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Rachel 90 Anos Fortaleza,
Muxoxo e Expectativa

O ti-ti-ti deixou em alvoroço os mais chegados. Afinal, não se passa em branco 90 anos de idade. Ainda mais se a aniversariante é famosa. Mais ainda, imortal. Rachel de Queiroz reclama da idade, mas faz gosto com as festas

Ariadne Araújo

Rachel faz pose na luxuosa biblioteca da Academia Brasileira de Letras

[16 18h02min]

Os 90 anos pesam, ela reclama de tantas décadas, mas não fala em outra coisa. Denunciam a tagarelice sobre o assunto os amigos mais próximos. Mas, mais que espantada com a idade, Rachel de Queiroz está mesmo é excitada com a festa de aniversário. Promessa da irmã e quase filha, Maria Luíza de Queiroz. "Só para os mais chegados, um jantarzinho informal, que ela não tem disposição física para uma reunião maior'', explica a mana mais nova. Com certeza, 'a la petit comitê', um clã bem cearense. "Além da família, três casais conterrâneos, praticamente, já de casa''.

A Academia Brasileira de Letras também tinha lá suas surpresas preparadas pelo imortal Tarcísio Padilha. Na sessão de ontem, no meio da tarde, bolo e parabéns. Depois, na sala de José de Alencar, a projeção de um vídeo em homenagem à acadêmica. Ela, é claro, bem que sabia das tramas em torno dela, mas - praxe de ilustre - faz-se de desentendida. É que lá no fundo, talvez por isso, o pedido de presente fosse outro. Nessas comemorações, ela quer mesmo é " voltar à Não me Deixes, dar um pulo lá, matar as saudades. Quem sabe?', confessa. Sobre isso, a saúde é quem diz sim ou não.

Sobre o resto, tivesse que escolher uma idade ideal, Rachel teria preferido os 30. "É a idade em que se resolve os problemas do coração''. Pelo menos para ela: foi quando conheceu o segundo marido, o médico Oyama. Depois da morte dele, na opinião de Rachel, a vida foi cortada ao meio. "Viver sem amar é ruim''. Sorte ter pertinho, no Rio de Janeiro, os sobrinhos e os filhos dos sobrinhos, nesse caso, netos e bisnetos de coração. Uma misturada no parentesco tão comum à família. "Minha irmã caçula, Isinha, nasceu quando eu era já grande. Assim, é como se fosse minha filha''.

Avó coruja, tataraneta coruja também. Nem é para menos. Afinal, a avó materna, Maria de Macedo Lima, a Miliquinha, era, simplesmente, bisneta de Bárbara de Alencar, a heroína e avó de José de Alencar. "Meus amigos espíritas dizem que sou a reencarnação dela''. Não for isso, o temperamento livre, autônomo e pioneiro da escritora podem ser debitados ainda na conta dos Queiroz: "todos sempre danados''. E, em último caso, coisa de cearense: "eu sou cabeça chata e, em geral, somos muito atirados, provocamos reações contrárias.

Coisas do coração
Ela tem razão. Aos 90 anos, depois de dois casamentos, não se conta mais sobre namoros do passado. A não ser, é claro, o que está registrado em Tantos Anos (livro autobiográfico). Por exemplo, aos 20 anos, sobre um certo capitão do Exército, que fora combater pelos legalistas. "Ele veio muito heroicamente dizer adeus, ia para a Paraíba, com a tropa do coronel Pedro Ângelo''. A resposta da namorada, no entanto, não agradou: "eu não posso dizer que não vá, porque você é soldado profissional e tem mesmo que correr o risco de morrer na guerra. Afinal, vocês só trabalham quando a guerra chega. Sendo assim, fim do namoro sem futuro.

Afinal, coisa melhor aguardava lá na frente. Primeiro, o pernambucano José Auto. Com ele, Rachel de Queiroz casou-se e teve a única filha, Clotildinha , morta aos dois anos e meio. Depois, um divórcio, e o segundo casamento com o médico Oyama, o homem com quem viveu e amou até que "a morte nos separe''. O primo Pedro Nava apresentou um ao outro. O novo casal, ainda às voltas com os trâmites da separação legal de ex-casamentos, foi morar em Laranjeiras, onde a família, em clara demonstração de apoio, fez uma visita oficial ``para calar as maledicências''. (AA)

Rainha sem coroa
Cem mil réis por mês e, pronto, acertado o salário do primeiro emprego. No O Ceará - jornal com fama de ateu e anticlerical -, a adolescente Rachel de Queiroz (16 anos) tinha que organizar um suplemento literário, selecionar colaboradores e publicar, é claro, uma crônica sua. Fez mais. Tentou, pela primeira vez, um romance - A história de um nome. "Um folhetim, uma droga'', dispara em Tantos Anos, livro autobiográfico. Pode ser, mas atraiu a atenção, por exemplo, de um dos fundadores da Padaria Espiritual, o escritor Antônio Sales e o do vice-governador Beni de Carvalho. "Foi então que passei a fazer parte das rodas literárias de Fortaleza''.

Com a fundação do O POVO, em 1928, ela mudou de jornal e ganhou status de colaboradora permanente. Hoje, no apartamento do Rio de Janeiro, ela diz com saudade: "O POVO? Fui uma das fundadoras. É o meu jornal de coração, para o qual ainda escrevo''. Em 1930, o livro O Quinze e Rachel de Queiroz estavam prontos - "eu já era, então, jornalista profissional''. O primeiro e único emprego público veio nessa época também: professora interina da Escola Normal. Nas aulas de história, surpreendia as alunas. "Eu era mais nova que a maioria delas''. Popular entre normalistas, festejada como escritora, respeitada como jornalista, não teve jeito: eleita Rainha dos Estudantes.

No salão de honra da Escola Normal, tudo pronto para a solenidade. O vestido era longo, de cauda, de um cetim pesado, cor de pérola. Mas a coroa mal tocou a cabeça de Rachel de Queiroz. Uma notícia de última hora, gritada na base do "pára, pára'', acabou com a festa: João Pessoa havia sido assassinado em Recife. "As flores, os bolos, os presentes, foi tudo de roldão para o Pici''. Rainha e súditos, no entanto, não perderam o rebolado. "Estávamos sempre arranjando motivos para reuniões e manifestações''. (AA)

1° carro
Já era hora. Emprego novo, salário de quatrocentos mil réis por mês - "razoável naquela época''. Portanto, tempo de comprar o primeiro automóvel. Não deu outra. De quarta ou quinta mão, um Overland, assinado em dez promissórias, pela bagatela de dois contos e quinhentos. "Com esse carro derrubei o alpendre da casa do Pici e quase matei papai''. Seu Daniel ficou bravo, tomou a direção do Overland, fez a filha jurar nunca mais se aventurar a dirigir porque "além de louca, era cega''. Depois disso, "nunca mais peguei na direção de um carro''. Hoje, Rachel de Queiroz tem um Santana cor vinho. Mas, a promessa ainda está valendo. Dirige para ela a sobrinha e assistente, Letícia.

Outras vidas
Em Quixadá, certa vez, ela viu um disco voador. "Pensei ter visto, não posso afirmar'', corrige. Mas, de todas as novidades tecnológicas, Rachel de Queiroz não tem dúvida: as viagens ao espaço são o mais fantástico. "gora, as colônias em Marte eu não alcanço''. A pergunta em suspense é nesse tema. "Eu tenho curiosidade de saber é se existe outra forma de vida em outros planetas''. Mas, na afirmação seguinte, um baixa-bola para a arrogância humana - "a gente só é mais adiantado que os bichos. Aliás, eu conheço macaco muito sabido''. De qualquer forma, "no futuro, esses meninos vão se divertir muito''.

Pedro, a alegria
O dia mais feliz? Quando nasceu a filha Clotilde. O dia mais triste? Quando morreu a filha Clotilde. "A gente não devia sobreviver aos filhos, sabia?. Hoje, a alegria é assistir as peraltices do sobrinho-neto Pedro, filho da irmã Maria Luíza. "Ele chega aqui contando uma história de que fez 'pá, pá' na amiguinha Bibi''. Entre sorrisos e gestos soltos pelo ar na hora de falar do travesso Pedro, ela completa: ``imagine, dessa idade e já bate em mulher''.
Vergonha da cria

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