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O xodó da escritora
Ponto de referência da escritora: casa grande, arejada, rodeada de plantas tropicais, reserva de pássaros e com jeito de moradia dos sertanejos. No Sertão Central do Ceará, mais exatamente no município de Quixadá, está a fazenda Não Me Deixes, herança do pai Daniel.
Rita Célia Faheina
[16 18h02min]
A vista do quarto dá para o açude, o pé de algaroba, o juazeiro, o pau d'arco, os mandacarus. É uma janela baixa que a gente até pode sentar no parapeito e ficar saboreando o vento batendo no rosto, uma raridade naquela região árida do Sertão Central. De vez em quando, o canto de um pássaro corta o silêncio da casa grande. São canários, curiós, periquitos do sertão, sabiás, golinhas, graúnas... Tantos outros que, de vez em quando são soltos pelos fiscais do Ibama na fazenda, única reserva natural da Região.
O cenário é da fazenda Não Me Deixes que fica no sertão de Quixadá, que Rachel de Queiroz considera o seu ponto de referência. Apesar de ter nascido em Fortaleza, foi pra lá com 18 dias de vida e mesmo residindo no Rio de Janeiro, volta à fazenda pelo menos duas vezes por ano. Costuma dizer que só viaja para o Sertão quando tem notícias de chuvas. E com razão, porque onde fica a Não Me deixes, a 23 quilômetros do centro de Quixadá, quando o ano é de inverno fraco, o açude seca e os sete potes enfileirados na cozinha da casa da fazenda ficam secos. "Ela não gosta de cisterna, gosta mesmo é da água do pote'', justifica o administrador, Manuel Dias da Tavares, o Manuel Chagas, como é conhecido.
O local da casa foi determinada pelo pai, que orientou para ser construída "virada para o nascente e com o curral distante do açude''. Mas o estilo e o toque de morada sertaneja foram preocupações do marido. O alpendre, com armadores para até sete redes, rodeia parte da casa. As 13 janelas permitem a claridade dos ambientes espaçosos. Todos mobiliados com peças rústicas fabricadas com madeira colhida na própria fazenda. Na sala de jantar, apenas o aparelho de TV difere do resto das peças. Até a geladeira é de um modelo antigo - da marca GE, cor azul.
Nos três quartos, o piso e os móveis também são de madeira. O quarto que Rachel dorme é mobiliado por duas camas de solteiro separadas por um criado mudo, um guarda-roupa de duas portas, onde deixa algumas peças de roupas, uma cômoda e um pequeno toucador (espécie de cômoda com um espelho acima que serve para se pentear ou para a fazer a maquiagem). Nas paredes, cabides de madeira também em estilo antigo.
No quarto vizinho, além da cama, cômoda e guarda-roupa, completam o mobiliário um baú para guardar lençóis, toalhas e redes, e uma pequena estante com romances de autores ingleses e franceses. "É nesse quarto que se hospedava a mãe do doutor (Oyama), marido de dona Rachel. Agora, ela não vem mais pra fazenda. Só dona Isinha (Maria Luiza) e os filhos que ficam no primeiro quarto'', explica Manuel Chagas. O quarto abriga ainda duas estantes e uma escrivaninha antiga.
O acervo literário de Rachel também ocupa duas estantes montadas na sala de visitas da casa grande. No amontoado, obras antigas como Le Siècle de Luis XV, de Pierre Gaxotte (1933) e Teatro: A Morte e o Meio da Vela, de Oswald de Andrade (1937). Na parede da sala, um quadro pintado a óleo da escritora, datado de 1978 e uma foto antiga com o irmão Roberto, a mãe Clotilde e a irmã caçula, Maria Luíza. No baú, ao lado da estante, guarda as duas redes de corda que ficam armadas constantemente quando a escritora está na fazenda. A preguiçosa também permanece armada na sala de jantar, entre dois pequenos baús.
Terra do século passado A história da Não Me Deixes começou no século passado. Nos idos de 1870, o tio-avô de Rachel, fazendeiro e proprietário de 18 áreas, deu de herança a terra para um primo da escritora que preferiu vendê-la para se aventurar na extração da borracha, no Amazonas. Quando o tio soube, conseguiu recuperar a fazenda e devolveu para o herdeiro que voltou pobre e doente. Mas o fez prometer que não sairia mais do local e o batizaria de Não Me Deixes.
Quando o proprietário da fazenda morreu não tinha filhos e a terra voltou para as mãos do avô de Rachel que a deu de herança ao pai da escritora, Daniel de Queiroz. Rachel e o marido Oyama construíram a casa entre os 900 hectares de terra, em 1955. Tijolos, portas e janelas, além dos móveis, foram materiais retirados da própria fazenda. Ela recorda até que fez uma maquete da construção, com varas de mata-pasto, para mostrar como deveria ficar o telhado alto. "Sempre há o cuidado de fazer os reparos, substituindo as telhas quebradas para não criar goteiras'', diz o administrador Manuel Chagas.
Atualmente, um terço da fazenda (300 hectares) é área de reserva do Ibama. "Mas, muito antes de se falar em ecologia, Rachel e o marido já preservavam a fazenda'', diz a irmã Maria Luíza calculando que os cuidados com a área de caatinga, com a fauna e flora tropicais da região já vem de 45 anos atrás. (RCF)
Patrimônio natural
A fazenda Não Me Deixes é uma reserva particular do Patrimônio Natural há quatro anos. O reconhecimento foi autorizado pelo ministro do Meio Ambiente, José Sarney filho, pelo decreto 1922 de cinco de junho de 1996. O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) classifica a área como "uma reserva representativa de ecossistemas da Caatinga, fauna e floras tropicais da Região e relevante beleza cênica''. No diploma dependurado na parede da sala de visitas da casa da fazenda, o aviso: ``Foi gravado em cartório com perpetuidade para proteger a biodiversidade, em benefício das futuras gerações".
Design sertanejo
Os sete potes encostados nas paredes de frente e ao lado do fogão a lenha. Nas prateleiras de madeira, as panelas de barro, as quartinhas, as canecas de alumínio dependuradas nos tornos. Fixados no piso de cimento, um tronco de árvore para cortar a carne e um moedor de carne e de milho. Essa é a cozinha da casa grande, onde de "moderno'' mesmo, só o pequeno fogão a gás de duas bocas usado apenas nas emergências ou para esquentar uma água.
Na ampla dispensa, dependurada no teto, uma tábua para guardar o queijo, feito na prensa, também construída com madeira da fazenda. Nas prateleiras, fileiras de garrafas de cajuína, bebida preferida da escritora. O depósito de madeira para guardar a farinha e o armário embutido que esconde o material de limpeza complementam a dispensa.
Separando a cozinha do banheiro, uma sala serve de ambiente para a prensa, a máquina de desnatar leite, a antiga máquina de costura da marca Singer e uma mesa com banquinhos de madeira. No banheiro, apenas o chuveiro elétrico destoa do estilo antigo, até com uma banheira feita de cimento revestida de azulejo.
Num pequeno quarto, com piso de tijolo e janelas que dão para o quintal, grandes baús guardam peças de cama e mesa, alguns marcados com o nome da fazenda. (RCF)
Estação ameaçada
A possibilidade de que a centenária estação de trem do Junco, localizada a dois quilômetros da fazenda Não Me Deixes, seja demolida pela Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN) está preocupando a escritora. "Essa estação faz parte da minha vida e não posso concordar com a demolição'', diz Rachel que luta pela preservação do prédio que tem o nome de seu pai, Daniel de Queiroz. A escritora sugere que a prefeitura do município solicite o prédio à CFN e o recupere. Faltam portas, as telhas estão quebradas e a pintura estragada. "O prédio poderia ser usado como escola, biblioteca ou um centro de cultura'', sugere e insiste em que a estação tem de ser preservada.
De pai para filho
Manuel Dias Tavares, 57, é o morador mais antigo dos oito que habitam na fazenda Não Me Deixes. Diz que trabalha para Rachel desde 1959. Antes, porém, seu pai José Chagas Tavares já trabalhava para os Queiroz "desde a fazenda Arizona, na beira do rio Choró''. Zé Chagas praticamente foi criado pelo fazendeiro Daniel de Queiroz e faleceu em 1950. Manuel Chagas cuida da fazenda com zelo e diz que "gosta demais de dona Rachel''. Nas vésperas da dona da casa chegar - "ela prometeu que viria depois do aniversário, próximo dia 17'' - Manuel já cuida dos reparos e da limpeza.
Memorial
O chalé da pedra, uma construção antiga, em estilo colonial, situada no centro da cidade, foi escolhido para abrigar o memorial de Rachel de Queiroz em Quixadá. A proposta é conjunta entre a Secretaria da Cultura do Município e a Secretaria da Cultura do Estado (Secult). A escritora recusou uma proposta do Ibama em que o memorial fosse na casa grande da fazenda.
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