de quem era o telefone, aquele endereço está no nome de quem, aí começaram a aparecer os nomes". A partir daí, as tarefas foram entrevistar vizinhos, comparar fotos, cruzar dados. "É uma coisa que parece meio Jack Bauer, essa história da checagem. Mas é informação jornalística; na hora de checar, você tem que fazer isso até o finzinho", diz.
Cláudio atenta que, no processo, é necessário ganhar confiança das fontes; mesmo porque a informação chegou devido à confiança depositada no jornal, no jornalismo - e não na polícia. "Confiança, você ganha. Às vezes é um gesto que você faz", diz. Esse é o segundo ponto: a postura adotada. Demitri conta de estar em um bar próximo à casa da rua 25 de Março quando chegou uma repórter de televisão "toda pintada, cabelo na chapinha, com roupa diferenciada". "A gente tava bebendo água mineral tentando saber o que eles comiam, não comiam, bebiam, não bebiam etc. Aí a repórter entra chamando atenção e grita 'quem é o dono do estabelecimento?'. Aí o pobre do homem que tava conversando com a gente quase que se treme". A falta de sensibilidade da jornalista resultou na negação do homem em lhe conceder entrevista - e quase pôs em risco o processo de apuração desenvolvido pelos outros jornalistas. Ainda sobre jornalismo investigativo, Demitri avalia que qualquer matéria factual tem potencial de grande reportagem, como até mesmo a queda de uma senhora na calçada. "Eu posso fazer uma grande reportagem sobre isso: em todas as calçadas de Fortaleza, quantas pessoas caíram, por que elas não entraram na Justiça para pedir indenização do Município? Depende da luz que você vai dar à pauta e da discussão que você vai colocar em torno e dentro dela", explica.
Sobre a situação atual do caso e suas perspectivas de resolução, os jornalistas acreditam que, até agora, pouco se avançou e que ainda vai ser preciso muito tempo - e muito trabalho da polícia. "Você tem as gangues brigando, a polícia ainda tentando descobrir roteiro de fugas, gente que morreu, seis seqüestros no caso... Está começando a se desdobrar para parentes de quem assaltou... Você tem mortos, suspeita de que esse assalto esteja financiando muitos outros assaltos, pessoas apareceram... É novelesca, a história", diz Cláudio. "O certo é que essa história não acaba daqui a dez anos. Ela vai se desfazendo até quando a gente estiver fora do jornal", emenda Demitri.
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