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Canto das rolinhas
Tiradas rápidas, bem humoradas, sinceras. Aos 90 anos, Rachel de Queiroz não perde a pose e nem o título de independente. No miolo chique da capital carioca, ela confessa nos móveis, nas fotos e nas histórias a saudade abafada do seu Ceará
Ariadne Araújo
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Óculos e Luneta para leitura dos jornais diários
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[16 18h02min]
Destino de quem tem o pé no sertão. Defronte ao quarto andar, balançando-se em fios de poste, nada mais nada menos, um bando de rolas-caldo-de-feijão. A dona da casa até já notou a visita e, foi o jeito, fez vista grossa par a tal bisbilhotice na janela, onde uma e outra vêm lanchar sementes no parapeito, a bem dizer, quase dentro da sala de estar. Nem é o caso gritar xô. Afinal, a passarada tem lá suas vantagens. No final da tarde, em notas curtas, o canto de flauta saído do bico das rolas traz o som dos dias de mocidade, dos verões lá na fazenda, de tempos em que se ouvia, além das caldo-de-feijão, a peleja musical entre graúnas, cancãs, galos-de-campina, corrupiões.
De costas para a rua, no miolo chique do Rio de Janeiro, o Leblon, sentada em uma poltrona bordada em ponto-de-cruz, a cearense Rachel de Queiroz, tenta, assim, entre o assobio dos pássaros e buzinas de carros, a leitura diária dos jornais da cidade. Mas, nada! Logo, sobre a mesinha lateral, caem os diários, além de um dos cinco óculos de grau e a lupa imprescindível. Dessa vez, nem foi o cansaço da miopia ou ainda o histórico de pressão ocular, dois descolamentos de retina e cinco cirurgias de vista. O caso mesmo, é uma pontinha de melancolia, justo a repisar com mais freqüência nessa véspera de aniversário. "Tô fazendo 90 anos. Coisa ruim, não é ? Mas é o jeito''.
Se é tristeza, saudades de quem já enterrou pai, mãe, filha, três irmãos, marido, então, é coisa de minuto. Sorrisos, um monte deles - abertos, francos, constantes -, mudam a face da aniversariante. 'Um cafezinho vai bem'', pede ela à cozinha. Ora se vai! Mas, a dona da casa é a derradeira - "conforme manda o costume''. Cheia, pelas beiras, a xícara a transbordar, no gosto da "Teté'', um velho apelido de infância dado pela irmã caçula, Maria Luíza de Queiroz. O café está liberado, mas refrigerantes, massas, doces foram descartados de vez. Sendo assim, Rachel de Queiroz quebrou 15 quilos.
Na hora de andar, bem que a bengala ajuda. Além, é claro, de mãos "rápidas no gatilho'' de assistentes-enfermeiras, quase anjos-da-guarda por 24 horas. Afinal, depois de uma isquemia cerebral, todo cuidado é pouco. A escritora, no entanto, não espera auxílios para ir daqui-para-ali. Tanta independência rendeu-lhe uma queda, há coisa de um mês e uma visitinha indesejada ao hospital para pontos na cabeça. Ela, óbvio, não dá importância. Tratou de espalhar a notícia o ator Tony Ramos, na pele do livreiro Miguel, na novela global das oito, Laços de Família. "Eu ouvi dizer que ele, o personagem, perguntou pela minha saúde em pleno ar, no dia da queda''.
Para uma nonagenária, bem, obrigada. De vestido florido, colar de pérolas, cabelo arrumado em ondinhas, Rachel de Queiroz bate perna, sempre que pode. Vai à Academia Brasileira de Letras, ao teatro, ao cinema. Ou, melhor ainda, mais longe. Em viagens rápidas, direto para Quixadá, sertão-central do Ceará, para o sossego da Não Me Deixes, a fazenda que serve de santuário para ela e para os pássaros capturados pelo Ibama. "É minha pátria, meu ponto de referência''. Se é assim, por amor, explicada está a existência de tantos pedaços de Quixadá no apartamento do Rio de Janeiro. "Os móveis, os santos na parede, os retratos e até a rede com varandas de crochê''.
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