Vida & Arte
Pré-Carnaval
Para além da folia
Fazer um Pré-Carnaval não é fácil, mas todo mundo se diverte. Carnavalescos de três blocos da cidade toparam contar como é isso
06 Fev 2010 - 18h55min
Carnavalesco que se preze é também um pouco (ou plenamente) boêmio. Na última quarta-feira, quando resolvemos chamar três representantes do Pré-Carnaval de Fortaleza para discutir e debater o Pré, o Carnaval, o papel do poder público e a delicada questão da música nessas festas, a escolha pelo local do encontro recaiu sobre um bar, no também boêmio bairro da Praia de Iracema. Na noite limpa e ainda quente como o dia, Felipe Araújo, um dos organizadores do bloco Unidos da Cachorra, Marcus Vinícius, também à frente, ao lado de outros, do Concentra Mas Não Sai, e James Alves, que montou junto com os amigos o Pery Boneco, que levou, nesses finais de semana de Pré, cerca de 15 mil pessoas para as ruas da Vila Pery, conversaram calorosamente sobre o tema.
A camisa dos respectivos blocos estampava o peito de cada um dos entrevistados, mas essa singularidade não encontrava um paralelo no discurso deles. Os entrevistados não falavam apenas por si: ``Todos os blocos se ajudam, conversam entre si. Pode anotar aí: esse foi o Pré-Carnaval mais cooperativo de todos os anos``, frisou James, que se auto definiu como cria do Concentra. Sobre a eterna dúvida se Fortaleza teria fôlego para oferecer um Carnaval tão animado e procurado como o Pré, Felipe é categórico: ``Eu não tenho dúvida que daqui a dois ou três anos esse Carnaval vai ser referência``. Mas todos concordam que esse movimento não é fruto de um passe de mágica. É preciso cooperação e desejo dos foliões. Sem isso, não havia tido Pré, nem pode haver um Carnaval diferente. (Júlia Lopes)
O POVO - Como vocês definem esse momento atual, como a cidade está com relação ao Pré?
Felipe Araújo - O que me chamou atenção nesse movimento todo do Pré-Carnaval é um movimento de resgate da relação do fortalezense com o espaço público. O fortalezense tem uma relação meio estranha com seu espaço público. Ele não vai à praia, ele vai pra uma barraca de praia. Ele tem o hábito de procurar relações privadas em espaços públicos. O Pré-Carnaval veio um pouco pra abrir uma nova possibilidade do fortalezense com seu espaço público. É uma festa democrática, espontânea, popular, que recebe o apoio do poder público. Em todos os lugares onde o Pré-Carnaval acontece, ele vai pra rua. Isso é muito saudável no formato do Pré-Carnaval da cidade.
Marcus Vinícius - Eu acho que hoje a cidade tem o Pré-Carnaval, ponto. Hoje você tem as grandes festas populares que tem aqui: Réveillon, Pré-Carnaval, Carnaval, São João e Natal. São emblemáticas. Eu acho que o Pré-Carnaval se sobressai em relação às outras. E é muito pelo que o Felipe falou. É um acesso fácil, democrático, é uma festa da diversidade e a divisão espacial. Em toda cidade você tem blocos. Faltava pra cidade esse oferecimento dessa brincadeira, essa curtição.
James Alves - Além do que o companheiro falou, da gente estar ocupando os espaços públicos & o ideal era que não se ocupasse só nas festas & hoje o Pré-Carnaval não se concentra mais só na Praia de Iracema. Hoje você tem blocos apoiados pela Prefeitura por toda cidade. E aqui eu quero fazer uma comparação: ano passado, eu fui ao Rio de Janeiro e lá se tem um clima de Pré-cCrnaval que Fortaleza tem muito parecido. Fortaleza está se firmando como a Capital do Pré. Não só na área nobre da cidade, mas na periferia. O nosso bloco, Pery Boneco, levou 15 mil pessoas no sábado passado (30 de janeiro) para a rua. Tem vários blocos da periferia, e com eles você consegue desafogar os grandes Pré-Carnavais da cidade. O pessoal que ia pro Concentra não vai mais, porque vai nos blocos do bairro. A gente é cria do Concentra & a gente ia da Vila Pery pra brincar Carnaval no Papicu, passava por dois terminais, fazia baldeação. A gente pensou: se no Papicu pode ter Pré-Carnaval porque a Vila Pery não pode? E é difícil porque é bloco que só toca marchinha. Mas hoje os jovens da periferia amam as marchinhas que tocam no Pery Boneco. Aparece um carro pra botar Bahia, a negada desliga. O povo comprou essa ideia. Isso na periferia! Essa identidade cultural, os blocos estão, de certo modo, resgatando. Então eu diria que além de ocupar os espaços públicos, nós estamos também resgatando a cultura & dos nossos pais, dos nossos avós.
OP - Isso aconteceu com o Concentra também, não foi? O crescimento repentino, o fato de ter ensinado muita coisa para os mais jovens. Fora que tem um processo de formação de novos músicos...
Marcus - Quando a gente foi pra Praça do Ferreira, há cinco anos, a gente ouviu muito depoimento de pais de jovens dizendo isso: muitos jovens não conheciam a Praia do Ferreira. Isso o que ele falou é importante porque muitos jovens passaram a conhecer a Praça do Ferreira e as marchinhas com o Concentra. A outra questão é que: se tem o pessoal formando batuqueiros, você não tem ninguém formando músico de sopro para cumprir uma exigência do edital. O edital exige que tenha música de raiz (eu não sei o que diabo é isso) e marchinha. Uma coisa é o samba como o Felipe trabalha com o bloco dele que é bateria, é percussão. Outra coisa são sopros: que está nas mãos ou da Polícia Militar, ou dos Bombeiros, e das prefeituras. Os músicos do Concentra são de Aquiraz, por exemplo.
Felipe - Essa coisa que o Marcus falou é muito importante. Quando fui recentemente a Recife, conversando com o (João Roberto) Peixe, ex secretário de cultura. Ele falou que chegou a um momento que eles estavam com problema seríssimo de encontrar músicos de sopro. E lá é a terra do frevo. Começaram a abrir umas escolas espontaneamente, alguns projetos de formação musical. Isso que o Marcus falou aponta para um processo muito interessante: o Pré-Carnaval atuando numa esfera de formação de músico, sejam músicos amadores, diletantes, sejam profissionais. E só pra retomar uma questão que o James falou sobre o Rio de Janeiro, não há, no Brasil & e eu digo isso com a maior tranquilidade & um Pré-Carnaval como o de Fortaleza.
James - Mas tem amigos nossos que estão no Rio pra brincar o Pré. E outra coisa: os fortalezenses sabem que existe o Concentra e o bloco da Cachorra, mas não sabe da periferia.
Marcus - E você sabe por que? Porque a imprensa de um modo geral não cobre a periferia.
Felipe - É, a cidade ainda está se conhecendo como a cidade do Pré. Essa agenda, daqui a pouco, se firma.
OP - Vocês falaram de ocupar o espaço público, e a gente percebe dessa espontaneidade dos blocos. Foi dito também sobre a formação de músicos. Como vocês avaliam o papel do poder público nesse processo?
Felipe - O edital me parece um instrumento muito saudável pra condução do apoio financeiro da prefeitura. A estrutura logística, ou seja: apoio de Guarda Municipal, de trânsito, de limpeza, ano a ano tem tido uma melhora significativa. No entanto, essa demora, no meu entendimento, não acompanha a demanda que cresce exponencialmente a cada ano. A Prefeitura meio que sempre se pega de surpresa com o contingente de gente. E me parece que o Governo do Estado tem uma relação conflituosa & haja vista a dificuldade que foi para alguns blocos conseguir policiamento esse ano. Não há um encantamento, por parte do Governo do Estado, em relação ao Pré-Carnaval de Fortaleza.
Marcus - Isso tanto é verdade que o Estado tem um programa de férias (Férias no Ceará) com um monte de banda pop no Cocó e que no mínimo podia botar pra julho e acertar uma coisa com a outra. Tem público pra todo mundo & tudo tá lotado & mas isso poderia estar gastando dinheiro em outro momento. E tem outra coisa: na periferia ou no Centro ou na Praia de Iracema, não se registra tanta violência, tanta briga, tanta confusão quanto nos shows dos Skanks da vida & nada contra o Skank. A violência está lá. Você tem um problema de efetivo policial. É um problema que, se o Carnaval começar a funcionar, vai ser maior. Quando chega o Carnaval, a polícia vai toda para o Interior. Se começar a funcionar o Carnaval & que deve começar, e não depende só do poder público, mas da gente & o Estado não tem uma sincronia com a Prefeitura. E a prefeitura não tem grandes paixões pelo Pré-Carnaval e o Carnaval. Tem pessoas que se jogam de corpo e alma. Mas tem gente que acha atrapalha o trânsito, as pessoas. Atrapalha mesmo. Mas essas coisas que crescem exponencialmente, como o Felipe colocou, tem que ter ajuda do poder público. O que aconteceu é que a Prefeitura, com o edital, favoreceu e muito o surgimento de blocos novos, outros já existiam há muito tempo... Isso facilita. Agora, há blocos e blocos. Na hora que você cria o bicho, como o Concentra, o Pery, você tem um custo 10 vezes maior e você tem que dar uma diferenciada mesmo. O bloco Unidos da Cachorra: se não tiver apoio ali....
Felipe - Tem uma questão & voltando àquela questão inicial & tem um diabo aqui em Fortaleza chamado paredão de som. Esses caras vão acabar com o nosso Pré-Carnaval. Alguns jornalistas & e me parece que alguns jornalistas cínicos, que abordam esse tema de maneira cínica & colocam que o Pré-Carnaval ``é direito de quem tá brincando``. Essa é uma discussão cínica. Os blocos vão até 21h, 22h. O que se prolonga são aqueles carros de som. E não há controle disso. Recai sobre os blocos.
Marcus - Quem é De Bem Fica acabou por isso.
Felipe - Então, eles obrigam todos a ouvirem uma música de gosto duvidoso e comprometem os blocos. Taí o exemplo. Eu acho que a gente tem hoje, no Pré-Carnaval de Fortaleza, e o Carnaval vai ter também, um inimigo muito claro.
James - Voltando para a pergunta, o poder público municipal tem ajudado muito com o edital. Mas tem ajudado como? O Pery Boneco sai quatro sábados de Pré, mas só no primeiro sábado a gente come o dinheiro do edital. Se não tiver os patrocínios, a gente não consegue sair nos outros sábados. A Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) vai ter que rever essa política de edital. Não dá pra gente, que bota 15 mil pessoas na rua, receber o mesmo valor que outros blocos, que botam 100 perto de uma caixa de som com CD pra tocar. A Secultfor vai ter que fazer fiscalização: ir aos blocos, ver os banheiros químicos que tem que ser contratados, a segurança, se estão tocando as músicas mesmo... A secretaria peca nisso aí. Já o Governo do Estado não entendeu o que é o pré-carnaval, uma festa que coloca gente na rua e ao dá uma confusão, não dá uma briga.
Marcus - O Edital é a menor contribuição que pode ser dada. O edital da Prefeitura para o Pré-Carnaval é seis vezes menor que o do Carnaval. Dados de 2008. Mas tem diferenças, no Carnaval o edital financia tudo. Mas imagina o que movimenta o comércio ambulante na economia de janeiro em Fortaleza. O músico recebe de R$ 80 a R$ 100 por bloco. Essa economia que se move no Pré-Carnaval é enorme a partir de um incentivo financeiro pequeno. Tem que melhorar a infra-estrutura, contratar mais guarda municipal.
OP- Como seria, então, um Carnaval & tendo em vista esse quadro?
Marcus - Que me desculpe o pessoal da Domingos Olímpio, mas Carnaval não pode ser desfile. Desfile eu vou lá pra ver e no Pré eu vou lá pra fazer parte da festa. No Pré-Carnaval é democrático, ninguém é obrigado a comprar a camisa, você tá metido no negócio. Não vamos ser hipócritas: hoje você tem Recife, Salvador e Rio de Janeiro & não adianta dizer que o Carnaval é o Brasil todo. Então, se é pra imitar, vamos copiar o que é bom: Recife e Rio de Janeiro. Ano passado, se você saía dos blocos, você vinha pra cá, pra Praia de Iracema, ver show de forró. Tem que ter dinheiro pro Carnaval além do que tem para as agremiações.
Felipe - O Carnaval hoje se pretende a ser um espetáculo, uma ópera tupiniquim, mas se tornou esquizofrênico: não é nem uma coisa nem outra. Porque eu digo que essa relação da Domingos Olímpio é meio esquizofrênica? No Rio, você tem escolas que são agremiações de bairros. Por exemplo, a Portela faz cortejo em Madureira. Ela aglomera a comunidade em torno do projeto do desfile, que acaba se tornando só a ponta do iceberg. Ao longo do ano, o pessoal tá lá costurando, compondo. A mesma coisa a Vila Isabel, Império Serrano. Aqui nós temos agremiações maravilhosas. E eu digo isso pelo esforço que é colocar um bloco de maracatu na rua. É louvável. No entanto, qual é o mecanismo, e o poder público podia entrar nisso, que é utilizado para aproximar a comunidade daquelas agremiações? Esse sentimento de pertença, me parece, ainda não está muito maduro na cidade.
James - Na verdade, as pessoas que fazem o Carnaval não entendem o Carnaval. Com todo respeito ao Zeca Baleiro, mas como é que eu vou contratar o Zeca Baleiro pra tocar no Carnaval? Mas pela primeira vez na história, o dinheiro de todos os editais foi depositado ainda em dezembro. O Carnaval não pode dar certo se as pessoas estiverem envolvidas só pra ver o bloco passar. Mas elas têm que estar envolvidas para realizar. Pra concluir: primeiro a Prefeitura tem que dizer o que quer no Carnaval.
Marcus - Eu percebo que é colocado sobre os ombros do Pré-Carnaval a responsabilidade pelo sucesso do Carnaval. Se pergunta muito: por que o Pré-Carnaval é tão animado e o Carnaval não é? Perguntem a quem faz o Carnaval!
OP - Não seria responsabilizá-los pelo Carnaval, mas entender como a gente poderia ver no Carnaval a mesma energia do Pré.
James - Os blocos topam discutir o Carnaval e realizar o Carnaval.
Marcus - O pessoal do maracatu produz tudo deles. Tudo mesmo. Se o Felipe tiver 200 ritmistas, 195 toca por prazer. Isso é diferente de você ter uma proposta de Carnaval pra cidade. Fortaleza foi transformada em Mortaleza ao longo dos anos. O turismo vende como Carnaval da tranquilidade.
Felipe - O poder público não tem como chegar e apertar uma tecla e resolver. Vai ficar uma coisa caricata. É um processo espontâneo. O Pré-Carnaval aconteceu assim. Daqui a dois, três anos isso vai acontecer pro Carnaval também. Tem uma moçada que já tá apostando nisso, como o pessoal do Sanatório Geral e outros blocos.
OP - Qual seria também o tipo de música desse Carnaval? É um problema não ter um ritmo tipicamente daqui?
Felipe - Isso é muito impreciso, se é o frevo, a marchinha, o samba. Porque Fortaleza é um terreno muito descaracterizado nesse sentido.
Marcus - Como é nas outras coisas.
Felipe - Isso. Fora o balanceio do Lauro Maia, e o maracatu que tem um andamento nosso, nós não temos uma música nossa. Sinceramente, eu nem me incomodo de vir aqui para ouvir um show de forró & apesar de me soar estranho. Mas você tem uma moçada querendo fazer um trabalho de valorização disso & como o Luxo da Aldeia. É uma proposta muito bacana. Qual é o fortalezense que não gostaria de brincar o Carnaval com música do Fausto Nilo, Lauro Maia? Eu não tenho dúvida que daqui a dois ou três anos esse Carnaval vai ser referência.
James - Não querendo discordar, mas já discordando, esse é um ponto de vista muito intelectualizado. Isso não vai fazer com que Fortaleza tenha o Carnaval como hoje é o Pré. Eu amo o Luxo, compreendo essa questão intelectual, cultural, mas do ponto de vista da massificação, ``trocar o coração da minha sogra por um jacaré`` é muito mais popular e você consegue massificar muito mais o Carnaval com essas marchinhas. Quem foi lá no Pery Boneco essa semana foi o Messias Holanda, que tocou lá ``eu quero me trepar num pé de coco`` nas marchinhas. Faz sucesso, a galera gostou. O Carnaval de Fortaleza passa por isso.
A camisa dos respectivos blocos estampava o peito de cada um dos entrevistados, mas essa singularidade não encontrava um paralelo no discurso deles. Os entrevistados não falavam apenas por si: ``Todos os blocos se ajudam, conversam entre si. Pode anotar aí: esse foi o Pré-Carnaval mais cooperativo de todos os anos``, frisou James, que se auto definiu como cria do Concentra. Sobre a eterna dúvida se Fortaleza teria fôlego para oferecer um Carnaval tão animado e procurado como o Pré, Felipe é categórico: ``Eu não tenho dúvida que daqui a dois ou três anos esse Carnaval vai ser referência``. Mas todos concordam que esse movimento não é fruto de um passe de mágica. É preciso cooperação e desejo dos foliões. Sem isso, não havia tido Pré, nem pode haver um Carnaval diferente. (Júlia Lopes)
O POVO - Como vocês definem esse momento atual, como a cidade está com relação ao Pré?
Felipe Araújo - O que me chamou atenção nesse movimento todo do Pré-Carnaval é um movimento de resgate da relação do fortalezense com o espaço público. O fortalezense tem uma relação meio estranha com seu espaço público. Ele não vai à praia, ele vai pra uma barraca de praia. Ele tem o hábito de procurar relações privadas em espaços públicos. O Pré-Carnaval veio um pouco pra abrir uma nova possibilidade do fortalezense com seu espaço público. É uma festa democrática, espontânea, popular, que recebe o apoio do poder público. Em todos os lugares onde o Pré-Carnaval acontece, ele vai pra rua. Isso é muito saudável no formato do Pré-Carnaval da cidade.
Marcus Vinícius - Eu acho que hoje a cidade tem o Pré-Carnaval, ponto. Hoje você tem as grandes festas populares que tem aqui: Réveillon, Pré-Carnaval, Carnaval, São João e Natal. São emblemáticas. Eu acho que o Pré-Carnaval se sobressai em relação às outras. E é muito pelo que o Felipe falou. É um acesso fácil, democrático, é uma festa da diversidade e a divisão espacial. Em toda cidade você tem blocos. Faltava pra cidade esse oferecimento dessa brincadeira, essa curtição.
James Alves - Além do que o companheiro falou, da gente estar ocupando os espaços públicos & o ideal era que não se ocupasse só nas festas & hoje o Pré-Carnaval não se concentra mais só na Praia de Iracema. Hoje você tem blocos apoiados pela Prefeitura por toda cidade. E aqui eu quero fazer uma comparação: ano passado, eu fui ao Rio de Janeiro e lá se tem um clima de Pré-cCrnaval que Fortaleza tem muito parecido. Fortaleza está se firmando como a Capital do Pré. Não só na área nobre da cidade, mas na periferia. O nosso bloco, Pery Boneco, levou 15 mil pessoas no sábado passado (30 de janeiro) para a rua. Tem vários blocos da periferia, e com eles você consegue desafogar os grandes Pré-Carnavais da cidade. O pessoal que ia pro Concentra não vai mais, porque vai nos blocos do bairro. A gente é cria do Concentra & a gente ia da Vila Pery pra brincar Carnaval no Papicu, passava por dois terminais, fazia baldeação. A gente pensou: se no Papicu pode ter Pré-Carnaval porque a Vila Pery não pode? E é difícil porque é bloco que só toca marchinha. Mas hoje os jovens da periferia amam as marchinhas que tocam no Pery Boneco. Aparece um carro pra botar Bahia, a negada desliga. O povo comprou essa ideia. Isso na periferia! Essa identidade cultural, os blocos estão, de certo modo, resgatando. Então eu diria que além de ocupar os espaços públicos, nós estamos também resgatando a cultura & dos nossos pais, dos nossos avós.
OP - Isso aconteceu com o Concentra também, não foi? O crescimento repentino, o fato de ter ensinado muita coisa para os mais jovens. Fora que tem um processo de formação de novos músicos...
Marcus - Quando a gente foi pra Praça do Ferreira, há cinco anos, a gente ouviu muito depoimento de pais de jovens dizendo isso: muitos jovens não conheciam a Praia do Ferreira. Isso o que ele falou é importante porque muitos jovens passaram a conhecer a Praça do Ferreira e as marchinhas com o Concentra. A outra questão é que: se tem o pessoal formando batuqueiros, você não tem ninguém formando músico de sopro para cumprir uma exigência do edital. O edital exige que tenha música de raiz (eu não sei o que diabo é isso) e marchinha. Uma coisa é o samba como o Felipe trabalha com o bloco dele que é bateria, é percussão. Outra coisa são sopros: que está nas mãos ou da Polícia Militar, ou dos Bombeiros, e das prefeituras. Os músicos do Concentra são de Aquiraz, por exemplo.
Felipe - Essa coisa que o Marcus falou é muito importante. Quando fui recentemente a Recife, conversando com o (João Roberto) Peixe, ex secretário de cultura. Ele falou que chegou a um momento que eles estavam com problema seríssimo de encontrar músicos de sopro. E lá é a terra do frevo. Começaram a abrir umas escolas espontaneamente, alguns projetos de formação musical. Isso que o Marcus falou aponta para um processo muito interessante: o Pré-Carnaval atuando numa esfera de formação de músico, sejam músicos amadores, diletantes, sejam profissionais. E só pra retomar uma questão que o James falou sobre o Rio de Janeiro, não há, no Brasil & e eu digo isso com a maior tranquilidade & um Pré-Carnaval como o de Fortaleza.
James - Mas tem amigos nossos que estão no Rio pra brincar o Pré. E outra coisa: os fortalezenses sabem que existe o Concentra e o bloco da Cachorra, mas não sabe da periferia.
Marcus - E você sabe por que? Porque a imprensa de um modo geral não cobre a periferia.
Felipe - É, a cidade ainda está se conhecendo como a cidade do Pré. Essa agenda, daqui a pouco, se firma.
OP - Vocês falaram de ocupar o espaço público, e a gente percebe dessa espontaneidade dos blocos. Foi dito também sobre a formação de músicos. Como vocês avaliam o papel do poder público nesse processo?
Felipe - O edital me parece um instrumento muito saudável pra condução do apoio financeiro da prefeitura. A estrutura logística, ou seja: apoio de Guarda Municipal, de trânsito, de limpeza, ano a ano tem tido uma melhora significativa. No entanto, essa demora, no meu entendimento, não acompanha a demanda que cresce exponencialmente a cada ano. A Prefeitura meio que sempre se pega de surpresa com o contingente de gente. E me parece que o Governo do Estado tem uma relação conflituosa & haja vista a dificuldade que foi para alguns blocos conseguir policiamento esse ano. Não há um encantamento, por parte do Governo do Estado, em relação ao Pré-Carnaval de Fortaleza.
Marcus - Isso tanto é verdade que o Estado tem um programa de férias (Férias no Ceará) com um monte de banda pop no Cocó e que no mínimo podia botar pra julho e acertar uma coisa com a outra. Tem público pra todo mundo & tudo tá lotado & mas isso poderia estar gastando dinheiro em outro momento. E tem outra coisa: na periferia ou no Centro ou na Praia de Iracema, não se registra tanta violência, tanta briga, tanta confusão quanto nos shows dos Skanks da vida & nada contra o Skank. A violência está lá. Você tem um problema de efetivo policial. É um problema que, se o Carnaval começar a funcionar, vai ser maior. Quando chega o Carnaval, a polícia vai toda para o Interior. Se começar a funcionar o Carnaval & que deve começar, e não depende só do poder público, mas da gente & o Estado não tem uma sincronia com a Prefeitura. E a prefeitura não tem grandes paixões pelo Pré-Carnaval e o Carnaval. Tem pessoas que se jogam de corpo e alma. Mas tem gente que acha atrapalha o trânsito, as pessoas. Atrapalha mesmo. Mas essas coisas que crescem exponencialmente, como o Felipe colocou, tem que ter ajuda do poder público. O que aconteceu é que a Prefeitura, com o edital, favoreceu e muito o surgimento de blocos novos, outros já existiam há muito tempo... Isso facilita. Agora, há blocos e blocos. Na hora que você cria o bicho, como o Concentra, o Pery, você tem um custo 10 vezes maior e você tem que dar uma diferenciada mesmo. O bloco Unidos da Cachorra: se não tiver apoio ali....
Felipe - Tem uma questão & voltando àquela questão inicial & tem um diabo aqui em Fortaleza chamado paredão de som. Esses caras vão acabar com o nosso Pré-Carnaval. Alguns jornalistas & e me parece que alguns jornalistas cínicos, que abordam esse tema de maneira cínica & colocam que o Pré-Carnaval ``é direito de quem tá brincando``. Essa é uma discussão cínica. Os blocos vão até 21h, 22h. O que se prolonga são aqueles carros de som. E não há controle disso. Recai sobre os blocos.
Marcus - Quem é De Bem Fica acabou por isso.
Felipe - Então, eles obrigam todos a ouvirem uma música de gosto duvidoso e comprometem os blocos. Taí o exemplo. Eu acho que a gente tem hoje, no Pré-Carnaval de Fortaleza, e o Carnaval vai ter também, um inimigo muito claro.
James - Voltando para a pergunta, o poder público municipal tem ajudado muito com o edital. Mas tem ajudado como? O Pery Boneco sai quatro sábados de Pré, mas só no primeiro sábado a gente come o dinheiro do edital. Se não tiver os patrocínios, a gente não consegue sair nos outros sábados. A Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) vai ter que rever essa política de edital. Não dá pra gente, que bota 15 mil pessoas na rua, receber o mesmo valor que outros blocos, que botam 100 perto de uma caixa de som com CD pra tocar. A Secultfor vai ter que fazer fiscalização: ir aos blocos, ver os banheiros químicos que tem que ser contratados, a segurança, se estão tocando as músicas mesmo... A secretaria peca nisso aí. Já o Governo do Estado não entendeu o que é o pré-carnaval, uma festa que coloca gente na rua e ao dá uma confusão, não dá uma briga.
Marcus - O Edital é a menor contribuição que pode ser dada. O edital da Prefeitura para o Pré-Carnaval é seis vezes menor que o do Carnaval. Dados de 2008. Mas tem diferenças, no Carnaval o edital financia tudo. Mas imagina o que movimenta o comércio ambulante na economia de janeiro em Fortaleza. O músico recebe de R$ 80 a R$ 100 por bloco. Essa economia que se move no Pré-Carnaval é enorme a partir de um incentivo financeiro pequeno. Tem que melhorar a infra-estrutura, contratar mais guarda municipal.
OP- Como seria, então, um Carnaval & tendo em vista esse quadro?
Marcus - Que me desculpe o pessoal da Domingos Olímpio, mas Carnaval não pode ser desfile. Desfile eu vou lá pra ver e no Pré eu vou lá pra fazer parte da festa. No Pré-Carnaval é democrático, ninguém é obrigado a comprar a camisa, você tá metido no negócio. Não vamos ser hipócritas: hoje você tem Recife, Salvador e Rio de Janeiro & não adianta dizer que o Carnaval é o Brasil todo. Então, se é pra imitar, vamos copiar o que é bom: Recife e Rio de Janeiro. Ano passado, se você saía dos blocos, você vinha pra cá, pra Praia de Iracema, ver show de forró. Tem que ter dinheiro pro Carnaval além do que tem para as agremiações.
Felipe - O Carnaval hoje se pretende a ser um espetáculo, uma ópera tupiniquim, mas se tornou esquizofrênico: não é nem uma coisa nem outra. Porque eu digo que essa relação da Domingos Olímpio é meio esquizofrênica? No Rio, você tem escolas que são agremiações de bairros. Por exemplo, a Portela faz cortejo em Madureira. Ela aglomera a comunidade em torno do projeto do desfile, que acaba se tornando só a ponta do iceberg. Ao longo do ano, o pessoal tá lá costurando, compondo. A mesma coisa a Vila Isabel, Império Serrano. Aqui nós temos agremiações maravilhosas. E eu digo isso pelo esforço que é colocar um bloco de maracatu na rua. É louvável. No entanto, qual é o mecanismo, e o poder público podia entrar nisso, que é utilizado para aproximar a comunidade daquelas agremiações? Esse sentimento de pertença, me parece, ainda não está muito maduro na cidade.
James - Na verdade, as pessoas que fazem o Carnaval não entendem o Carnaval. Com todo respeito ao Zeca Baleiro, mas como é que eu vou contratar o Zeca Baleiro pra tocar no Carnaval? Mas pela primeira vez na história, o dinheiro de todos os editais foi depositado ainda em dezembro. O Carnaval não pode dar certo se as pessoas estiverem envolvidas só pra ver o bloco passar. Mas elas têm que estar envolvidas para realizar. Pra concluir: primeiro a Prefeitura tem que dizer o que quer no Carnaval.
Marcus - Eu percebo que é colocado sobre os ombros do Pré-Carnaval a responsabilidade pelo sucesso do Carnaval. Se pergunta muito: por que o Pré-Carnaval é tão animado e o Carnaval não é? Perguntem a quem faz o Carnaval!
OP - Não seria responsabilizá-los pelo Carnaval, mas entender como a gente poderia ver no Carnaval a mesma energia do Pré.
James - Os blocos topam discutir o Carnaval e realizar o Carnaval.
Marcus - O pessoal do maracatu produz tudo deles. Tudo mesmo. Se o Felipe tiver 200 ritmistas, 195 toca por prazer. Isso é diferente de você ter uma proposta de Carnaval pra cidade. Fortaleza foi transformada em Mortaleza ao longo dos anos. O turismo vende como Carnaval da tranquilidade.
Felipe - O poder público não tem como chegar e apertar uma tecla e resolver. Vai ficar uma coisa caricata. É um processo espontâneo. O Pré-Carnaval aconteceu assim. Daqui a dois, três anos isso vai acontecer pro Carnaval também. Tem uma moçada que já tá apostando nisso, como o pessoal do Sanatório Geral e outros blocos.
OP - Qual seria também o tipo de música desse Carnaval? É um problema não ter um ritmo tipicamente daqui?
Felipe - Isso é muito impreciso, se é o frevo, a marchinha, o samba. Porque Fortaleza é um terreno muito descaracterizado nesse sentido.
Marcus - Como é nas outras coisas.
Felipe - Isso. Fora o balanceio do Lauro Maia, e o maracatu que tem um andamento nosso, nós não temos uma música nossa. Sinceramente, eu nem me incomodo de vir aqui para ouvir um show de forró & apesar de me soar estranho. Mas você tem uma moçada querendo fazer um trabalho de valorização disso & como o Luxo da Aldeia. É uma proposta muito bacana. Qual é o fortalezense que não gostaria de brincar o Carnaval com música do Fausto Nilo, Lauro Maia? Eu não tenho dúvida que daqui a dois ou três anos esse Carnaval vai ser referência.
James - Não querendo discordar, mas já discordando, esse é um ponto de vista muito intelectualizado. Isso não vai fazer com que Fortaleza tenha o Carnaval como hoje é o Pré. Eu amo o Luxo, compreendo essa questão intelectual, cultural, mas do ponto de vista da massificação, ``trocar o coração da minha sogra por um jacaré`` é muito mais popular e você consegue massificar muito mais o Carnaval com essas marchinhas. Quem foi lá no Pery Boneco essa semana foi o Messias Holanda, que tocou lá ``eu quero me trepar num pé de coco`` nas marchinhas. Faz sucesso, a galera gostou. O Carnaval de Fortaleza passa por isso.
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