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Rachel 90 Anos Fortaleza,
Tantos anos!

Mais dez e fecha, redondo, um século inteiro. Quase todo, o século XX. Nesse tempo, a escritora Rachel de Queiroz acompanhou e se adaptou - nem tanto - às mudanças tecnológicas. Mais que isso, foi testemunha da história do Brasil e do mundo nas últimas nove décadas.

Ariadne Araújo


[16 18h02min]

Um século inteiro, ou quase. Afinal, não é brincadeira. De 1910 para cá os olhos míopes de Rachel de Queiroz já viram muita coisa mudar. Do photomobile, espécie de castiçal alto, com uma mola dentro e onde se punha uma vela - usados para leituras pela escritora - às lâmpadas fluorescentes. Dos famosos Willys Overland - o primeiro e único carro que ela dirigiu - às encapetadas ferraris. Dos blimps - pequenos dirigíveis prateados que passavam em revoada sobre a casa da família - aos modernos jatos. Da velha Corona - máquina com que escreveu o livro João Miguel - aos complicados pentiuns.

Tudo isso, outras coisas mais, passou pela vida da cearense Rachel de Queiroz. Durante a Segunda Guerra Mundial, ouvido colado no rádio, ela escutou pela BBC de Londres notícias quentes sobre a queda da França, o ataque a Pearl Harbor, a quebra da neutralidade dos Estados Unidos, a ofensiva hitlerista contra a Rússia. ``O caso é que também aqui no Brasil a gente viveu e sofreu na carne''. Pudera, nas terras do Pici, onde a família dela morava, foi construída a base aérea americana. E, assim, os soldados, de fuzil e baioneta, não tardaram a aparecer.

Tantas histórias... A memória boa para as coisas do passado impressiona o ouvinte desavisado. Entre uma e outra xícara de café - são muitos por dia - ela vai desfiando o rosário de lembranças, aqui e ali uma novidade, nomes, datas, lugares, soltando as palavras com calma, por entre os dentes projetados em um sorriso já acostumado a sair. Vez ou outra, um causo repetido. É que ser noventona tem lá seu charme, mas também armadilhas. Ela, é claro, nem liga. Com a idade, o que isso importa? Se é assim, nada de rapapés com dona Rachel. Dona? Senhora? Coisa nenhuma. Da visita ela pede, quase exige, informalidade.

No fim do corredor, num gabinete de trabalho, o computador ligado espera em vão. "É como se fosse um homem bonito, que a gente não sabe o que fazer quando chega perto. Eu e ele somos dois estranhos''. Não é medo. É pânico. "Só escrevo na minha máquina elétrica''. Apaixonada por ele, mas só fisicamente - um multimídia, desses que têm mil uma utilidades''. Para uma escritora, quilômetros de textos para jornais nos últimos anos, o problema maior é o risco de perder tudo - puf! - num minuto. "Minha nora me diz que a gente pode guardar tudo nos disquetes. Mas eu nem sei que diabos é isso''.

Se é assim, a velha máquina de escrever alemã, uma Corona, cuspiu fogo 40 anos a fio em artigos para a revista O Cruzeiro. Rachel de Queiroz, sabida, preferiu a última página. "Eles, com isso, valorizaram a contracapa''. Sobre seca, foram muitas defesas, muitas denuncias, muitas descrições de cenários. Bater na mesma tecla é estratégia. Em 1958, direto da fazenda Não me Deixes, ela escreve: "Tudo já quase perdido. As águas baixas. Meu açudinho, que me deu tanto trabalho e não teve o gosto de sangrar com o inverno escasso.

Hoje, artigos semanais vão parar em jornais de São Paulo, Fortaleza, Brasília, Belo Horizonte e Recife. Com os últimos problemas de saúde, nem mesmo o consolo da máquina - hoje uma elétrica. O jeito é valer-se dos ouvidos pacientes e atentos da irmã Isinha. Na base do ditado, o texto, enfim, segue um caminho mais moderno: direto para a memória do computador. Aliás, é Maria Luíza quem, nos últimos dois livros - Tantos Anos e Não me Deixes, suas histórias e sua cozinha - entra como co-autora e colaboradora, respectivamente. Em janeiro próximo, já nas mãos do editor, a mais recente obra: uma coletânea de artigos já publicados.

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