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Rachel 90 Anos Fortaleza,
Primeira Dama

Antonio Olinto, Escritor

[16 18h02min]

Primeira Dama da literatura brasileira, Rachel de Queiroz exerce sua suserania com inteira simplicidade. Tal como, adolescente, provocou espanto nos meios culturais do País depois de haver escrito, a lápis, mais estendida numa cama do que sentada numa cadeira, uma história que viria a ser o romance O Quinze, continuou, com a mesma naturalidade, a escrever seus enredos, suas crônicas, suas peças de teatro, ao longo dos setenta anos seguintes.

Pois, tendo composto seu livro aos 19 anos - e publicado o mesmo aos 20 -, está agora completando noventa anos de presença no mundo. Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, Ceará, a 17 de novembro de 1910, no antigo número 86 da Rua Senador Pompeu, residência da sua bisavó Maria de Macedo Lima, D. Miliquinha, falecida aos 87 anos e prima-irmã de José de Alencar. Saiu da Escola Normal para a fama literária, entusiasmou poetas como Augusto Frederico Schmidt, virou nome nacional - e, depois disso, a literatura brasileira nunca mais foi a mesma. Rachel nela ficou entronizada e, com seu jeito de quem não se deixa prender por elogios, continua com seu bom humor, seu riso, às vezes sua ironia.

O escritor Haroldo Bruno (1922-1983) escreveu livro sobre Rachel de Queiroz que é, ao mesmo tempo, biografia, crítica, antologia e iconografia da escritora. Publicado em 1977, constitui-se no mais completo estudo literário sobre a autora saído até aquele ano. Uma das partes mais significativas do livro é o capítulo chamado "Depoimento da autora'' em que Rachel fala de seu ofício da palavra. Sobre se o escritor deve ser um profissional, eis a resposta que deu: - Bem, se há uma coisa que eu sou mesmo, é uma profissional conscienciosa, uma artesã fiel ao seu ofício. Pela minha natureza tenho horror a qualquer forma de diletantismo. Escrevo porque essa é a minha arte - e digo a palavra arte no sentido profissional mais estrito, como se diz arte de carpina, de tecelão, de pedreiro, de artífice mesmo. Dada essa disposição natural, sempre procurei viver dentro da minha profissão e foi por isso que me dediquei ao jornalismo, a única opção possível no âmbito da minha linha de trabalho, já que o romance, fora as conhecidas exceções, era e ainda é, entre nós, trabalho de amador.
E o movimento feminista do Século? Eis o que diz Rachel de Queiroz sobre o assunto: - Nunca fui feminista. Não acredito nessa entidade particular "a mulher'', diferenciada da outra entidade "o homem''. Tudo é gente, tudo é criatura. Claro que acho que as mulheres, nas sociedades mais atrasadas, têm a vida mais dura e mais estreita que a dos homens; mas isso são contingências do ambiente social no seu todo, e não um propósito especial de discriminar contra a mulher. Aliás, quem primeiro discriminou foi Deus Nosso Senhor, que, fazendo da mulher a fêmea da espécie, lhe pôs às costas a carga da maternidade. Conceber, parir, amamentar, criar o filho, como sair desse círculo mágico, sem ruptura das leis naturais?

Praticamente sem cessar, exerceu ela o jornalismo desde 1930. Seus volumes de crônicas registram esse labor de transformar o nosso dia-a-dia em história de um País. Ao fazê-lo, a crônica de Rachel de Queiroz assume forma realista. Não faz poesia em prosa, não utiliza pura e simplesmente um tom narrativo, não especula em termos de filosofia - é, sim, verista, quase naturalista. Como e por que? Está Rachel de Queiroz, no que escreve, interessada em achar uma verdade e em dizer uma coisa. Não me refiro a mensagem, no sentido lugar-comum que essa palavra ganhou nos últimos cinqüenta anos. Quero aludir ao desejo de ajudar, contribuir para que uma realidade seja conhecida, para que um erro seja analisado e uma injustiça, reparada. Rachel de Queiroz escreve para. Suas palavras não têm direção, encaminham-se a um fim. O mesmo se diria de qualquer coisa que qualquer pessoa escrevesse, mas a gratuidade de muitas obras costuma eliminar a necessidade teleológica dos escritos.

De vez em quando, a autora usa o tom da carta - a carta de Gilberto Amado por motivo da morte de Vera, a carta de Daniel Pereira, editor, o bilhete para Herman Lima - , com a clareza de quem fala sem adjetivos. Eis outro ponto que merece louvor na crônica de Rachel: sua linguagem coloquial, seu ar de quem conversa. Se outros autores escrevem crônicas, elaborando-as com os recursos da obra escrita, Rachel de Queiroz fala suas crônicas, num estilo oral, e quase que o leitor ouve o que está lendo. Isto é, a um tempo, efeito e causa de seu realismo. Por isso também ela nos pega quase sempre desprevenidos, nos leva à emoção, nos deixa pensando.

Uma de suas mais belas crônicas, Pequena cantiga do amor para Nova York, é dos ápices da crônica brasileira de qualquer tempo, em sua clareza de linguagem, os vocativos funcionando com propriedade, as palavras se encadeando com beleza e sentido de novidade, embora tudo tão antigo, tão sempre e, com licença de Manuel Bandeira, tão Brasil. Rachel de Queiroz não tem medo de dizer o que quer, usa o ponto-de-exclamação, de interrogar, de clamar, de fazer apelos. Este começo de declaração, ao mesmo tempo realista e passional é típico dessa linguagem sem medo, num tempo de contenções e de afastamentos: "Sim, eu logo te amei, Nova York. Foi ver-te, e amar-te, assim que o cab amarelo deixou o recinto do aeroporto Kennedy, e o esqueleto negro da tua primeira ponte se desenhou proibitivo à minha frente. Te amei logo. Imensa, bruta, desumana, te amei logo. Babilônia, muitos te chamaram Babilônia. Ah, Babilônia caberia toda na décima terceira parte de um dos teus menores mistérios''.

Sendo realista, Rachel capta coisas e cenas, gente e acontecimento, com a objetividade de uma câmara de cinema. E O caçador de tatu, mais do que seus livros anteriores de crônicas, revela esse seu bom apego à objetiva e ao objetivo, que acentua a pureza de seu realismo antes de tudo humanístico.


Antônio Olinto, da Academia Brasileira de Letras, é escritor e crítico literário

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